6 de fevereiro de 2013
A tese de Holland faz sentido

Maria Clara R. M. do Prado

O presidente da França, François Holland, colocou o dedo na ferida ao reivindicar na terça-feira, para desgosto dos alemães, uma política cambial menos flexível para o euro. Sem mencionar especificamente uma taxa de câmbio fixa ou a introdução de uma faixa de taxas , com piso e teto, para limitar a significativa valorização do euro nos últimos doze meses, Holland abriu uma celeuma que promete muita discussão pela frente.

Nesta quinta-feira, com a reunião do BCE (Banco Central Europeu), espera-se que Mario Draghi se pronuncie sobre o assunto, muito embora seja limitado o escopo de que dispõe para qualquer decisão e ação na política cambial da zona do euro.

O problema levantado por Holland, pressionado, obviamente, pelos dados mais desconfortáveis da economia francesa, está longe de ser trivial. A extrema valorização do euro tem, como se sabe, efeito danoso sobre a recuperação econômica dos países que já sofrem de paralisia, com altas taxas de desemprego e aumento de impostos, tendo de sobreviver de dinheiro emprestado pelo FMI e pelos fundos europeus.

O euro tem rodado em torno de US$ 1,35 (foi a US$ 1,37 na semana passada) e alguns operadores acham que pode chegar a US$ 1,45.

Seria realmente um desastre para a recuperação econômica de países como a Espanha (que, com 60% dos jovens até 25 anos desempregados, vê-se agora às voltas com o “mensalão espanhol” e os respingos sobre o primeiro-ministro Rajoy), a Itália (que, além da queda do PIB, tem diante de si uma grande incógnita política) e a França, que tem padecido de aumento nos custos de produção, um fato que não combina com moeda valorizada.

E por que? Porque euro valorizado significa preços mais elevados dos produtos daqueles três países no mercado internacional com o agravante, no caso muito específico da zona monetária, de que a eficiência produtiva da Alemanha é capaz de compensar a apreciação da moeda, garantindo rentabilidade aos exportadores alemães.

Como a moeda é única, embora as economias não o sejam, resulta que os produtos da França, Itália e Espanha não apenas ficam em desvantagem em comparação com os de outros mercados, como os Estados Unidos e Japão, mas ainda têm de competir com os produtos alemães no mercado internacional.

A diferença de níveis de competitividade entre as economias da Europa não é coisa nova. Vem de muito longe, tendo sido um dos aspectos considerados nas discussões que levaram à criação da zona de moeda única. Recorde-se que antes do euro os países da Comunidade Econômica Européia (CEE) viviam sob as regras do Sistema Monetário Europeu (SME), cujo objetivo era o de manter estável, entre si, o valor externo das moedas comunitárias. Nenhuma moeda podia afastar-se de qualquer outra 2,25% acima ou abaixo do valor de referência. Era uma tentativa de reduzir os riscos cambiais que tão nefastos efeitos têm sobre o processo de integração.

Em 1978, o SME foi aperfeiçoado com a criação do ecu (european currency unit), que funcionava como referência cambial para os países da CEE. Era formado a partir de uma cesta de moedas da área, tendo cada uma delas um determinado peso dado pela importância econômica do respectivo país. Essa relação mudava de tempos em tempos, mas o marco alemão sempre teve o peso maior na composição do ecu.

Ou seja, aquele sistema tinha implícito um mecanismo que contemporizava os desníveis de eficiência econômica entre os países nas taxas de câmbio fixadas para cada uma das moedas vigentes: havia uma correlação interna entre as taxas de câmbio do marco, da lira, do franco francês e da libra, entre outras, e uma referência (o ecu) que as representasse externamente.

Portanto, vê-se que o desnível de competitividade entre os países sempre existiu na realidade  da economia européia. Alguns chegaram a pensar, romanicamente, que a criação do euro contribuiria para nivelar ao padrão alemão a eficiência produtiva dos demais países integrantes da zona da moeda única.

Aquilo não apenas não aconteceu, como aprofundou-se o crivo que separa os melhores dos piores.

Estima-se que, considerando a situação econômica de cada país e seu nível de eficiência, os valores mais corretos para a taxa de câmbio seriam de US$ 1,53 para a Alemanha, de US$ 1,26 para a Espanha, de US$ 1,19 para a Itália e de US$ 1,07 para a Grécia. No entanto, considerando a taxa de câmbio vigente hoje, em torno de US$ 1,35, o euro registra uma larga apreciação de 20% com relação ao iene, e de 8% e  7%, respectivamente, face à libra esterlina e ao dólar, desde fins de outubro.

Mario Draghi, presidente do BCE, poderá dizer que a apreciação do euro não é sua culpa, mas sim uma consequência das políticas de relaxamento monetário empreendidas pelo Fed dos Estados Unidos, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco do Japão, cujo presidente será substituído dentro de algumas semanas para acomodar alguém mais afinado com os anseios do primeiro-ministro, Masaaki Shirakawa, de uma política monetária ainda mais frouxa. Isso significa inundar os mercados de ienes, de libras e de dólares, movimento que reduz o valor de troca dessas moedas por um euro que reluta em seguir a mesma receita dos outros.

É que o gerenciamento da política monetária na zona do euro não é tão fácil. Se, de um lado, uma maior liquidez poderia aliviar a situação econômica dos países em recessão pelo aumento das exportações, de outro criaria um problema para a Alemanha que teria de competir com os baixos custos da mão de obra das economias em crise, ajudados agora por uma taxa de câmbio depreciada.

O resumo da opereta é que os países da zona do euro seguem, em geral, em situação complicada, que em nada justifica os rasgos de otimismo que se vê aqui e ali. Para se ter uma idéia do tamanho do buraco, basta reparar nos dados da Comissão Européia sobre a variação do PIB para mais (+) ou para menos (-) de 2012 e as projeções para 2013, entre os vários países:

                         

                           VARIAÇÃO DO PIB em %  

                                   2012             2013 (proj.)

 

Grécia             -6,6               -4,2

Itália               -2,3               -0,5

França            +0,2              +0,4

Espanha          -1,4               -1,4

Portugal          -3,0               -1,0

Alemanha       +0,8              +0,8

Holanda          -0,3               +0,3

Bélgica            -0,2               +0,7

Irlanda           +0,4               +1,1

Slovenia          -2,3                -1,6

Áustria            +0,8              +0,9

Slovakia          +2,6              +2,0

Estônia            +2,5              +3,1

Finlândia         +0,1              +0,8

Luxemburgo    +0,4              +0,7   

 

 

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