Arquivo de março de 2012

15 de março de 2012
O paradoxo do juro e a ‘força do real’

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 15/03/2012)
“Acabar com a força do real”. Essa é a receita de Jim O’Neill, do Goldman Sachs, alçado à fama pela sigla Bric – uma sacada de cunho mais mercadológico do que econômico -, para o Brasil recuperar a competitividade. Não é o ovo de Colombo. Desde que as moedas existem, sabe-se que o enfraquecimento do valor de troca de uma moeda em comparação com outra torna os produtos da primeira mais baratos (tudo o mais constante) nas negociações internacionais.
O conselho é, portanto, trivial. Mas, todos sabem, de difícil resolução. Como fazer para brecar a entrada no país de parte dos US$ 8,8 trilhões que nas contas da presidente Dilma Rousseff vagueiam pelo mundo à procura de pouso rentável e seguro?
O governo tem tentado algumas barreiras, mas todas paliativas diante do tamanho do que ela chama de “tsunami”. A verdade é que a valorização do real é inevitável no contexto mundial onde as economias mais avançadas patinam a despeito dos incentivos monetários distribuídos à farta, ainda que os objetivos dos Estados Unidos sejam diferentes dos da Europa. Ao Banco Central (BC) não restou alternativa senão a de retomar a trajetória de queda dos juros básicos da economia, já agora com menos resistência do sistema financeiro que, rendido às evidências, parece não ter encontrado ainda um norte. Espanta, por exemplo, saber que as projeções do mercado para este ano apontam inflação em alta e juros em queda. Um sinal de que o novo paradigma da política econômica do governo Dilma não é ainda totalmente compreendido. Ou será que existe de fato um novo paradigma?
O ponto de dúvida está na percepção generalizada e correta de que a redução da taxa de juros básica pode não ser suficiente para limitar com efetividade o ingresso do capital estrangeiro no país. Ajuda, sem dúvida, a reduzir a chamada arbitragem que estimula a aplicação do dinheiro onde a rentabilidade garantida é maior. A taxa de 9,75% da Selic ao ano, fixada na última reunião do Copom, ainda é alta se comparada às taxas praticadas nos países mais desenvolvidos, de onde têm saído baldes e baldes de liquidez. Considerando cerca de 1,5 ponto de percentual que envolve o custo do risco Brasil e a inflação de 5,85% medida pelo IPCA, para 12 meses no fim de fevereiro, o diferencial entre a Selic e a taxa básica do Fed (cerca de zero) está em torno de 2,4%, grosso modo.
Quanto mais a inflação por aqui cair – algo que não está nos cenários dos analistas – maior será o diferencial de juros (sempre levando em conta os juros de curto prazo), obrigando o BC a reduzir ainda mais a Selic. Temos, assim, uma curiosa política monetária: aquela em que a autoridade atua a reboque da inflação e não adiante dela. Não se deve estranhar, portanto, que a meta de inflação – cujo núcleo, referenciado ao IPCA, é de 4,5% – tenha deixado de ser o alvo do BC. Se o principal objetivo for reduzir o diferencial da arbitragem, o ideal para o BC é ter inflação mais alta e juro nominal mais baixo.
Muito menos deve causar surpresa a indicação do ministro Guido Mantega de que o câmbio no Brasil não flutua, mas é administrado. Aqui, sim, a novidade é nenhuma, apenas o governo passou a admitir o que já se praticava há muito tempo.
O enrosco da questão é complicado. De um lado, existe um limite para a queda do juro real básico. Esse limite é dado pelo ponto em que as aplicações financeiras deixam de ser interessantes e são substituídas por investimentos em ativos reais, como ouro, imóveis, e outros bens que podem representar acúmulo de riqueza. Que ponto seria esse? A que nível de taxa de juro real os investidores, nacionais e estrangeiros, estariam inclinados a abandonar os ativos financeiros? Gente do mercado acha que dá para aguentar com juro real de até 2% ao ano, supondo que esse seria o rendimento líquido, já descontado imposto e outras taxas.
E o câmbio? Onde entra nessa história? Hoje, o peso do câmbio nos cálculos da arbitragem entre uma moeda e outra é bem menor do que já foi no passado. E, a despeito da confissão oficial de que o câmbio no Brasil é “sujo”, não há muito que se possa fazer em termos administrativos com impacto para puxar o dólar para cima. Quarentena? Pode ser uma solução, mas depende do prazo, da regra de saída, e outros detalhes. Há quem diga que não funcionou no Chile.
O sr. Jim O’Neill bem que podia dar algumas sugestões sobre o que fazer para desvalorizar o real em pelo menos 20%, medida que, segundo ele, daria mais competitividade para os produtos brasileiros. Ele com certeza não se deu conta do emaranhado de tributos e exigências, além da deficiência dos investimentos em inovação e tecnologia que pesam no alto custo da produção industrial, sem falar na mão de obra. Câmbio, se fosse possível, não seria a panaceia!
O fato de o BC ter comprado US$ 958 milhões (quase US$ 1 bilhão) do mercado em apenas cinco dias, de 5 a 9 de março, é um indicativo de que ao invés de “acabar com a força do real com uma desvalorização” seria, talvez, mais produtivo colocar uma placa bem grande na porta do país: “proíbe-se a entrada de qualquer tipo de capital estrangeiro!”.

(publicado no jornal Valor Econômico em 15/03/2012)

“Acabar com a força do real”. Essa é a receita de Jim O’Neill, do Goldman Sachs, alçado à fama pela sigla Bric – uma sacada de cunho mais mercadológico do que econômico -, para o Brasil recuperar a competitividade. Não é o ovo de Colombo. Desde que as moedas existem, sabe-se que o enfraquecimento do valor de troca de uma moeda em comparação com outra torna os produtos da primeira mais baratos (tudo o mais constante) nas negociações internacionais. [ leia mais ]

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