Arquivo de junho de 2009

18 de junho de 2009
Pesada conta para o futuro

Por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no jornal Valor Econômico em 18/06/2009)

A crise financeira internacional vai esmaecendo no segmento onde se desenvolveu e bateu mais forte no final do ano passado, ou seja, no setor bancário e segmentos correlatos. Os efeitos do seu desdobramento no setor real da economia, porém, ainda se fazem sentir com muita nitidez. As pobres projeções para o PIB, principalmente nos países mais industrializados, estão aí para comprovar o estado de recessão que vai marcar a economia mundial neste ano de 2009.

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As políticas públicas anticíclicas, absolutamente necessárias em situações adversas como esta, parecem surtir as consequências desejadas aqui e ali de evitar uma queda desenfreada e fora de controle do processo de geração da renda. Isso tem sido cada vez mais claro nos Estados Unidos. Mas não se faz omelete sem quebrar os ovos, diz o ditado popular. Sabe-se, portanto, que a contrapartida de todo o esforço de estímulo à atividade econômica resulta em pesado custo que caberá à próxima geração pagar.

O receio maior que se delineia para os próximos anos tem a ver com as estimativas de profunda deterioração nas finanças públicas. Na Europa, os países serão todos afetados com déficits projetados para este ano bem acima de 3% do PIB. Mas a pior situação é a dos Estados Unidos. Os analistas têm alertado para o quadro que está por se confirmar nos próximos anos e até mesmo o presidente do Federal Reserve (o banco central americano) não tem escondido sua preocupação com o tamanho do problema fiscal que se desenha para o médio prazo. O quadro ao lado, publicado pela Carta Galanto, na edição de maio deste ano, retrata bem o motivo das preocupações.

As estimativas oficiais do próprio governo americano apontam para um déficit fiscal da ordem de quase 13% do PIB este ano, mantendo-se elevado, em torno de 8,5% do PIB, em 2010, e em 6% do PIB em 2011.

A equipe da consultoria Galanto, coordenada pelo economista e professor da PUC do Rio, Dionísio Dias Carneiro, avalia que naquele ritmo – considerando perspectivas não muito pessimistas para a evolução do PIB e para os custos de financiamento dos títulos públicos – o estoque da dívida do governo dos Estados Unidos venha a ultrapassar 100% do PIB e permaneça neste patamar por alguns anos. Tudo vai depender do nível da atividade econômica nos próximos anos, mas dado o tamanho da encrenca outras variáveis não podem ser desconsideradas.

Dionísio e sua turma chamam a atenção para a deterioração das contas públicas nos Estados que foram mais afetados pela crise imobiliária, como é o caso da Califórnia, que consideram como fonte adicional do agravamento das finanças do governo federal. Neste caso, as necessidades de financiamento da dívida pública projetadas pelo próprio governo americano podem estar subestimadas. Além disso, há o peso dos programas de reestruturação prometidos pelo presidente eleito durante a campanha.

“Aliado ao ambicioso programa de gastos com saúde e com a mudança da matriz energética propostos por Obama, que devem aumentar o déficit estrutural, o esforço fiscal para reverter o déficit deverá ser bem maior do que o que ocorreu no final da década de 90”, dizem Dionísio Carneiro e Mônica Baumgarten de Bolle, que assinam a avaliação.

O problema é complexo porque não para ali. A percepção de aumento expressivo do endividamento público dos Estados Unidos começa a afetar a curva de juros dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, denotando instabilidade e comprometimento da confiança nos papéis cujo objetivo é justamente o de financiar o déficit público. Afinal, recorde-se que as baixas taxas de juros praticadas pelo Fed ajudam a evitar uma explosão ainda maior da dívida do setor público.

“A perspectiva de que o inchaço dos balanços do setor público e o peso da dívida tenham de ser corroídos gradualmente pela aceleração inflacionária é cada vez mais premente, o que derruba a sustentabilidade de médio prazo da política de juros baixíssimos”, dizem a dupla Dionísio e Mônica, que destacam ainda o efeito perverso do aumento das taxas para títulos longos do Tesouro dos Estados Unidos (com prazo superior a 15 anos) em uma economia que ainda se debate com os efeitos da deterioração do mercado de hipotecas.

Os ajustes necessários a que a economia americana volte ao eixo de equilíbrio com déficit baixo e inflação baixa que marcaram a segunda metade dos anos 90 devem demandar muito esforço nos próximos anos.

O que se discute no momento está longe de ser trivial. Trata-se de saber se os EUA terão condições de manter o chamado “privilégio exorbitante” que resume tudo o que garantiu ao país a posição de primazia no cenário econômico mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A expressão resume um combinado de percepções como a estabilidade das regras e das instituições, perspectivas de economia em expansão, forte mercado consumidor, flexibilidade de mercados, avanço tecnológico, enfim, tudo o que garantiu enormes vantagens comparativas ao país com reflexos na preferência pelo dólar nas transações do mercado internacional.

A cada dia que passa, vai desaparecendo a impressão de que todos os males dos EUA existem por culpa do governo Bush. Fica cada vez mais claro que os erros e falhas na administração da economia são de responsabilidade do governo Obama e é justamente por isso é que o elemento confiança passa a ter um significado maior no comportamento das principais variáveis daqui para frente.

5 de junho de 2009
A Europa em parafuso

Por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no jornal Valor Econômico em 04/06/2009)

No início do ano, em meio à arrepiante perspectiva de profunda recessão mundial, quando a economia dos Estados Unidos era o principal alvo das preocupações, a Europa conseguiu manter certa dignidade e a crença de que caminhava de forma mais satisfatória para evitar o pior, o que quer que isso pudesse significar.

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Em março, o lado mais pobre do continente amargou momentos de descrédito na capacidade que teriam suas economias de vencer a turbulência. Os países da Europa Central rapidamente ganharam espaço nos compêndios analíticos de bancos de investimento e consultorias especializadas.

Agora é a vez dos países mais ricos da Europa, os eleitos da zona do euro, de atravessarem a sua fase de inferno de Dante. As recentes estatísticas de desemprego, de queda de investimentos e de redução dos estoques já levam a projeções de retração de cerca de 4,5% no PIB da região este ano.

Curioso é perceber os reflexos que a débâcle econômica tem sobre o comportamento de pessoas e de instituições, como se a desesperança e a angústia que nasce e cresce com a confirmação das estatísticas ruins fosse capaz de criar tentáculos deletérios com força suficiente para desorganizar o comportamento de grupos sociais e até de governos. Os exemplos se acumulam.

O mais gritante é o tamanho da trapalhada em que se meteu o governo de Gordon Brown – que não é da zona do euro, mas está no centro do poder da Europa – com os inúmeros casos de suspeita de malversação de recursos públicos, quedas de ministros e, para culminar, o estranho episódio que envolveu a rainha Elizabeth II, relacionado às comemorações do desembarque das tropas aliadas na Normandia.

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel exortou pela primeira vez os bancos centrais dos países industrializados a ajustarem suas políticas, revelando-se cética quanto às medidas monetárias. Ela defendeu bancos centrais mais independentes e criticou a intenção do Banco Central Europeu (BCE) de recomprar papéis no mercado, cujo valor estava previsto preliminarmente em € 60 bilhões.

A questão central é que a farta injeção de liquidez patrocinada pelo BCE desde os primórdios da crise, não tem aparentemente surtido o esperado efeito de evitar a depressão econômica. Pior entre os principais países europeus, justamente por ter baseado seu crescimento no modelo voltado para a exportação, a Alemanha vive situação complicada, mas Espanha, Itália, Irlanda e Portugal não estão melhores. Também a Suíça padece dos piores momentos desde a primeira metade do Século XX.

O BCE – que ontem enfrentou a primeira greve de funcionários da sua história e muito provavelmente da história de seu antecessor, o Bundesbank – reúne hoje em Frankfurt o conselho de governadores para deliberar sobre a taxa de juros e definir a medida de recompra de títulos no mercado.

Se decidir por manter a taxa de juros básica em 1% ao ano (recorde-se que chegou a 4,25% ao ano em outubro passado), uma árdua tarefa coloca-se à frente de Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu. Ele terá de apresentar bons argumentos para convencer a todos os que pressionam pela redução ainda maior das taxas de juros na zona do euro. Como se sabe, a inflação na zona dos 16 países do euro foi nula em maio, medida em bases anuais, e já se estima que seja negativa neste mês de junho.

Incrível notar, na tabela ao lado, que há apenas um ano a inflação do euro chegou a 4%. O problema que o Banco Central Europeu e os governos europeus têm de enfrentar não é nada trivial. A combinação de queda drástica no produto com acentuada redução da inflação reforça o temor de deflação que pode levar a economia à estagnação por período prolongado. Por enquanto, há esperanças de que um novo repique nos preços das commodities e principalmente do petróleo venha a puxar os preços para cima nos próximos meses e, por incrível que pareça, ajudar com isso a colocar a engrenagem novamente em funcionamento.

Isso não quer dizer que o mundo almeje ardentemente mais inflação. É preciso ter bem claro de que dimensão está a se falar. No curto prazo, uma pequena inflação é salutar, pois pode ter o efeito de estancar o processo de queda contínua dos preços que leva inexoravelmente a mais desemprego, queda de renda, fechamento de fábricas, enfim.

Mas a dimensão do longo prazo também está no horizonte e teme-se, genuinamente, que as robustas operações de socorro aos bancos no hemisfério norte e suas consequências nas contas do setor público venham a colocar o mundo em nova espiral inflacionária dentro de dois ou três anos. Ontem, o presidente do Fed, Ben Bernanke, alertou para os efeitos que um crescente déficit fiscal pode ter sobre a sustentabilidade do crescimento no longo prazo. Ele manifestou apreensão, particularmente, com o aumento da rentabilidade praticada no mercado com os títulos do Tesouro dos Estados Unidos de longo prazo.

Difícil de entender? Sim, na certa, mas a confusão de opiniões e de expectativas serve para indicar a complexidade da situação em que o planeta se meteu.