Arquivo de agosto de 2015

13 de agosto de 2015
O PSDB e o pacto político

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 13/08/2015 no Valor Econômico)

 

Melhor fariam os políticos honestos do Brasil – não se sabe quantos seriam, mas com certeza ainda existem alguns – se, ao invés de conspirarem em proveito próprio, passassem a trabalhar com a idéia de articular um grande pacto político em prol das reformas necessárias ao desenvolvimento do país, em especial a reforma política.

Com Dilma ou sem Dilma, o momento de tensão que tem sacudido ânimos e desânimos se apresenta como uma daquelas raras oportunidades que, bem aproveitadas, podem garantir grandes avanços. O Brasil encontra-se em uma encruzilhada política, nitidamente resultante da falência do modelo de consenso que viabilizou o transcurso pacífico da ditadura para a democracia nos anos 80.

O modelo agoniza. Ninguém imagina que faça sentido ter no Congresso Nacional vinte e oito diferentes partidos políticos, muitos dos quais só funcionam à base da troca de interesses paroquiais e pessoais.

Alguns políticos ainda lutam com unhas e dentes pela sobrevivência, apelando inclusive à tática da ameaça e da chantagem, mas as chances de se firmarem são mínimas. Quem se juntar a esses tipos, apostando no vale tudo inconsequente, estará fadado a submergir junto.

Aquele é o risco que corre o senador Aécio Neves que, inconformado com o resultado das últimas eleições presidenciais, tem pregado novas eleições a partir da expectativa de impugnação do mandato da presidente Dilma Rousseff. Sua tese, no entanto, implica na impugnação também do vice-presidente Michel Temer, pois só assim o caminho estaria livre para a convocação de eleições antes de 2018, fora, portanto, do calendário eleitoral.

Sem que se aprofunde aqui uma análise sobre o comportamento do senador e sem entrar no mérito da justificativa ou não dos “impeachments” da presidente e do vice-presidente, é preciso destacar algumas das complicadas implicações da tese da antecipação das eleições.

Primeiro, o resultado de um novo pleito na situação de densa confusão política em que se encontra o país poderia ser qualquer um.

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13 de agosto de 2015
A transição que nos abala

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 09/07/2015 no Valor Econômico)

 

Quando a última edição do recém lançado Global Economic Prospects (Perspectivas Econômicas Globais) foi escrita, certamente os economistas do Banco Mundial não podiam prever os desdobramentos financeiros e políticos que aprofundariam a crise da Grécia em julho, com potencial de comprometer o projeto de integração da Europa, nascido no rastro da destruição e das desconfianças dos primeiros anos pós Segunda Guerra Mundial.

A Grécia, independente de ficar ou de sair da zona do Euro, entra para a história não apenas como símbolo de resistência às medidas de austeridade, democraticamente repudiadas no referendo de domingo.

Sobressai, para além da dificuldade competitiva, resultante de um regime monetário que pretendeu unir Estados de diferentes perfis e estágios de desenvolvimento, a confirmação da impossibilidade de uma comunidade de países sobrepor-se politicamente à soberania de cada um dos países que dela fazem parte.

Foi por temer a perda da soberania sobre a determinação de seu destino político que a Grã-Bretanha não aderiu ao euro, tendo até mesmo mais recentemente levantado dúvidas sobre a sua permanência na União Europeia. Outros países, como se sabe, ficaram de fora, mas não há dúvidas de que a situação da Grécia é a mais emblemática nesta fase de incerteza sobre o futuro da Europa.

 

Mesmo sem antever o aprofundamento da crise grega e, também, sem prever os recentes traumas que têm afetado a economia chinesa, o Banco Mundial deu ênfase à palavra “transição” nesta edição do Global Economic Prospects. Não por acaso, o sub-títuto é “The Global Economy in Transition”. Sua leitura nos dá a dimensão de que o pior está por vir.

A prosperidade do final do século XX parecia infinita. Bebeu-se na fonte das possibilidades de progresso abertas pelo fim da Guerra Fria, mas deixou-se que as operações financeiras e comerciais, avolumadas com o ingresso na economia de mercado dos países da Europa Central e com os avanços da China, corressem soltas, à fartura, sem regulação e sem parâmetro.

De que transição fala o Banco Mundial? Daquela que vai recolocar os Estados Unidos na posição de economia hegemônica mundial, derrubando definitivamente a tese predominante há alguns anos – no tempo das vacas gordas – de que a China continuaria a crescer de forma robusta,  desbancando os norte-americanos do lugar preponderante que passaram a ocupar depois da Segunda Guerra Mundial, justamente quando a Europa lambia as suas feridas.

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13 de agosto de 2015
A ousadia da Grécia

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 18/06/2015)

 

Hoje, quando estiverem sentados à mesa de reunião do Eurogrupo, em Luxemburgo, os ministros da Finanças dos países que integram a zona do euro vão debruçar-se sobre a quadratura do círculo na busca de uma alternativa que possa dar fôlego financeiro à Grécia, no curto prazo, sem comprometerem a credibilidade do programa de ajuste apregoado pelos credores.

A carga é indesejável e custosa. Não apenas pelo tamanho da dívida que a Grécia se diz impossibilitada de pagar, mas pelos custos políticos enredados na “queda de braço” travada nos últimos dias entre os principais personagens da história.

Desvencilhar-se da sinuca de bico a que foram empurrados pelo ousado primeiro-ministro grego Alexis Tsipras é o grande desafio a ser enfrentado pelos demais países do euro, sabendo que não há muito tempo a perder.

Os discursos não poderiam ser mais ríspidos. O governo grego acusa a Comissão Européia de fazer o jogo dos credores que querem acabar com a Grécia. O presidente da Comissão, Jean Claude Juncker, acha que os gregos não são sinceros. A chanceler da Alemanha prega a inflexibilidade, enquanto o FMI resolveu dar um tempo para deixar que os europeus se entendam entre si.

De imediato, quem está mesmo com a corda no pescoço é o Banco Central Europeu (BCE), que carrega em carteira uma expressiva soma de bônus gregos, originários da da compra de papéis realizada no mercado secundário para aliviar a pressão sobre os juros dos países com dificuldades, em 2010. Além disso, o BCE também trocou por liquidez papéis gregos que eram detidos por bancos privados, principalmente alemães e franceses.

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