Arquivo de abril de 2015

23 de abril de 2015
Mais confuso, impossível

por Maria Clara R. M. do Prado

 

O nível de incongruência a que chegaram os partidos políticos brasileiros talvez não tenha paralelo em nenhum outro lugar e em nenhuma outra época. De um lado, parece que baixou o “barata voa” no Congresso Nacional, tal é o paroxismo a que chegaram deputados e senadores.

Agem desvinculados de qualquer orientação ideológica partidária, a mercê, muitos, da insensatez de líderes que não estão preocupados com a biografia de ninguém, nem mesmo com a própria. Enxergam apenas o aqui e o agora, alijados de qualquer sintonia com o bom senso. Confundem autoridade com autoritarismo.

Individualmente, os políticos reforçam o ambiente de desconexão com uma sociedade que há 30 anos, desde a democratização, vem consolidando alto grau de complexidade, com interesses difusos, ambições alargadas e vozes de diferentes camadas sociais que não se intimidam diante da insatisfação.

O confronto entre classes é inevitável. E não é novidade. Aconteceu ao longo do processo de amadurecimento de toda sociedade que optou, ao fim e ao cabo, por manter e prestigiar as instituições democráticas, aquelas que são responsáveis justamente pela mediação do confronto, garantindo a convivência civilizada de todos os cidadãos, apesar da diferença de opiniões e da diversidade de interesses.

Escolhidos como representantes da sociedade para abrigar o debate divergente e tirar dele o consenso que deve nortear as leis, os políticos funcionam como corpo essencial do sistema institucional que zela pela democracia. Ou, dito de outra forma, pela harmonia entre as diferenças.  Mas eles não conseguiram, infelizmente, acompanhar a evolução da sociedade brasileira. Comportam-se como se as pessoas ainda se sujeitassem a parâmetros e ideias impostos de cima para baixo, como se a massa não tivesse se transformado em cidadãos.

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18 de abril de 2015
O sentido do sem sentido na obra de Gonçalo M. Tavares

por Maria Clara R. M. do Prado

 

A surpresa foi grande. Talvez pela ignorância sobre o jeito do autor, não como escritor, porque esse é mais fácil de saber, indicam os livros, mas daquela pessoa, ali à frente, a falar de coisas que fazem sentido, mas que se colocam sem a pretensão de fazerem sentido.

Gonçalo M. Tavares, escritor português nascido em Luanda, supreende pela simplicidade com que enxerga o mundo na essência. Fala daquilo que se poderia tomar como óbvio, mas que somente a muito poucos cabe captar.

“Não há distâncias, não há diferença de gêneros, se eu carrego na minha mochila um livro de Eurípedes e um livro do Joyce, juntos, não há distância entre eles”, disse, provocando a pequena audiência que o ouvia na Livraria Cultura, no Iguatemi, no sábado passado. A idéia de não há diferença de tempo entre dois livros estão lado a lado, sendo carregados juntos pela mesma pessoa, pelo mesmo leitor, não é absurda, mas está longe de ser trivial.

Gonçalo, em São Paulo. Foto de Mariza Baur

Autor de 34 obras, entre romances, contos, poesia, ensaios, Gonçalo repudia a forma e enaltece a palavra. Os livros são animais diferentes que se definem ao serem escritos. “A forma é inibidora”, comenta. “O material é a palavra, escreve-se textos, pouco importa a forma”. Afinal, tudo começa no alfabeto, nas letras que dão vida aos textos, sejam eles o que forem.

E a pontuação? Ela é a respiração que dá ritmo à velocidade da narrativa. Permite que o leitor faça uma pausa e levante os olhos do texto para pensar, refletindo sobre o que acabou de ler. Este é momento em que, para Gonçalo, o livro realmente é escrito.

E pensar, a partir dos livros de Gonçalo, é lidar com situações extremas, cada uma com a sua história, marcadas pela inquietude existencial.

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17 de abril de 2015
Operações compromissadas X dívida pública

por Maria Clara R. M. do Prado

 

O artigo publicado na edição do dia 09/04/2015, no jornal Valor Econômico (ver abaixo), com críticas às operações compromissadas que se realizam no âmbito do Banco Central, suscitou reações diversas, de apoio e também de dúvidas. O tema é, sem dúvida, polêmico, e na maior parte das vezes incompreensível para quem não esteja acostumado a lidar com as tecnicalidades relacionadas ao contexto em que aquelas operações funcionam.

Primeiro, é preciso deixar claro que as operações compromissadas – envolvendo a “venda” ou a “compra” de dinheiro em troca de títulos, com clausula de recompra ou de revenda, conforme o caso – são realizadas universalmente, seja entre os vários agentes que atuam no mercado financeiro, seja nas relações de qualquer banco central com o setor bancário.

Sua importância na administração da política monetária é, no entanto, crucial. Através delas é que se regula o nível da liquidez da economia (disponibilidade de moeda), de modo a evitar que os juros caiam abaixo do patamar mínimo estabelecido pelo BC (no caso de liquidez abundante) ou que o dinheiro encareça em demasiado, comprometendo inclusive o custo da dívida pública.

No Brasil, as operações compromissadas têm algumas peculiaridades que acabam por distorcer a função central de instrumento regulador da liquidez e, por via de consequência, os juros e a própria inflação.

O primeiro problema é a estreita relação existente entre o Banco Central e o Tesouro Nacional. Apesar do desaparecimento da conta-movimento no final dos anos 80, pondo fim à atuação do Banco do Brasil como provedor ilimitado de recursos para o governo, funcionando como um canal de financiamento à dívida mobiliária, um ranço de simbiose permanece até hoje.

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13 de abril de 2015
Eduardo Galeano, visão lúcida da América Latina

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13 de abril de 2015
Restam as operações compromissadas

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 09/04/2015)

 

Saudado com loas e broas nas últimas semanas pelos 50 anos de funcionamento, o Banco Central do Brasil avança no século XXI com a maturidade que se imagina consolidada na chamada meia idade. Não sem razão o aniversário é celebrado. O BC ganhou status de instituição respeitada dentro e fora do país pelo padrão de seu corpo técnico e pelas boas práticas que foi incorporando ao modus operandi da política monetária e da regulação e do sistema financeiro.

A evolução tornou-se possível a partir da estabilidade de 1994, que não foi, no entanto, suficiente. Introduziram-se novas e modernas abordagens que passaram a orientar a atuação dos bancos centrais no mundo a partir da década de 90.

Não faz muito tempo, era outra a situação. Inerte em meio a resistente processo inflacionário, tendo de competir com outros emissores de moeda caracterizados pelos bancos estaduais, confundindo funções com o Tesouro Nacional e sujeito a pressões políticas de toda a ordem, o Banco Central viveu sua década maldita mais acentuada entre o início da chamada Nova República e a efetivação do Plano Real, conforme testemunhada por quem o acompanhou de perto, no dia a dia.

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