17 de maio de 2013
A culpa é do Gorbatchev!

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 16/05/13 no Valor Econômico)

A imprescindibilidade do crescimento econômico para a conquista da riqueza, que reforçou as bases do sistema capitalista a partir da Segunda Guerra Mundial, tem sido questionada nos anos recentes por alguns economistas, com o argumento de que o uso dos recursos naturais teria chegado ao ponto de exaustão. O planeta Terra não aguentaria novos ciclos de expansão econômica.

A novidade não está na tese, mas no maior número de economistas que passou a aceitá-la no século XXI. Herman Daly trabalhou parte de sua vida no Banco Mundial (de 1988 a 1994) tentando convencer seus colegas da importância da preservação do meio ambiente para o crescimento econômico, sem muito sucesso.

Serge Latouche, da Universidade de Paris-Sul, desde os anos 1960 escreve sobre o assunto na condição de filósofo, cientista político e economista. Entre os vários livros e artigos, escreveu o texto “Why less should be so much more: degrowth economics” (Por que menos deveria ser muito mais: economia do decrescimento), publicado no Le Monde Diplomatique (dez/2004). O consumo excessivo é uma preocupação sempre presente nos escritos de Latouche.

Em verdade, a impossibilidade da ilimitada ambição humana ser saciada pelos bens e serviços disponíveis em um mundo que, por ser global tornou-se mais vulnerável, ganhou evidência com a crise de 2008. Dois fatos ocorridos no final do século XX podem ajudar no entendimento do quadro.

O primeiro deles, sem que se conheça estudos a respeito, teria a ver com o expressivo aumento de demanda por bens de consumo mais imediato, além de moradias, automóveis e outros duráveis, que o mundo passou a viver com o desmantelamento da União Soviética. Em 1991, quando Mikhail Gorbatchev desmembrou formalmente a antiga URSS, os russos e os cidadãos das outras 14 repúblicas soviéticas deixaram de ser “camaradas” para entrar em uma nova era, de liberdade política e econômica.

Não mais o Estado ditaria as restrições de acesso aos bens “supérfluos”, desnecessários para a sobrevivência. A mudança introduziu no mercado os habitantes da antiga URSS ou 286 milhões de novos consumidores.

Àquela altura, Berlim já havia sido unificada, agregando ao mercado de consumo 16 milhões de pessoas que se juntaram ao 35 milhões de poloneses, 22 milhões de romenos, 15,6 milhões de tchecos, 10 milhões de húngaros, 7,7 milhões de búlgaros e tantos mais de outros países que se libertaram do autoritarismo dirigido. A abertura da China somou mais gente ao quadro. Embora não se tenha a medida da parcela de 1,3 bilhão de chineses que virou consumidor nas últimas três décadas, pode-se imaginar que qualquer fatia é, em si, expressiva.

Portanto, uma massa significativa de gente passou a dar vazão ao ímpeto humano de ter mais e melhor, coisa que Shakespeare já conhecia muito bem nos idos de 1.500, sem falar nos gregos, muitos séculos antes. Está na raiz do sistema capitalista: o efeito de demonstração que faz a pessoa almejar o carro “último tipo” do vizinho.

O segundo fato está no agigantamento que tomou conta do sistema financeiro em geral a partir da década de 1990. Um está ligado ao outro. O aumento do consumo foi alimentado com a fartura do crédito, estimulada pelos baixos custos e pela multiplicidade de operações complexas, muitas delas lastreadas em vento, que ajudaram a satisfazer o desejo de consumir, ampliado pela absorção de milhões de novos consumidores.

A presença dominante do sistema financeiro trouxe sérias distorções. Uma delas foi a ilusão de que tudo ia muito bem: consumo alto, renda girando, juros baixos e multiplicador bancário a mil! Era a exuberância que Alan Greenspan tão bem definiu.

Todo o avanço tecnológico – ou grande parte dele – esteve intimamente casado com o crescimento do setor financeiro, agilizando os serviços e oferecendo múltiplas possibilidades de operações ao sistema. Analistas, economistas, governos e a mídia passaram a enxergar a economia como se ela fosse dividida apenas em duas partes: consumo e bancos.

O setor real, de onde saem os bens das nossas ambições, foi ignorado por bastante tempo. Salvo grandes empresas multinacionais com fôlego para se espalhar pelo mundo, muitos setores quebraram e têm agora de se reinventar com tecnologia mais avançada e formas de produção mais eficientes.

Alguns céticos têm dúvidas quanto à capacidade humana de se reinventar. O economista André Lara Resende juntou em livro lançado há duas semanas – “Os limites do possível”, editora Portfólio-Penguin – uma série de artigos que escreveu nos últimos três anos, muitos deles publicados neste jornal, nos quais questiona justamente a hipótese de que o ritmo do progresso tecnológico dos últimos três séculos seja mantido indefinidamente.

Essa condição, a do continuado avanço da tecnologia, é uma das três consideradas cruciais para o crescimento de “steady state” (ou estado permanente) no modelo dos economistas Robert Solow e Trevor Swan, que André comenta, sem muito entusiasmo (ver capítulos 6 e 8).

O mundo não vai acabar e nem deve-se esperar transformações significativas na índole do ser humano. A economia se ajustará de alguma forma e já se fala mesmo em processo de reindustrialização nos Estados Unidos. O economista Schumpeter, grande estudioso do capitalismo e dos seus ciclos de evolução, dizia que a inovação traz a bonança depois da tempestade. Vale ler “O Profeta da Inovação – Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa”, de Thomas McCraw, editora Record.

 

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