19 de março de 2014
1964-2014; ‘brutalidade’

por Luiz Roncari
(publicado em 14/03/2014 no Valor Econômico)

 

“Olerê, baiana…/ eu ia e não vou mais:/ eu faço/ que vou/ lá dentro, oh baiana!/ e volto do meio pra trás… -?” (“Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa)

O início da década de 1960 vinha carregado de promessas para a vida artística e cultural brasileira. Nem é preciso dizer sobre a quantidade de realizações com ideias e propostas novas que agitavam o cinema, o teatro, a literatura, a arquitetura, a música e mesmo a historiografia, a economia, a sociologia e outras áreas de reflexão sobre o país. Olhando de hoje, o Brasil prometia, havia uma efervescência saudável e produtiva na nossa vida intelectual. A violência do golpe de 64 não se restringiu ao campo político-institucional, foi também o começo da demolição de um universo cultural que se estruturava: escolas, associações, institutos, emissoras de rádio e televisão, universidades, revistas, jornais, editoras e os seus respectivos corpos técnicos de profissionais, como jornalistas, professores, escritores, cientistas, editores, pesquisadores. Nada ficou incólume à brutalidade.

No ano do cinquentenário do golpe, quando já deveríamos vê-lo pelas costas e superar definitivamente as suas consequências nefastas, na verdade nos inquietamos, ao perceber quantas similitudes guarda este ano com aquele: tanto um como outro podem ser considerados tempos de promessas e ameaças – sem dúvida em contextos muito distintos.

Quando João Guimarães Rosa publicou o seu quarto livro, “Primeiras Estórias”, em 1962, logo muitos perguntaram por que “Primeiras”, se na verdade era o seu terceiro livro de contos? Somente depois de bem digerido, como com as leituras pioneiras de Paulo Rónai e Luiz Costa Lima, é que se percebeu que as suas narrativas, apesar das ameaças e tensões de violência que continham, já expressavam um teor de vida mais serenado, pelo menos distante das virulências explícitas apresentadas nas obras anteriores: “Sagarana”, “Grande Sertão: Veredas”, “Corpo de Baile”.

O novo livro vinha a público logo depois das turbulências político-institucionais provocadas pela renúncia de Jânio Quadros, que suscitaram as mesmas apreensões decorrentes do suicídio de Getúlio Vargas. Assim como em 1954, retornava a ameaça de o mar virar sertão e de se reverterem as experiências político-institucionais que o país vivia. O que não ocorrera antes, e a eleição benfazeja de Juscelino Kubitschek e o seu governo tinham demonstrado que poderíamos continuar no caminho institucional, com soluções civis ordenadas.

Mas, em 1961, de novo, quando tudo parecia se revirar com novas ameaças de golpe civil e militar, e, como pergunta a canção, o país voltar “do meio para trás?”, ele conseguiu superar as soluções truculentas e reencontrar o caminho da legalidade, com a posse do vice-presidente constitucional, João Goulart. O Brasil havia atravessado o Rubicão? Tudo fazia acreditar que sim, pelo menos é o que pareciam dizer essas novas “estórias”.

Nelas, ainda que tenuemente, havia a presença da sombra de um poder maior, o do Estado legítimo, que chegava também aos rincões e continha as explosões arbitrárias de violência do poder privado. Essa era a promessa maior: a de que alguma força institucional se sobrepunha à ordem costumeira e da busca da vingança do sertão. Com isso poderíamos caminhar para uma vida mais urbana, civil e ordenada. As estórias de Guimarães Rosa eram então as “primeiras” de “um novo tempo”, o que o liberava para se concentrar nas próprias experiências literárias. O autor, como diplomata e funcionário de Estado, pensava o Brasil em termos político-institucionais; e, como escritor e homem de letras, preocupava-se mais com os padrões literários e civilizatórios – sabia porém que não poderia segmentar uma coisa da outra.

Não era muito diferente do que faziam os homens cultos de seu tempo. Todos, do jurista ao acadêmico, passando pelo filósofo, poeta e crítico literário, não tinham pruridos em falar em “civilização brasileira”, ainda que lhes ficasse sempre no fundo da consciência uma dúvida, se isso seria possível aqui, a superação do estado de sertão.

Nos anos 1950 e 60, se os ganhos políticos, institucionais e culturais continuavam ainda restritos e deixavam muita gente de fora, o crescimento econômico modificava o perfil da sociedade, em virtude do desenvolvimento industrial e urbano, às novas possibilidades de emprego, à migração interna, à educação pública gratuita, às políticas de renda, como o salário mínimo, a legislação e a organização trabalhistas. Nessa nova conjuntura, o povo pobre queria também entrar e participar de outros ganhos de uma vida mais plena.

Quem analisa as propostas de reformas do tempo pode ver que os “agitadores subversivos” de então não queriam revolucionar e acabar com tudo, inclusive os comunistas. O que queria a maioria era participar e gozar dos benefícios da ordem civil e do crescimento econômico. Os analfabetos, soldados, marinheiros e sargentos reivindicavam o direito de voto, e a reforma agrária proposta era a mesma que as nações europeias haviam feito logo depois da Segunda Guerra.

Foi, portanto, um tempo de emergência social grande, mas, por incrível que pareça, relativamente organizada. As camadas trabalhadoras iam aos comícios carregando as faixas de suas entidades, faziam questão de dizer quem eram e o que queriam. Ao contrário do que parece ocorrer hoje, não era uma massa amorfa, mascarada e violenta – ela era organizada em sindicatos, associações de classe e profissionais, partidos políticos, ligas camponesas. Informe era a massa da classe média que saía às ruas em Marcha da Família com Deus pela Liberdade, com a promoção e o apoio implícito e explícito de parte dos meios de comunicação, da Igreja Católica e de outras instituições, algumas americanas e clandestinas.

Hoje se sabe que Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, comunicava o sucesso delas ao Departamento de Estado americano e exultava, principalmente com a participação das classes médias e altas, mas lamentava a baixa participação das classes baixas. O artigo de Maria Clara R.M. do Prado, com o título contundente, “Renda, de volta a 1964”, talvez nos ajude a entender um pouco o porquê disso: “Às vésperas da data que marcará os 50 anos do golpe militar de 1964, o Brasil depara-se com um fato extraordinário e muito revelador: a distribuição de renda, medida pelo índice Gini, voltou praticamente ao que era em 1960” (Valor , 20/2/2014, pág. A13).

A maior similitude de 1964 com 2014 creio que seja esta: a emergência social. As camadas que tiveram ganhos econômicos e de renda nos últimos governos não querem mais só rolezinhos em shoppings e aeroportos, querem também entrar no concerto da nação, com boa educação, saúde, transporte, moradia, lazer e acesso à cultura. Como em 64, temos muitas promessas, mas enfrentamos também desafios semelhantes. Porém, se antes as camadas médias e altas tinham as próprias marchas, hoje elas se aproveitam e se misturam com os estudantes do Passe Livre, deixando os carros na garagem.

Quem aproveita e a que poderá levar a confusão? De novo: a desmoralização do voto e da representação política constituída por meio dele, a única legítima – pelo menos, até que se invente outra. O preocupante é que isso desemboque na formação do “bloco dos sem-votos”, composto por formadores de opinião, funcionários da Justiça e a intelligentsia do mundo das finanças e empresas, capaz de produzir um ninho de forças que poderá criar muita cobra. Basta apreciar a ânsia que existe no ar de encontrar um novo Collor, um líder avulso, sem partido consolidado e definição programática para o conjunto da nação, como a excitação que provocou o nome de Marina Silva e hoje desperta o de Joaquim Barbosa. Porém, e se não o conseguirem e o país continuar no caminho da normalidade institucional?

Talvez se dê mais uma razão para se prosseguir com a desqualificação do voto e de suas instâncias políticas; perspectiva que pode ser muito reforçada pelos ruídos que chegam também de fora, gerados pelas circunstâncias mais diversas: do Egito, da Argentina, Ucrânia, Venezuela, Síria. Ainda não se levantou aqui o espantalho do “populismo” e da “demagogia”, como em 64, talvez porque o da “corrupção” tenha rendido mais. Porém, não foi suficiente. Parece ser essa agora a nossa sina, a de um país na busca de espantalhos para o regresso, como pergunta a canção do “Grande Sertão”, e voltar “do meio pra trás… -?”. A boa literatura, como a de Guimarães Rosa, preocupou-se com isso.

Luiz Roncari é professor titular de literatura brasileira da USP, autor, entre outros, de “Buriti do Brasil e da Grécia: Patriarcalismo e Dionisismo no Sertão de Guimarães Rosa” (Editora 34, 2013)

 

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