Arquivo de abril de 2013

23 de abril de 2013
E o Brasil, será que já deu certo?

por Maria Clara R. M. do Prado

Da escravidão à lei de amparo trabalhista às domésticas levou mais de um século, exatamente 125 anos. De uma maioria de miseráveis do início do século XX a uma classe média expressiva e em expansão (ver post na janela Mundo, deste blog) levou mais de cem anos.

Apesar do processo democrático, o sistema partidário brasileiro ainda não conseguiu atingir a maturidade política e lá se vão 124 anos desde que a República foi proclamada! Sob essas óticas, o Brasil vai dando certo, aos trancos e barrancos, a passo de cágado e sob os auspícios de muita paciência.

De uma educação gratuita de qualidade para um ensino público deficiente levou 50 anos. De uma rede hospitalar pública de alto nível para hospitais deteriorados levou 40 anos. De uma proteção eficiente à segurança do cidadão à rotina de roubos e matanças quase que diários levou 20 anos. Sob essas óticas, o Brasil está longe de ter dado certo.

Parece esquisito, mas quando se coloca os fatos na balança têm-se a impressão de que os avanços sociais e as melhorias econômicas e políticas demoram anos e anos, muitas gerações, para acontecer neste país. Já o ruim, aquilo que caminha para o pior, leva menos tempo para degringolar.

O tema é abrangente. Suscita meríades de opiniões, positivas e negativas, bem em linha com os paradoxos do país. Está nos primeiros lugares em tamanho de PIB, mas mantem muitas cidades ainda sujeitas aos detritos do esgoto a céu aberto. Tem substanciais reservas de petróleo, mas precisa importar gasolina para atender ao mercado interno.

O ex-Ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, não se intimidou diante das disparidades. Otimista, como é do seu feitio, lançou-se ao projeto de um documentário que estréia nas salas de cinema no próximo dia 29, segunda-feira, com produção executiva e direção de Louise Sottomaior.

“O Brasil deu certo. E agora?”, é o título do filme que foi buscar a opinião de outros ex-ministros, de ex-presidentes de Banco Central e de ex-Presidentes da República, como Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, sobre este país que já foi colônia e império, passou longos períodos sob truculentas ditaduras e conviveu por bom tempo com as mais altas taxas de inflação de que se tem notícia na segunda metade do século XX.

Veja, abaixo, o trailer do documentário:

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22 de abril de 2013
Crescimento com maior equidade: hasta cuando?

por Maria Clara R. M. do Prado

Com os preços das commodities evoluindo mais moderadamente, no contexto de taxas ainda baixas de crescimento no países de economia mais avançada e também naqueles considerados “emergentes”, em especial a China, alguns analistas começam a prever taxas menores do PIB para os países da América Latina. Uma nova fase, de menor crescimento, estaria a caminho e o Brasil seria um dos mais afetados.

A pergunta que deve ser colocada, supondo a configuração de um cenário de menor prosperidade nos anos vindouros, é a seguinte: o que vai acontecer com a pujante classe média que nos últimos quinze anos foi significativamente ampliada em praticamente todos os países latino americanos? Tende a encolher? E a pobreza? Voltará aos níveis anteriores?

É cedo, por enquanto, para se saber a que ritmo, e se a menor, evoluirá o PIB na região. Vai depender de muitas variáveis. Primeiro, da movimentação do capital estrangeiro originário da abundante emissão de moedas fortes que tem alimentado a expansão das economias mais periféricas. Isso depende, obviamente, da percepção de uma retomada mais consistente e robusta nos Estados Unidos e na Europa, em especial. Segundo, do desempenho daqui para frente das contas públicas nos países latino-americanos face à nova realidade de menor ingresso líquido de divisas estrangeiras pela via da conta-corrente.

A julgar pelo que se pode enxergar hoje, é possível imaginar que, apesar de tender a um crescimento menor, a região não estaria sujeita a um retrocesso social e econômico para os deploráveis níveis das décadas de 80 (a região encolheu, em média, 0,2%) e de 90 (quando a expansão média do PIB não passou de 1,2%).

D e todo modo, são inegáveis os benefícios do inédito período de bonança que se espalhou pela América-Latina nestes primeiros anos do século XXI. Para sempre ficará registrado na história como a época em que os pobres viraram classe média, caracterizando-se como o período em que conseguiu-se conjugar o crescimento econômico com maior equidade.

O quadro abaixo, extraído de um longo estudo publicado recentemente pelo Banco Mundial,  mostra o que aconteceu na região, país por país, em termos de mobilidade social, com destaque para a significativa parcela dos que melhoraram de condição sócio-econômica.

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18 de abril de 2013
Expectativas à deriva

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 18/04/2013 no Valor Econômico)

 

Afinal, qual é o nível da taxa de juros básica, a Selic, em termos reais,  necessário para abater as previsões da inflação futura e, ao mesmo tempo,  satisfazer a orientação do governo no sentido de que é prioritário manter a  economia em crescimento?

A questão, de difícil solução, pairava no ar, ontem, enquanto o país  aguardava pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre o que fazer  com a taxa Selic.

E não por acaso. Quanto mais alta for a inflação esperada, menores tendem a  ser os juros reais projetados, com repercussão na poupança e no consumo, e, por  conseguinte, nos preços.

A manutenção da Selic nominal em 7,25% ao ano, supondo uma inflação (pelo  IPCA) consensualmente estimada hoje, em média, em torno de 5,8% na ponta de  dezembro, implicaria em juro real básico na faixa de 1,37% ao ano.

A alta da Selic nominal para 7,50%, dada a mesma projeção do IPCA para o ano,  representa taxa real ao redor de 1,6% ao ano. Já uma Selic um pouco mais  elevada, na faixa de 7,75% ao ano, garante uma taxa real em torno de 1,85% ao  ano.

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16 de abril de 2013
A informalidade e o PIB oficial

por Maria Clara R. M. do Prado

Afinal, o PIB do Brasil cresceu 0,9% em 2012 ou ficou acima disso? Que peso tem a economia informal na atividade econômica do país? O PIB teria sido maior se a informalidade entrasse nas estatísticas oficiais?

A questão, colocada à coluna pelo advogado Beno Suchodolski, não é nada trivial. Faz sentido imaginar que o “verdadeiro” PIB possa ser maior do que a taxa de expansão oficial considerando que um pedaço da economia se movimenta no subterrâneo da informalidade, gerando emprego, renda e oportunidades de negócios. Só não gera receita tributária, pois uma das motivações da informalidade é justamente a de fugir do pagamento de impostos e dos custos trabalhistas que oneram a produção.

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15 de abril de 2013
Thatcher universalizou os britânicos

por Maria Clara R. M. do Prado

A morte da ex-Primeira-Ministra Margaret Thatcher suscita enorme repercussão e não sem razão. Polêmica, há quem a ame e quem a odeie na Grã-Bretanha, país que ela governou ao longo de onze anos seguidos e no qual introduziu enorme transformação.

A economia britânica, como se sabe, ganhou impulso a partir das reformas que tiveram como ponto forte a privatização das emblemáticas empresas estatais – incluídas na lista a Rolls Royce e a Jaguar – que funcionavam como cabides de emprego, por um lado, e, de outro, como verdadeiros pólos de reforço ao poder dos sindicatos dos trabalhadores.

Quem teve a oportunidade de viver na Inglaterra antes e depois de Thatcher, conhece muito bem as mudanças pelas quais o país passou na década de 80 do século XX. Antes, as greves eram assunto corriqueiro: de ambulâncias, de ferroviários, de carvoeiros, de professores, “you name it!”. Havia dias em que era impossível sair de casa. Não havia ônibus, nem trens. As escolas primárias e secundárias, fechadas. Naquela segunda metade dos anos 70, as greves eram praticamente diárias e o país mantinha-se paralisado em meio a discussões políticas que o Partido dos Trabalhadores fazia reverberar no Parlamento, sob a liderança de James Callaghan.

Na era Thatcher, o mantra mudou e os conservadores passaram a culpar a incapacidade do socialismo de gerar oportunidades e riqueza. No vídeo abaixo, prestes a deixar o governo, no final de 1990, a Primeira-Ministra argumenta no Parlamento com a oposição que a culpava por ter ampliado a diferença entre pobres e ricos no país:

http://www.youtube.com/watch?feature=playerembedded&v=okHGCz6xxiw

 

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