20 de junho de 2013
A cara política da classe média

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 20/06/2013 no Valor Econômico)

O país descobriu nos últimos dias algo que não deveria ter surpreendido analistas, deputados e senadores, governantes e estudiosos: o sentimento de “pertencer” – fazer parte de uma sociedade – da classe média, que implica tomar ciência da condição de cidadão como contribuinte e eleitor. O que se vê nas ruas é uma cobrança generalizada por serviços públicos de melhor qualidade e em maior quantidade, maior responsabilidade por parte dos políticos em geral e total repúdio ao desvio do dinheiro que se paga na forma de taxas e impostos.

Quem se surpreendeu com a mobilização do povo não levou em conta um fato banal: junto com a melhoria de renda não surgem apenas novos consumidores, mas também pessoas melhor informadas, inseridas no tecido da sociedade e, portanto, atentas aos seus direitos.

Desde 1994, quando se conseguiu estabilizar o país, passando depois pelas políticas públicas de redistribuição de renda introduzidas pelo governo Lula, só se enxergou as consequências do aumento de padrão de vida da população de renda mais baixa pela ótica econômica. Os números são abundantes. Falam do maior acesso ao crédito bancário, do aumento no uso dos cartões de crédito, das volumosas vendas de bens duráveis e de uma demanda ampliada por serviços básicos, sem esquecer dos números exponenciais de usuários de telefone celular (já agora na categoria dos “smartphones”) e de computadores.

Era como se os 40 milhões de brasileiros socialmente ascendentes para a classe C não tivessem ouvidos e muito menos capacidade de percepção e daí o espanto geral com a massa de gente que resolveu deixar claro que além da econômica, também tem uma cara política.

Nada disso é genuinamente brasileiro. Nem a rápida e numerosa mobilização nas ruas, estimulada pelo poder de comunicação das redes sociais, e nem o aumento da classe média. No primeiro caso, os exemplos são facilmente constatados por fotos de aglomerados humanos nos quatro continentes movidos por diferentes motivações.

No segundo caso, os números mostram a significativa expansão da classe média ocorrida nos diversos países chamados de “emergentes”, a ponto de atingir a marca de cerca de um bilhão atualmente, praticamente a metade do tamanho da classe média em termos globais.

Os números trazem consigo um alerta aos governantes. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem alertado para o fato de que com o aumento da classe media crescem também as reivindicações sociais e sugere aos países em desenvolvimento e aos chamados “emergentes” a adoção de iniciativas que possam atender o mais rapidamente possível, e de forma eficaz, os anseios daquele mar de gente que só tende a crescer.

As projeções da própria OCDE indicam que a classe média – considera faixa de renda entre US$ 10 e US$ 100 medida pela PPP (paridade do poder de compra) per capita, por dia – nos países “emergentes” será ampliada para mais de 3 bilhões de pessoas, ou seja, mais do que triplicando o tamanho atual.

É claro que, a se confirmar, isso trará sérias implicações em termos de comércio mundial, necessidades de investimento e de drásticas mudanças nas políticas econômicas dos países envolvidos. As novas classes médias emergentes vão atuar como verdadeiros espíritos prestes a serem incorporados a qualquer momento, exigindo políticas mais transparentes e melhores serviços públicos.

Javier Santiso, um dos líderes do Fórum Econômico Mundial, realizou um estudo em 2010, quando ainda estava à frente do Centro de Desenvolvimento da OCDE, no qual mostrou a distribuição da classe média no mundo e a perspectiva futura. Em população, a classe média é formada por 230 milhões de pessoas nos Estados Unidos, por 450 milhões nos países da União Europeia (UE), por 525 milhões na Ásia (sendo 125 milhões no Japão) e 181 milhões nas Américas do Sul e Central.

Em 2030, a grande expansão terá ocorrido na Ásia. Segundo as projeções do estudo, os países daquela região, puxados basicamente pelo aumento da classe média na China, terão atingido um total de 3, 2 bilhões de pessoas na faixa de renda utilizada como parâmetro. Isso significa participação de 66% no tamanho da classe média em termos globais dentro de 27 anos. As Américas do Sul e Central terão participação de apenas 6% no total, muito embora a previsão de que a quantidade de gente na classe média terá quase que dobrado o tamanho da atual na região, passando para 313 milhões em 2030.

O Brasil tem enormes carências em termos de educação, saúde e segurança para ficar só nesses três e as reivindicações tendem a crescer enquanto as deficiências não forem solucionadas. A larga mobilidade social brasileira, maior do que em outros “emergentes”, é fator que ajuda a ampliar mais rapidamente a conscientização da cidadania e torna urgente a resposta dos governos em suas três esferas administrativas, cada qual com suas obrigações perante a sociedade.

O recado das massas nas ruas dirige-se a todos os governantes do Executivo e aos parlamentares do Legislativo. No discurso de terça-feira, ao lançar o programa para a mineração, a presidente Dilma Rousseff mostrou claro entendimento do que se passa nas ruas quando se referiu aos 40 milhões de pessoas inseridas na classe média e às exigências que passam a fazer em termos de educação e outras necessidades.

Entender o clamor das ruas é fundamental, mas para a presidente Dilma, na condição de chefe da Nação, só isso não basta. Terá de se mexer se quiser garantir a coesão social tão indispensável ao desenvolvimento da sociedade brasileira.

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