Arquivo de maio de 2009

22 de maio de 2009
Morte do modelo chinês?

Por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no jornal Valor Econômico em 21/05/2009)

A questão não é nova. Foi tema de farta discussão no final da década de 80, no Século XX, quando a economia japonesa entrou em um longo período de depressão, do qual, acredita-se, não ter ainda saído.

A extraordinária expansão entre as décadas de 70 e de 80 que transformou o Japão em reconhecida potência mundial, todos sabem, foram sustentados pelo modelo econômico de desenvolvimento que privilegia o crescimento a partir da exportação. Ou seja, o país desvia toda a sua capacidade de produção à venda ao mercado internacional. Para isso funcionar, no entanto, é preciso que tal país disponha internamente de uma forte propensão à poupança, situação em que o consumo doméstico é postergado para o futuro.

Mas não basta isso. Para ser bem sucedido, o modelo impõe também a necessidade de existirem sempre, na outra ponta, países importadores, dispostos a absorverem internamente o resultado da poupança acumulada no país exportador.

O modelo japonês foi replicado à farta pelos países do Sudeste Asiático, transformados em tigres nos primeiros anos da década de 90, até que tiveram de se contentar com as dóceis características dos felinos domesticáveis a partir da crise cambial que afetou profundamente a região em 1997.

Naquele momento, a China já havia aberto sua economia para o mundo e dava passos largos na consolidação do mesmo modelo de crescimento baseado na exportação. Passou a ser então depositária dos investimentos estrangeiros em busca de oportunidades de negócios e cresceu robustamente nos últimos dez anos tal e qual um espelho invertido cuja imagem reflexa era a expansão dos níveis de consumo nos Estados Unidos.

Toda aquela “engrenagem” simbionte rompeu-se com a crise do excesso de liquidez que vinha alimentando insustentáveis alavancagens financeiras com drásticas consequências para a economia americana.

E está ali justamente o fulcro das questões que têm sido ardentemente levantadas por especialistas desde então: para onde caminha o modelo chinês de desenvolvimento com o empobrecimento do consumo nos Estados Unidos?

Foi o tema da palestra do economista Michael Pettis, graduado pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, dedicado desde 2001 ao entendimento da economia chinesa e atual professor da Guangha School of Management da Universidade de Pequim. O título da palestra, proferida no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) na semana passada, era “The Global Crisis seen from China” (“A Crise Global vista da China”), mas quase todo o tempo da fala de Pettis foi ocupado pela preocupação com o futuro econômico da China.

O ponto central de sua apreensão tem a ver justamente com o seguinte fato concreto: para quem os chineses vão vender seus produtos considerando a perspectiva (inclusive com o aval político do presidente Barack Obama) de que por um bom tempo o alto consumo nos Estados Unidos venha a ser substituído por aumento da poupança?

Em outras palavras, que país ou grupo de país tem hoje condições econômicas de incorrer em enormes déficits em suas balanças comerciais para sustentar os superávits comerciais da China?

Pettis acha que com a retração dos Estados Unidos nenhum outro país ou área econômica será capaz de absorver a produção excedente – crescimento do PIB acima da taxa de expansão do consumo doméstico – da China. Não restaria, portanto, aos chineses nenhuma alternativa que não seja a do estímulo ao consumo interno. Isso parece claro até mesmo para algumas autoridades do governo chinês, mas Pettis argui justamente a eficácia das medidas tomadas com o objetivo de transformar gradualmente a China em um país com a economia orientada para o consumo interno em oposição ao modelo em vigor, orientado para a exportação.

Sem dúvida, as providências introduzidas pelas autoridades chinesas para estimular o consumo têm gerado algumas respostas concretas, como a retomada das vendas de automóveis, de investimentos em alguns grandes empreendimentos, além de outros dados indicativos de que a economia voltou a crescer com certo ímpeto. Isso suscitou uma nova onda de expectativas positivas. Muitos analistas independentes ou vinculados a bancos de investimento voltaram a apostar fichas em um crescimento mais expressivo da China para este ano, com previsões que pularam da faixa entre 5,5% e 6,5% para 7% e 8%.

Em meio à melhoria do humor do mercado, Pettis mantém-se cético. Ele acha, para começar, que o pacote de medidas padece do mesmo viés do modelo vigente, ou seja, direciona-se ao aumento da produção com a série de incentivos que passaram a ser distribuídos em especial para investimentos de maior porte. Não deixando de mencionar o fato de que o grande investidor e consumidor na China é o governo. O objetivo óbvio das autoridades com a política de estímulos é evitar o desemprego maciço, mas o ponto em discussão é de que não há ainda massa de consumo com renda suficiente para absorver internamente a quantidade de produto ofertada pelas empresas na China.

Alguns economistas argumentam que o descompasso entre consumo e produção internos será rapidamente resolvido com a política do governo de estimular os bancos a ampliarem suas linhas de crédito. Recorde-se que o saldo de empréstimos cresceu 15% na China, no primeiro trimestre deste ano. Mas também aqui Pettis não se mostra nada animado, pois acredita ser forte a tendência dos novos empréstimos transformarem-se rapidamente em créditos podres, contribuindo para deteriorar o sistema bancário, uma vez que boa parte dos novos empréstimos destina-se justamente a financiar o aumento da capacidade de produção. Esta, como se viu acima, não terá para quem vender.

“A cultura do crédito é muito fraca na China e antevejo um período de empréstimos não liquidados no futuro”, disse Pettis na palestra do iFHC, convencido de que as medidas das autoridades chinesas para adaptar o país à queda do déficit comercial dos Estados Unidos estão equivocadas.

Todos os pontos apresentados por ele no iFHC estão amplificados em seu blog www.mpettis.com Ali, ele anuncia a morte do modelo chinês supondo o aprofundamento da crise dos EUA e antecipa que a China tende a entrar em uma década perdida caso as autoridades não introduzam medidas que impliquem na efetiva mudança do modelo de desenvolvimento.

8 de maio de 2009
Qual a hora da virada?

Por Maria Clara R.M. do Prado

(publicado  no jornal Valor Econômico em 07/05/2009)

As boas notícias dos últimos dias rapidamente parecem ter alterado o humor geral. A euforia começou a dar ares da graça no rastro do significativo aumento ocorrido nos índices das bolsas de valores, em geral, puxados, pasme-se, pelas ações de bancos, de um lado, e pelas ações das companhias petrolíferas, de outro. Até o aumento do preço do petróleo, conforme observado recentemente, indica que há algum fôlego no processo produtivo, ainda que alimentado por medidas de estímulo artificial à demanda.

Teríamos transposto, finalmente, o pior da crise? É a pergunta que todos se fazem. A resposta não é simples. Dá para sentir que a despeito das estatísticas e dos prognósticos ainda pessimistas, os espíritos andam mais animados. Um rápido passeio pela florida e bela Madrid passa a sensação de que a crise, atestada em sua gravidade pelos dados oficiais, não ecoa pelas ruas. Sente-se no ar certa tranqüilidade, como se as pessoas estivessem confiantes de que ao fim e ao cabo se voltará mais rápido do que se pensa à maravilhosa era de crescimento e estabilidade que marcou o mundo dos anos 90 até a fatídica débâcle do setor imobiliário norte-americano, em julho de 2007.

No entanto, as taxas de desemprego continuam a crescer, ainda que em ritmo menos acentuado. Também os novos investimentos mantêm-se paralisados. Os sinais efetivos de recuperação são débeis, difusos e dúbios. Espera-se que a violenta crise tenha servido pelo menos para aliviar em boa parte os desequilíbrios que se acumularam ao longo dos últimos anos entre as economias chamadas avançadas e as suas co-irmãs menos desenvolvidas. O FMI, como se sabe, aposta fichas naquele sentido.

Na última edição do World Economic Outlook (WEO) – uma espécie de bíblia semestral que prega a adoção de políticas econômicas para os países em geral e em particular, além de analisar o passado e prognosticar o futuro – o FMI prevê que o desequilíbrio global (medido pela discrepância observada entre as contas-correntes dos balanços de pagamentos dos vários países) tende a alinhar-se em algo em torno de 4% do PIB mundial depois de ter chegado a 5,75% do PIB em 2007. Trata-se de um ajuste significativo, impulsionado sobretudo pela esperada redução do déficit em conta-corrente dos Estados Unidos (de 6% em 2006 cairia para 3,25% em 2009).

Mas não apenas isso. Também outros países que sofriam de enormes déficits em conta-corrente provocados pelo “boom” creditício – como a Grã-Bretanha e outros países da Europa Ocidental, além da Europa Oriental – vão contribuir para um reposicionamento do desequilíbrio global. Mas o grau disso, se maior ou menor, dependerá substancialmente de uma incógnita fundamental, ou seja, dos resultados superavitários na conta-corrente de alguns emergentes. Notadamente a China, além dos países exportadores de petróleo que passam a contar com novo fôlego para inversões em ativos estrangeiros à medida que o preço do petróleo mantém-se em alta. Ontem, o barril negociado para entrega futura beirou os US$ 56 no mercado de Nova York, o maior preço desde novembro de 2008.

A questão básica que se coloca, portanto, é a seguinte: que força terão os países em desenvolvimento para garantirem ainda neste semestre uma virada da crise? Disso, como se sabe, tenderia a desabrochar uma nova onda salutar de comércio externo com potencial para impulsionar novamente o mercado não apenas de bens, mas principalmente o mercado financeiro.

Por enquanto, conforme nota o FMI, a produção de commodities no mundo tem se destinado à ampliação dos estoques. Observe-se que os preços mais baixos do mercado à vista estão em descompasso com os preços mais altos apontados pelos mercados futuros. Significa que os “traders” de commodities – de produtos agrícolas, de minérios ou metais – estão apostando em uma alta de preços no médio prazo. Isso certamente resultaria em ganhos de margens que podem ser significativos para quem carregou estoques a custos que beiram taxas reais de juros muito baixas e, em alguns casos, até negativa.

A resposta está na demanda, claro, muito mais do que do lado da oferta. O próprio FMI indica que apesar do lado da oferta pesar para a recuperação econômica mundial, esta não tende a ser um fator de constrangimento nas primeiras etapas de uma nova era de expansão global. A razão disso, indica, deve-se ao fato de que os investimentos comprometidos em grandes projetos tendem a ser mantidos mesmo que em menor ritmo. A capacidade produtiva, portanto, neste caso, seria preservada acima da recomposição da demanda por um tempo.

Chega-se, aqui, ao fulcro do problema, que é justamente quando e a que velocidade a demanda será retomada. Sabe-se que esta ainda está intimamente ligada ao fator credibilidade no sistema financeiro internacional. Apesar da alta que se observa nos preços de ações de alguns bancos e da sensação geral de que os casos mais sérios de débâcle bancária foram já superados, nada garante que as transações financeiras serão mais transparentes e seguras daqui para frente.
Sim, porque o ponto xis, causador da crise deflagrada em meados de 2007 e acentuada em fins de 2008, não foi, como alguns economistas imaginavam, o crescente desequilíbrio entre as contas-correntes dos vários países que mantiveram por muitos anos o dólar em estado latente de desvalorização face a outras moedas, mais ou menos fortes.

O próprio FMI em seu último WEO atesta de forma muito clara que a crise teve raiz basicamente na displicência regulatória que deixou as operações de crédito totalmente frouxas, montadas que foram ao saber simplesmente dos interesses das instituições financeiras. “Apesar dos desequilíbrios globais terem funcionado como fator de expansão dos excessos financeiros e macroeconômicos que levaram à crise, esta foi largamente causada pela insipiente administração de risco nas grandes instituições localizadas no coração do sistema financeiro global, combinada com as falhas observadas na regulação financeira e na supervisão”, diz o FMI.

Um perigo se coloca à vista. O de que o mundo volte a passar por um novo período de prosperidade, mais cedo ou mais tarde, sem que a causa principal da crise em que se vive tenha sido solucionada. O mais grave é que a solução, no caso, não depende dos mercados, mas da disposição das autoridades governamentais.