24 de outubro de 2013
A celeuma do tripé

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 17/10/2013 no Valor Econômico)

 

Incensado pela ex-senadora e potencial candidata à presidência da República, Marina Silva, como se fosse a panacéia para os problemas da economia brasileira, o famoso tripé – estabilidade monetária, flutuação cambial e superávit fiscal primário – nada mais é do que o ponto de partida, básico, para qualquer governo de qualquer país que tenha um mínimo de responsabilidade social, política e econômica.

Portanto, a ex-senadora não disse nada demais, e nem de novo. Manter de pé o tripé que dá sustentação fiscal, monetária e cambial à governabilidade é condição necessária, mas, infelizmente, não suficiente para a condução da economia. Do ponto de vista retórico, firmar compromisso público com o tripé em fase eleitoral pode ter algum efeito sobre a arrecadação de fundos para financiamento de campanha, mas não agrega votos na disputa pelas urnas.

A dobradinha Marina Silva-Eduardo Campos fica devendo aos eleitores o programa econômico, seus planos e metas, com o qual pretende governar o país, sabendo que uma plataforma eleitoral séria deve ir além de coalizões políticas, verbas de financiamento e tripés. É claro que não houve tempo para as duas forças terem superado suas divergências de origem e colocado no papel suas diretrizes programáticas de forma consensual. Pois é disso que se trata. Programático remete a programa.

Desde que os militares saíram do poder, o Brasil passou por várias etapas. Demorou anos para debelar a inflação, algo realmente de fôlego, na casa dos 5%, 10%, 20% e até 50% ao mês. Exatamente, oito anos e seis diferentes planos de estabilização.

O primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique foi dedicado à prioridade da estabilização da moeda, ao custo, como se sabe, de uma tremenda valorização do real. Era a arma disponível para acabar com a chamada memória inflacionária. O segundo mandato patinou em meio à crise cambial externa que derrubou em cascata as economias em desenvolvimento, da Ásia às Américas  e da qual o Brasil não escapou. Foram anos negros, de drástica perda de reservas e recuo de investimentos.

Na era Lula, privilegiou-se a distribuição de renda com políticas públicas que conseguiram tirar da pobreza um bocado de gente – quase quatro Portugais! Fortaleceu-se o mercado interno, com mais oportunidades de trabalho e de educação. O governo de Dilma Rousseff procurou dar continuidade aos avanços sociais, mas ficou claro que só isso já não basta.

Tornou-se premente o investimento pesado em infra estrutura, algo que está abandonado desde o início dos anos 80. Falta um planejamento bem amarrado e formas sustentáveis de financiamento, capazes de garantir os estimados R$ 500 bilhões necessários à implementação de projetos que ampliem o padrão de eficiência da economia brasileira.

Esse é o ponto mais vulnerável do atual governo. A presidente Dilma terá de ser convincente sobre os planos e programas de infraestrutura dos próximos quatro anos de modo a reverter as expectativas em seu favor.

Em verdade, nenhum candidato escapará daquela cobrança, haja vista a patente deterioração de estradas, portos, aeroportos, entre outros grandes “buracos”, e o crescente descontentamento nas ruas e na internet.

O tal tripé continuará sendo perseguido como tem sido desde a crise cambial que assolou o país no início de 1999. Com alguns desvios de tempos em tempos, é certo, mas nenhum governante ousará fugir dele.

A percepção importante a reter é que a economia brasileira é muito maior e mais complexa. Pode-se governar tendo apenas o tripé como alvo, mas sob pena de uma administração medíocre.

Tudo indica que a vida dos candidatos à Presidência da República não será nada fácil desta vez. Já se sabe que tipo de compromisso será cobrado da presidente Dilma e nada muito diferente deve orientar as expectativas com relação à dupla Campos-Marina e ao candidato do PSDB, qualquer que seja ele. Os brasileiros querem saber o que os espera pela frente. Não adianta falar do passado.

Nem o PSDB ganhará votos com o Plano Real (essa possibilidade há muito ficou para trás, tendo sido desprezada pelo próprio partido) e nem o PT arregimentará mais simpatizantes se o discurso ficar limitado às conquistas da melhoria da renda. Tudo isso está já incorporado ao dia a dia do brasileiro, preocupado cada vez mais com as muitas demandas não atendidas: melhor transporte, melhor saúde, melhor educação, mais segurança, enfim.

A dupla Campos-Marina tem o desafio de mostrar que será capaz de encontrar a coerência e afastar, assim, o receio com a perspectiva de um governo confuso e inexperiente, seja no campo da economia, seja na gerência da política. O PSDB, bem mais tarimbado em cargos executivos no âmbito estadual e federal, terá de se reinventar, não apenas como partido, mas como plataforma propositiva.

Desta vez, como mostram as primeiras pesquisas, o principal adversário dos social-democratas na corrida pelos votos será o PSB turbinado pelos marinistas. Perderão tempo com discursos de oposição ao governo constituído se quiserem chegar ao segundo turno. Recomenda-se ao PSDB que comece a colocar no papel um programa consistente de governo, com projetos concretos, em vez da retórica meramente combativa.

A presidente Dilma terá sempre a seu favor o peso político do ex-presidente Lula, um inegável catalisador de votos. Mas não deve se iludir, pois tem deixado muitos flancos abertos ao ataque dos adversários. Esta temporada eleitoral promete.

 

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