Arquivo de fevereiro de 2013

27 de fevereiro de 2013
A indústria ainda é importante?

Maria Clara R. M. do Prado

A questão em debate hoje, no Brasil e no mundo, sobre a capacidade do setor industrial em absorver mão de obra merece uma reflexão mais aprofundada. Afinal, qual o perfil e a função da industria nesta segunda década do século XXI? A crise de 2008, ainda com seus tentáculos em operação, terá aprofundado a tendência à especialização no setor produtivo?

Terá a crise contribuído para crivar uma divisão no processo econômico mundial, colocando, de um lado, os centros capazes de produzir com eficiência e alta produtividade, e, de outro, os centros de consumo, grandes compradores finais dos bens e serviços gerados nas economias de maior avanço tecnológico? Afinal, a indústria ainda é importante?

Todas são perguntas que estão na ordem do dia, muito embora versem sobre tema de difícil entendimento dado o processo ainda em curso de uma profunda fase de transição. Uma radiografa do que se passa hoje com o setor industrial no mundo pode ser captada no estudo elaborado pelo Mckinsey Global Institute.

Trata-se do trabalho “Manufacturing the Future: the Next Era of Global Growth and Innovation”. O cenário atual, colhido pelo Mckinsey, já dá uma boa idéia do grau de mudanças que têm assolapado modos e formas no sistema de produção e as conseqüências desses avanços. Alguns dados, aqui resumidos, atestam isso:

. 16% é a fatia do setor industrial na formação mundial do PIB

. Nas economias mais avançadas a quantidade de empregos gerada no setor industrial caiu de 62 milhões, em 2000, para 45 milhões em 2010. A queda é maior no segmento de uso mais intensivo de mão de obra, como a industria têxtil (ver gráfico abaixo).

A demanda global está hoje concentrada nos países menos desenvolvidos. A China dobrou a renda per capita de um bilhão de pessoas nos últimos doze anos, algo que a revolução industrial na Inglaterra levou 150 anos para conseguir, atingindo apenas nove milhões de pessoas.

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26 de fevereiro de 2013
Fora do figurino

Maria Clara R. M. do Prado

A Casa Jabuticaba de Cinema e Teatro prepara-se para apresentar ao público a sua mais recente produção, o documentário “Fora do Figurino – as medidas do jeitinho brasileiro”.  Sob a direção de Paulo Pélico, o filme trata dos problemas que os brasileiros enfrentam com roupas, calçados e outros produtos pela inexistência no país de parâmetros adequados ao biotipo nacional.

Chama-se a isso de antropometria, ou seja, um padrão de medidas compatível com as características físicas da população, considerando altura e peso médios para homens e mulheres, além de largura dos ombros, das ancas, coxas, enfim… todas as partes do corpo. Quem nunca comprou uma blusa com a medida correta nos seios, mas desproporcionalmente fora de alinhamento nos ombros? E aquele par de sapato que fica apertado na medida 35, mas largo no tamanho 36?

Os exemplos são inúmeros e nenhum brasileiro escapa. O motivo é fácil de entender: é que nossas roupas e calçados obedecem a parâmetros de outros biotipos, como o da população americana. Os moldes são importados e começam aí as incompatibilidades, que valem também para móveis – altura e largura das cadeiras, é um caso – e outros produtos, como o assento dos carros.

O documentário de Paulo Pélico vem justamente colocar foco no problema que tem passado batido nas discussões, seja no setor industrial, que deveria ser o mais interessado no assunto, como no varejo, sem falar das autoridades governamentais, que não conseguem realizar um levantamento antropométrico do brasileiro.

O filme estréia no dia 22 de março, no circuito Itaú de Cinema. Confira o trailer: 

http://vimeo.com/56090848

 

25 de fevereiro de 2013
A evolução de Sérgio Sister

Maria Clara R. M. do Prado

A exposição de obras do artista plástico Sérgio Sister, aberta na Pinacoteca de São Paulo, representa mais um importante passo para consolidar uma firme carreira que se mantém há 30 anos em evolução. Firme porque Sérgio fez das artes plásticas a sua opção maior de vida, deixando em segundo plano outras atividades que cruzaram o seu caminho.

Formado em pintura pela FAAP em meados dos anos 60, dedicou-se em seguida às ciências sociais e às ciências políticas, tendo  se graduado e pós-graduado, respectivamente, pela USP, nos anos negros da ditadura que o levou à prisão entre 1970 e 1971. Jornalista e ilustrador, Sérgio passou os últimos oito anos concentrado nas tintas e nos pincéis, em seu atelier na Barra Funda, aprimorando sua preferência pelo abstrato e pelo monocromatismo.

Os anos tornaram a obra de Sister mais simples e mais sofisticada e é justamente aqui, neste paradoxo, que o artista impõe a sua identidade. A série “As Caixas” – algumas delas, reproduzidas abaixo – é exemplo da transformação do material simples em novos e complexos elementos, de dimensão tridimensional, onde espaço, cor, luz e sombra instigam a percepção do expectador. A exposição de Sister, com 30 obras, criadas entre 1990 e 2012, permanecerá na Pinacoteca até o dia 5 de maio. Vale conferir!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21 de fevereiro de 2013
Paradoxos do pleno emprego

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 21/02/2013 no Valor Econômico)

 

Muito tem sido escrito sobre o aparente paradoxo de uma economia que cresce à modesta taxa de 1% ao ano em situação de pleno emprego.

O consumo das famílias mantém-se elevado em qualquer que seja o setor, mas o nível de utilização da capacidade instalada da indústria de transformação brasileira não passa de 84,5%, segundo as informações coletadas pela última Sondagem Industrial da FGV-RJ/Ibre. Várias são as explicações.

 

O aquecimento da demanda tem pressionado os salários em geral, mas o aumento do custo de mão de obra só pode ser absorvido pelo setor de serviços pela inexistência de competidores externos (trata-se, no jargão econômico, de um setor de não comercializáveis, significando que não pode ser importado, muito embora a importação de serviços já esteja pesando na balança comercial do país).

 

 

Pois bem, vamos imaginar que realmente o setor de serviços é imune aos efeitos da competição internacional, mas não pode haver dúvidas de que o mesmo não acontece na indústria de transformação, que produz tecidos, carros, sapatos, entre outros bens que estão dia e noite sujeitos à concorrência dos importados.

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7 de fevereiro de 2013
Falstaff nos 200 anos de Verdi

Maria Clara R. M. do Prado

Giuseppe Verdi, habitué do La Scala de Milão desde os primórdios de sua carreira, está mais uma vez de volta ao palco daquele grande teatro com Falstaff, uma ópera cômica, em três atos, cujo libreto – de Arrigo Boito – tomou por base a peça “As alegres mulheres de Windsor” e algumas passagens de “Henrique IV”, ambas de Shakespeare.

Este Falstaff, tantas vezes encenado e cantado mundo afora, surge rodeado de algumas relevantes referências: marca os 200 anos de nascimento de Verdi e, muito provavelmente não por coincidência, é apresentado exatos 120 anos depois da estréia daquela que seria a última ópera de Verdi, em 09 de fevereiro de 1893.

Mas o que talvez seja mais marcante é a produção moderna deste Falstaff, de autoria do canadense Robert Carsen, com cenários de Paul Steinberg e condução do maestro Daniel Harding.

Quem não assistiu no Royal Opera House, em Londres, em maio do ano passado, pode correr para ver o espetáculo em Milão até o próximo dia 12, ou, ainda, esperar até dezembro, quando se espera a montagem da mesma produção de Carsen no Metropolitan de Nova York (a conferir).

Um Falstaff bonachão, guloso e metido a conquistador, representado pelo barítono Ambrosio Maestri, ajuda a compor um ambiente carregado de intriga e de conquistas amorosas mal sucedidas, tudo com muito humor e muito colorido.

No libreto original, a história se passa na época do reinado de Henrique IV (1399 – 1413), na Inglaterra, mas a produção de Carsen trouxe a trama para a década de 50 do século XX. Veja no trailer do La Scala de Milão:

 

 

Uma montagem bem diferente daquela que marcou a estréia, e que por muito tempo viveu no imaginário dos aficcionados, com o figurino de Falstaff alinhado com as vestimentas típicas do século XV. [ leia mais ]

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6 de fevereiro de 2013
A tese de Holland faz sentido

Maria Clara R. M. do Prado

O presidente da França, François Holland, colocou o dedo na ferida ao reivindicar na terça-feira, para desgosto dos alemães, uma política cambial menos flexível para o euro. Sem mencionar especificamente uma taxa de câmbio fixa ou a introdução de uma faixa de taxas , com piso e teto, para limitar a significativa valorização do euro nos últimos doze meses, Holland abriu uma celeuma que promete muita discussão pela frente.

Nesta quinta-feira, com a reunião do BCE (Banco Central Europeu), espera-se que Mario Draghi se pronuncie sobre o assunto, muito embora seja limitado o escopo de que dispõe para qualquer decisão e ação na política cambial da zona do euro.

O problema levantado por Holland, pressionado, obviamente, pelos dados mais desconfortáveis da economia francesa, está longe de ser trivial. A extrema valorização do euro tem, como se sabe, efeito danoso sobre a recuperação econômica dos países que já sofrem de paralisia, com altas taxas de desemprego e aumento de impostos, tendo de sobreviver de dinheiro emprestado pelo FMI e pelos fundos europeus.

O euro tem rodado em torno de US$ 1,35 (foi a US$ 1,37 na semana passada) e alguns operadores acham que pode chegar a US$ 1,45.

Seria realmente um desastre para a recuperação econômica de países como a Espanha (que, com 60% dos jovens até 25 anos desempregados, vê-se agora às voltas com o “mensalão espanhol” e os respingos sobre o primeiro-ministro Rajoy), a Itália (que, além da queda do PIB, tem diante de si uma grande incógnita política) e a França, que tem padecido de aumento nos custos de produção, um fato que não combina com moeda valorizada. [ leia mais ]

4 de fevereiro de 2013
Ficcionistas da ficção

Maria Clara R. M. do Prado

“Escrever é um ato de fracasso. A procura ineficaz da palavra inexata, da palavra que falta, ou da palavra que escapa. Escrever é afundar-se em um presente angustioso e denso feito da ausência da linguagem, de seu silêncio, de sua falência. Não há porvir no instante em que se escreve; este instante não prevê qualquer futuro, não o percebe em sua iminência”.

As palavras sem escape do escritor paulistano Julian Fúks, autor do livro “A procura do romance” tornam pesada a tarefa da escrita. Mais do que isso, denotam ceticismo na árdua busca da palavra enquanto um vazio quase que premeditado se abre diante do escritor. Para outros, escrever tem um sentido de sentinela, de estar atento à realidade do aqui e agora. É o caso de Luiz Ruffato, autor de “Domingos sem deus”.

“Definido o tema, definida a forma, resta-me apenas uma questão: para que escrever? Para mim, escrever é compromisso. Compromisso com minha época, com a minha língua, com meu país. Não tenho como renunciar à fatalidade de viver nos começos do século 21, de escrever em português e de viver em um país chamado Brasil. Esses fatos, junto com a minha origem social, conformam toda uma visão de mundo à qual, mesmo que quisesse, não poderia renunciar”, conta Luiz Ruffato.

Aqueles e outros escritos sobre como se escreve, como nasce um livro, que elementos se juntam para desencadear uma história, um verso, uma linha que seja, foram compilados em Ficcionais, uma coletânea de relatos de 32 escritores que haviam expressado suas experiências nas páginas do suplemento Pernambuco, uma publicação mensal do governo penambucano, dedicada à arte da escrita, editada por Schneider Carpeggiani, um jovem, como a maioria dos autores convidados.

O suplemento Pernambuco, aliás, é uma revista que merece ser acompanhada. A edição de fevereiro traz um especial sobre Dom Quixote. Pode ser acessada através de http://www.suplementopernambuco.com.br

Voltando aos Ficcionais, é interessante ler todos os relatos e descobrir os impulsos, em suas diversas individualidades, que levam ao ato da escrita. Sacrifício ou obrigação. Um vício, acreditam uns. Uma dádiva, creem outros. [ leia mais ]

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1 de fevereiro de 2013
Brasileiros se sentem mais ricos

Maria Clara R. M. do Prado

Os brasileiros melhoraram de vida depois de 2008, a despeito da crise financeira que abateu o mundo desenvolvido. A constatação é da empresa australiana Pesquisa CoreData, criada em 2002, com o foco no desenvolvimento de pesquisas em vários países.

O relatório sobre Riqueza, elaborado em termos globais, mostra na secção dedicada ao Brasil, que boa parte dos brasileiros se julga mais rico hoje. Em verdade, apenas 7,3% das pessoas pesquisadas acham que sofreram queda no valor dos seus ativos, enquanto que uma soma significativa, representando 78% dos entrevistados, consideram que estão mais ricos do que estavam em 2008. [ leia mais ]

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1 de fevereiro de 2013
Você sabe o que é ser brasileiro?

Maria Clara R. M. do Prado

A pergunta do título deste artigo pode suscitar uma resposta curta, nos extremos do sim e do não, mas será uma resposta simplória. Pois é na complexidade dos meios termos que se encontrará uma definição, tão variável quanto variáveis são a individualidade de cada brasileiro.

No geral, o conjunto de brasileiros forma um paradigma, uma noção de identidade nacional, definida por conceitos mais ou menos enraizados no imaginário: afável, pacífico, boa índole, trabalhador, tolerante, perseverante, entre outros. São características únicas, reúnem virtudes de causar inveja aos empresários argentinos!

Mas há os que fazem uma leitura menos virtuosa daquela lista de bondades e acham que, em verdade, os brasileiros são displicentes, acomodados, indolentes, preguiçosos, imediatistas e alienados, entre outras menos castas. Acreditam estes que os brasileiros mantêm os mesmos sintomas típicos de um povo colonizado, que ainda não se emancipou e, portanto, não amadureceu. Não saberiam dizer exatamente quem são.

Afinal, os brasileiros sentem ou não orgulho de serem brasileiros? Até onde vai o sentimento de “brasilidade”? Até que ponto os brasileiros estão ligados às suas raízes? Têm consciência histórica e percepção de sua importância no mundo?

Na busca de respostas, o jornalista Adalberto Piotto, ex-âncora da CBN, dedicou sua primeira experiência em cinema a colher depoimentos para o documentário “Orgulho de ser brasileiro” (veja trailer abaixo).

http://www.youtube.com/watch?v=YsFlpuXDDzs

No filme, previsto para ser lançado em maio, tudo gira em torno da pergunta sobre sentir orgulho de ser brasileiro. Vêm à tona os aspectos positivos, os negativos, as dúvidas e indefinições, assim como algumas certezas. [ leia mais ]

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