Arquivo de janeiro de 2013

21 de janeiro de 2013
Valor agregado no comércio externo

Maria Clara R. M. do Prado

Um celular do tipo smartphone exportado pela China para os Estados Unidos pelo valor de US$ 100 tem, em geral, de US$ 10 a US$ 20 de produtos de origem chinesa. O resto vem de outros países. São produtos e serviços que a China importa na forma de partes, componentes, design ou outros tipos para produzir o celular e vendê-lo totalmente montado para o mercado norte-americano.

Na balança comercial da China, aquele celular será computado como receita no valor de US$ 100. No entanto, quando medido em termos de valor agregado aquela exportação terá efetivamente rendido à China muito menos, ou seja, 10% a 20% do valor bruto total.

Aquele é apenas um exemplo captado pelo novo sistema de mensuração do comércio externo mundial, montado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em parceria com a OCDE (Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico). O objetivo é obter informações sobre o comércio internacional a partir do conceito de valor agregado (VA). Ou seja, uma tentativa de medir quanto foi alocado de produto importado nas diversas etapas da cadeia de oferta de produtos finais e de serviços entre os países.

O resultado da aplicação da nova estatística apresentada na semana passada pela parceria OMC-OCDE mostra o grau de internacionalização comercial entre os diferentes países e ajuda a entender melhor o efetivo papel do comércio externo na geração da renda e dos empregos. [ leia mais ]

17 de janeiro de 2013
Inflação não se administra

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 17/01/2013 no Valor Econômico)

 

O governo optou pela tática de administrar a taxa de inflação. Não é a primeira vez que isso ocorre no país. Houve ocasiões, no passado, em que índices de preços foram manipulados. Em outras, tentou-se o tabelamento de preços e acordos informais com o setor privado visando “segurar” o aumento de preços. Nada disso funcionou. Inflação represada não desaparece como por encanto, ela simplesmente existe, em algum momento mostra a sua cara e pode ressurgir com picos ainda mais altos, uma desagradável surpresa para quem ousou intervir na formação natural dos preços.

A perspectiva de um IPCA mais alto é, talvez, o pior que poderia acontecer nesta fase do governo da presidente Dilma Rousseff. A menos de dois anos das eleições, há o risco de uma inflação crescente comer parte da renda dos 40 milhões a 50 milhões de brasileiros que emergiram para uma vida mais civilizada nos últimos dez anos. Há certo exagero aqui, mas nunca é ruim exagerar para prevenir o pior.

A inflação não nasce por geração espontânea. Se roda hoje ao redor de 5,5% a 6% ao ano é porque a economia funciona de forma a que os preços praticados sejam mais altos. Há explicações conjunturais e estruturais para isso.

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17 de janeiro de 2013
Goethe e a economia

Maria Clara R. M. do Prado

Considerado grande escritor e pensador alemão, ao lado de Friedrich von Schiller, seu amigo pessoal e interlocutor intelectual, Johann Wolfgang von Goethe tornou-se mundialmente famoso e influente pela sua obra literária.

“Os sofrimentos do Jovem Werther”, publicado em 1774, quando tinha apenas 25 anos, foi um sucesso quase que imediato e espalhou pela Europa o nome de Goethe. Outros relevantes romances e poemas surgiram depois, como “Os anos de aprendizado de Wihelm Meister” e “Afinidades eletivas”.

Sua mais destacada obra é “Fausto”. Escrita em forma de poema, com estrutura de peça de teatro, divide-se em duas partes, tendo a primeira sido lançada em 1808 e a segunda, anos mais tarde, em 1832, depois da  morte de Goethe, aos 82 anos, ocorrida naquele mesmo ano, na cidade de Weimar.

 

Naquele poema trágico, Goethe narra o embate entre a ambição de Fausto e o preço que teve de pagar para alcançar as conquistas desejadas, entregando a própria vida a Mefistófeles.

É um clássico! Mas Goethe foi também advogado, geólogo, botânico, entendido em mineralogia, além de ter se dedicado ao estudo das cores. Chegou a escrever um Tratado das Cores. Essas várias facetas da sua vida são fartamente conhecidas, pelo menos por quem se interessa pela sua obra.

 

As façanhas de Goethe foram, no entanto, ainda mais longe, perpassando não apenas um reles interesse, mas uma atuação efetiva no mundo da economia e das finanças. Alexandro Merli, jornalista do Il Sole 24Ore, escreveu em dezembro um excelente artigo sobre a grande importância dedicada pelo escritor alemão aos temas econômicos, tendo, inclusive, ocupado o cargo de Ministro das Finanças do Grão-Duque Carlos Augusto da Saxônia-Weimar-Eisenach.

Goethe teria idealizado o Goethische Finanzreform, um programa de austeridade e de conversão da dívida, desenhado em 1782.

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9 de janeiro de 2013
Fantoches desiludidos

Maria Clara R. M. do Prado

 

” Tesis sobre un homicidio”, prestes a entrar no circuito em Buenos Aires , é o nome do novo filme em que Ricardo Darín, o carismático ator argentino, mais uma vez interpreta um personagem que investiga por conta própria o assassinato de uma jovem. Darín faz o papel de um professor de Direito Penal, com fama de Don Juan e alguma aura de mistério por um passado nebuloso e uma vida solitária, obcecado pela idéia de que um de seus alunos foi o responsável pelo crime. O filme tem a direção de  Hernán Goldfrid e toma por base o livro de Diego Paszkowski.

Veja o trailer:

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=1Rn552MEgzI

 

Não foi o filme, no entanto, que colocou Darín em evidência na mídia mundial, nestes primeiros dias do ano, e sim a polêmica declaração que deu à edição de janeiro da revista argentina Brando, na qual sugere que Cristina Kirchner dê explicações sobre o aumento do seu patrimônio. As mídias sociais, e a imprensa escrita, falada e televisionada puseram em destaque o ping-pong de notas, contestações, desmentidos, reafirmações, toda a repercussão suscitada pelo episódio. A própria Presidente da Argentina botou a boca no mundo para que não houvesse dúvida sobre a origem lícita dos seus bens.

Vale notar e conferir que a menção de Ricardo Darín à situação patrimonial de Cristina ocupa apenas um pequeno trecho de uma entrevista eivada de lucidez e extremamente oportuna na fase atual porque passa a Argentina. Ele fala de um país dividido, tomado pela intolerância contra o pensamento distinto daquele imposto pelo governo, que faz as vezes do papá a quem as crianças devem obediência. Um país que perdeu a ilusão.

Abaixo, a íntegra no original da entrevista dada por Ricardo Darín ao jornalista Pablo Perantuono, publicada pela revista Brando em janeiro:

 

Ricardo Darín: “Somos un país niño”

Por Pablo Perantuono

Fotos: Vera Rosemberg y Mariana Eliano

Producción: Pía Rey

 

Eran agitados esos días de diciembre del encuentro con Ricardo Darín. El 7D, como una suerte de Y2K -¿se acuerdan del colapso del mundo por el cambio de milenio?-, estaba a la vuelta de la esquina. Nadie sabía demasiado qué consecuencias traería para el hombre común ese día, esa ley, ese cambio, pero la presencia omnímoda de esa fecha les daba a aquellas horas frenéticas un hálito de inminencia inquietante. En ese panorama, posterior al cacerolazo del 28N, Darín se paraba como quien quiere observar y opinar sobre dos ejércitos gritones que van a estrellarse de frente.

Y no era muy optimista.

Darín: Están pasando cosas rarísimas. No se nos permite pensar fuera de lo establecido. Te dicen lo que tenés que pensar y en qué dirección, y si no estás de acuerdo, sos un hijo de puta.  [ leia mais ]

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8 de janeiro de 2013
Diálogo tenebroso na Fonte da Saudade

Maria Clara R. M do Prado

Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, rua Fonte da Saudade, segunda-feira, dia 07 de janeiro, 21hs, mal o ano de 2013 começa e o seguinte diálogo prenuncia a gravidade de um problema recorrente:

– Alô.

– Oi, Lu, sou eu, a Bia.

– Oi, Bia, tudo bem? Não posso falar agora porque estou de mudança temporária para a casa do meu avô, que mora aqui do lado.

– O que aconteceu?

– É que pela vigééésima vez este ano, ou quase isso, estamos sem luz em casa, isto é, falta energia nos quartos, e com esse calor que beira os 40 graus, é humanamente impossível dormir sem ar-condicionado.

– Você disse, nos quartos?

– É, porque temos energia na cozinha. Na casa do meu avô, a poucos metros daqui, há luz nos quartos, mas falta energia nos demais cômodos, estranho, muito estranho, para dizer o mínimo.

– É bem estranho mesmo, amiga. Tá, depois falamos com mais calma. Aqui onde eu moro, temos luz hoje, mas ontem tivemos falta de energia por umas três horas. Boa sorte. Beijão.

– Beijo, amanhã te ligo.

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