14 de julho de 2016
A madura democracia britânica

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 14/07/2016 no Valor Econômico)

Ao despedir-se ontem do cargo de líder do partido conservador e, consequentemente, da função de Primeiro-Ministro, David Cameron reforçou o sentido da democracia que os britânicos cultuam há séculos. “Eu fui o futuro uma vez” foram as palavras finais da sua fala, denotando, de um lado, o reconhecimento do equívoco político revelado pelo resultado do plebiscito sobre o “Brexit” e, de outro, a resignação com o desfecho natural da sua substituição na liderança partidária.

Democracias maduras – e a britânica é, de longe, a mais amadurecida de todas – funcionam assim. Pode ser que o parlamentarismo ajude a perpetuar o funcionamento de um sistema que acentua o papel das instituições na sua longevidade, mas também pode ser que o modelo britânico talvez não funcionasse tão bem não houvesse por detrás um rei ou uma rainha a sustentar a legitimidade das decisões políticas.

E, para quem se apressa a fazer comparações com situações em países como o Brasil, deve ser lembrado aqui os milhares de anos que distinguem os percursos das conformações políticas, cada qual com seu sistema. É possível que se viva hoje um dos momentos mais cruciais da política brasileira, distanciada nos últimos anos da característica fundamental da representatividade dos interesses do país e da sociedade em geral. Mas pode ser que os vergonhosos acontecimentos recentes resultem em um salto benigno no processo de amadurecimento desta democracia, em seu maior período, embora curto, em quase duzentos anos de independência política.

Ao longo dos séculos, o processo de amadurecimento político na Grã-Bretanha passou por inúmeras situações, desde o século XIII, quando surgiu a Carta Magna, um agregado de leis e regras que desde então funcionam como a constituição britânica. Em 1707, houve a junção dos parlamentos inglês e escocês. Com a incorporação do parlamento da Irlanda, o Reino Unido foi ampliado em 1800, sendo depois largamente estendido com a incorporação de inúmeras áreas mundo afora, constituindo um império.

As guerras mundiais do século XX acabaram por reduzir o tamanho das grandes potências. O Reino Unido voltou a ser um reino. Já agora sem a Irlanda, que ganhou independência em 1922, ficando apenas o norte do país sob jurisdição política dos ingleses.

Internamente, a Inglaterra sofreu situações políticas extremamente graves ainda na segunda metade do século XX. Quem viveu o “Winter of Discontent”, o inverno do descontentamento, na virada de 1978 a 1979, tem claro na memória o que era o país em meio às sucessivas greves que praticamente brecaram a economia. Greve dos mineradores – o carvão era a principal fonte de energia para o aquecimento no inverno -, greve dos trens, greve nas ambulâncias, greve por toda a parte.

O caos instaurado no período de James Callaghan, do partido trabalhista, facilitou a retomada do governo pelos conservadores em 1979, elegendo Margaret Thatcher como primeira-ministra. A política econômica começou a mudar radicalmente, com a redução do poder dos sindicatos, com as privatizações, com a redução de gastos sociais a partir do alinhamento de Thatcher com os preceitos do neo-liberalismo. Mas foi só em 1982, com a vitória britânica na guerra das Falklands ou Malvinas, que a primeira-ministra conseguiu apoio da sociedade para a consolidação das medidas liberais.

Em meados dos anos 90, a volta dos trabalhistas ao poder, sob a liderança de Tony Blair, inaugurou uma nova fase da social democracia, mais afinada com os sentimentos do mercado na busca pelo aumento da produtividade e eficiência do que com os grupos menos favorecidos socialmente. David Cameron recolocou os conservadores no poder há seis anos, dando continuidade às políticas ortodoxas que fizeram a economia do Reino Unido crescer acima da média da União Europeia (UE) nos últimos quatro anos.

Com inflação perto de zero e uma das mais baixas taxas de desemprego pós crise de 2008, com salários em alta e aumento da produtividade, a pergunta feita pelos perplexos simpatizantes da UE diante da vitória do “Brexit” foi justamente a de como entender o resultado do plebiscito em um quadro de dados econômicos favoráveis?

Talvez a resposta esteja na noção de reino, para não dizer império, que as pessoas mais idosas e aquelas que vivem mais próximas dos antigos redutos de poder dos sindicatos ainda alimentam. Essas pessoas compareceram ao plebiscito em proporção bem superior a dos jovens que preferiam permanecer na UE.

Foram movidas pela ideia de que o país e as benesses ali produzidas a elas pertencem, uma vez que não faz sentido dividir com os “aliens” – expressão que designa os estrangeiros – os ativos de um reino que dominou os quatro cantos do mundo há não muito tempo. A noção de soberania é muito forte na sociedade britânica. Foi ela que impulsionou o governo de Thatcher depois da guerra Falklands/Malvinas. Foi ela que levou o Reino Unido a ficar fora da zona do euro e é a soberania que explica a vitória do “Brexit”.

O que vai acontecer, ninguém sabe. Os bancos de investimento têm apontado para a queda do PIB, para o aumento do desemprego e até aumento da inflação. De imediato, o que mais preocupa é o mercado imobiliário, que voltou a crescer nos últimos anos e pode confrontar-se com problemas de inadimplência. Mas tudo isso são, por enquanto, conjecturas.

Enquanto o futuro não é desenhado, prevalece o pragmatismo britânico. Exemplo claro, é a designação pela nova primeira-ministra, Theresa May, de Boris Johnson, cabo eleitoral da bandeira do “Brexit”, para o cargo de ministro de negócios estrangeiros, e de David Davis, um eurocético, para a pasta que vai comandar a saída do país da UE. Afinal, como ela mesmo havia frisado: “Brexit é Brexit”. Isso é que é democracia.

 

Os comentários estão fechados.