24 de setembro de 2009
A intransponível distância entre dois mundos

Por Maria Clara R.M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 24/09/2009)

Conjecturas, impressões, anseios, medos e expectativas costumam nortear, no Brasil, o debate sobre a importância da China no cenário econômico mundial. Via de regra, falta informação cultural, histórica e política para que se possa avaliar efetivamente o que de fato tem ocorrido naquele país e, a partir disso, tentar jogar alguma luz sobre o futuro.

Por desconhecimento do que é fundamental na evolução do processo chinês, confunde-se no debate brasileiro realidade com ficção. O Brasil, por muito tempo se disse, deveria seguir o modelo de crescimento da China, pautado pelo estímulo às exportações e desvalorização cambial.

A crise financeira internacional deflagrada com o colapso do mercado de bônus imobiliários de segunda categoria nos EUA – os “subprime” – veio desmistificar a simplicidade dos argumentos.

Uma das “verdades” colocada em xeque é justamente a da invencibilidade do modelo chinês pró-exportação. Não se vislumbra nenhuma guinada brusca no médio prazo, mas o colapso de boa parte do mercado consumidor nos Estados Unidos força os chineses a buscarem alternativas, sabendo que dificilmente conseguirão substituir em qualquer outra parte do mundo a mesma demanda que haviam garantido para seus produtos no mercado norte-americano. A nova configuração da economia mundial tende a levar os chineses a substituírem pelo mercado doméstico parte dos mercados perdidos por efeito da crise financeira.

Donde se conclui que a virtude do modelo chinês de exportação não é inerente ao modelo, uma vez que só transparece se e quando houver mercados robustos em tamanho e em renda que o referende fora de suas fronteiras. A rigor, mudanças já estão ocorrendo com potencial de ampliar o mercado interno na China. Os salários, em média, têm aumentado de forma significativa. Medidas de incentivo do governo e de programas sociais deverão influenciar também no sentido de ampliar o consumo interno no médio prazo. Enquanto isso, outros mercados-alvos têm sido focados pela China e não deve haver nenhuma surpresa no fato de a América Latina, e em especial o Brasil, serem os novos objetivos do comércio chinês.

A questão de fundo que deve prevalecer no debate nacional, para além da choradeira e das lamentações, é como a indústria brasileira poderá confrontar-se lá fora e aqui dentro com a competição chinesa? Os chineses já são uma ameaça para o “market share” (fatia de mercado) conquistado pelos produtos brasileiros nos vizinhos mercados da América Latina. E, mais, isso vale não apenas para o comércio, mas para os investimentos.

A China conseguiu consolidar uma forte região de influência econômica no sudeste asiático e tem investido maciçamente na África, voltando agora seus interesses para a América Latina. Vem em busca não apenas de mercado para seus cada vez mais sofisticados produtos, mas principalmente de fontes de produção de matérias-primas e de terras.

A edição de 3 de setembro da revista semanal francesa Le Point traz como reportagem de capa o tema “La grande braderie des terres agricoles” (“A grande liquidação das terras agrícolas”), com um mapa mundi que mostra quais são os países compradores e os países vendedores de terras. A China, com 20% da população mundial e com apenas 9% de terras aráveis em seu território, é o grande caçador de terras em outros países. Precisa garantir alimento para a sua imensa população.

Aliás, vale aqui um parêntesis para recomendar a leitura do texto. Ele diz que 10% das terras da Argentina já estão na mão de estrangeiros (com destaque para empreendimentos privados como da Benetton que teria comprado um milhão de hectares para a produção de lã), destacando a atuação de grandes fundos e gestores de fortunas na aquisição de terras mundo afora, como o BlackRock e o Morgan Stanley. Vale à pena ler a matéria no www.lepoint.fr Para chegar lá, basta colocar o título da reportagem na janela de busca.

Voltando ao tema, encontrar uma saída para viabilizar uma concorrência em pé de igualdade com a China não será fácil, tal a distância cultural, histórica e política que a diferencia do Brasil. Isso está na raiz das divergências de políticas econômicas que no caso chinês são muito mais profundas do que aquelas que separavam nos anos 70 o Brasil do Japão. A China, além de suas tradições orientais, carrega também o peso do Estado como principal mentor, gestor e ator no campo econômico. Ali, o Estado executa, legisla, julga e empreende.

De todas as interessantes avaliações apresentadas ontem no painel dedicado ao tema “A Ásia no centro do mundo?”, no 6º Fórum de Economia da FGV-SP, uma informação merece atenção. Resume bem o fulcro da questão: “Os investimentos chineses no exterior são promovidos por grandes empresas que pertencem ao Estado e que se movem a partir das estratégias definidas dentro de um projeto de país”, notou Renato Amorim, sócio da Carnegie Hill Global Advisors e ex-diretor de relações internacionais da Vale, um especialista em China. Isso quer dizer que há uma grande discrepância em termos de poder e de influência entre os investidores chineses e as empresas brasileiras, em sua grande maioria privadas, com interesses individuais específicos.

Joaquim Falcão, diretor da Escola de Direito da FGV no Rio, trouxe para o debate, no mesmo painel, o ponto do Estado de Direito e das liberdades individuais. Recolocou a discussão no lugar certo e incontornável. O que vale mais? Ter um Estado intervencionista, autoritário e onipresente com poder para decidir os rumos sociais e econômicos em nome da coletividade? Ou ter um Estado democrático, não intervencionista, onde a coletividade tem o poder de escolher a sua representatividade e, através dela, ditar os rumos das decisões governamentais? É legítimo sacrificar a liberdade de expressão, de decisão e de representação em prol do progresso econômico?

Este parece ser o dilema que se abate sobre o mundo hoje, não apenas aqui. As dúvidas têm se alimentado do imbróglio perpetrado pela displicência das autoridades dos países ricos e que resultou na crise do ano passado. O poderio estatal da China e sua expansão pelo planeta só reforça o sentimento de vulnerabilidade que tem afetado os governos e as sociedades de modo geral.

Os comentários estão fechados.