31 de janeiro de 2012
2012, ano de inflexão?

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 19/01/2012)

Bissexto, 2012 parece fadado a marcar o rumo que o mundo definitivamente tomará nos próximos anos. E, ao contrário do que muitos possam pensar, o destino a ser configurado não depende do comportamento da economia chinesa e, sim, do desempenho dos dois grandes blocos que por quase vinte anos seguidos sustentaram o acelerado crescimento da China pela via do comércio internacional.

Em verdade, a ninguém deve espantar a desaceleração que começa a impactar com mais vigor o PIB chinês, cuja taxa de expansão fechou em torno de 9,2% em 2011 e que, para muitos analistas, não deve ser muito superior a 8% neste ano. Se os compradores do outro lado do globo minguaram, por drástica redução da renda, o motor que vinha impulsionando a China só pode dar sinais de que está rateando. A Europa, que funcionou como a região de maior demanda para os produtos chineses, tende a cair em recessão este ano.

O Japão, parceiro comercial e financeiro mais estreito nos últimos anos, não deve voltar a crescer muito significativamente. A responsabilidade sobra para os Estados Unidos. Terá a economia americana condições de garantir um crescimento mais robusto, em torno de 3%, este ano? Até que ponto o debate eleitoral tende a redefinir a política expansionista do presidente americano Barack Obama? E, mais, o que esperar depois das eleições, com ou sem Obama?

Na Europa, um importante passo político poderá ser dado com a eleição presidencial na França, em maio. Ou não. Se não se aprumarem melhor em termos de liderança, o controle da região, em especial da zona do euro, cairá mais e mais nas mãos da Alemanha. Conflito à vista? É possível e isso não seria novidade depois das rusgas com relação ao bloco que opuseram os interesses britânicos aos franceses, recentemente.

Nesse caldeirão em que todos estão mergulhados não restará à China muita opção além da apreciação cambial com vistas a estimular o mercado doméstico, abrindo assim espaço para que outros mercados possam se beneficiar do gigantismo local. Países como o Brasil que, ao contrário da China, têm crescido com base no aumento da demanda doméstica, terão de refrear o ímpeto com drástica redução dos gastos públicos, sob pena de amargarem anos de alta inflação à frente.

2012 pode se caracterizar como o ano em que a opinião pública mundial enterrou definitivamente a ideologia do “neoliberalismo” e tudo o que estava implícito naquele pacote. Na prática, já há mostras disso. O protecionismo tem batido à porta dos países com mais insistência e sem muita resistência política, reconfigurando os termos que sustentaram o largo fluxo do comércio mundial nas últimas duas décadas. Também as atividades financeiras passaram a ser alvo de atenção das autoridades locais e dos organismos multilaterais desde que o desastre dos “sub-prime”, seguido pelo desaparecimento do Lehman Brothers, em 2008, foi reforçado pelos problemas de dívida soberana na Europa e suas consequências sobre o patrimônio dos bancos.

Não deixa de ser absoluta novidade a decisão tomada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no sentido de que, ao invés de voluntário, o monitoramento da organização sobre o desempenho do setor financeiro dos países membros passaria a ser mandatório, com início neste ano. Vinte e cinco diferentes países já foram selecionados para submeterem seus sistemas financeiros a uma profunda e detalhada averiguação por parte do FMI a cada cinco anos. Daquela lista, 18 estão escalados para serem “auditados” ao longo de 2012, incluindo três países da Europa – França, Espanha, Bélgica -, quatro da América do Sul – Brasil, Argentina, Uruguai e Colômbia – além de Japão, Austrália e Bahamas, entre outros.

A ideia é passar um pente fino para medir a qualidade dos bancos e de outras instituições financeiras, com aplicação inclusive de testes de estresse, além de avaliar o desempenho da supervisão do mercado financeiro e do relacionamento com órgãos de supervisão de outros países.

Os bancos não serão obrigados a implementar as recomendações do FMI a serem apresentadas em relatórios específicos para cada caso. Mas isso não tira a relevância da oportunidade de se conhecer o estado em que se encontra o setor financeiro dos países monitorados.

Não se sabe como os bancos reagirão a essa intromissão, mas com certeza os governos tendem a ganhar. Espera-se que a radiografia sirva de guia para evitar futuros potenciais colapsos bancários, liberando assim os bancos centrais da esdrúxula atividade quase-fiscal a que têm sido submetidos nos países mais avançados. A possibilidade de prevenir eventuais crises recolocará os bancos centrais no seu devido lugar: o de zelar pela estabilidade monetária, independente dos interesses políticos dos entes governamentais.

A julgar por este início, 2012 pode não ser um ano dos mais promissores, mas que pelo menos nele sejam criadas as condições que assegurem a todos uma nova rodada de prosperidade para o restante da década.

15 de dezembro de 2011
A história de uma crise

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 15/12/2011)

Um querido amigo me perguntou há alguns meses sobre o processo pelo qual a crise da Grécia contaminaria as economias mais avançadas da região. Acreditava que o euro não seria contaminado pelos problemas gregos, irlandeses, espanhóis e portugueses. Afinal, os países do norte da Europa, muito mais saudáveis, tenderiam a passar incólumes pela crise porque nada tinham a ver com os países menos eficientes.

Na sua imaginação, ele enxergava uma Europa com a visão sedimentada na segunda metade do século XX. Os países não tinham maiores vínculos entre si, a não ser pelas regras tarifárias e alfandegárias do mercado comum. Essa concepção, no entanto, não se encaixa na lógica de uma zona monetária única. Uma mesma moeda não pode ser satisfatoriamente compartilhada por entes diferenciados, a menos que haja um poder político superior e comum a todos.

Brasil e Estados Unidos servem de exemplo. Constituídos ambos politicamente como uma federação, cujos entes se subordinam a leis que se impõem sobre todos, administram cada um a sua moeda no contexto mais amplo de soberania que se sobrepõe a tudo o mais.

No caso da Europa, depois do euro, o conceito de soberania se confunde. A moeda é uma só, mas os Estados soberanos que a compartilham são vários, independentes e autônomos. Politicamente estão descolados uns dos outros, embora economicamente amarrados pelo mesmo padrão monetário.

A noção de Europa do meu amigo é a que predomina ainda hoje, mesmo no miolo dos dirigentes mais destacados da zona do euro. Sustentou-se nos anos de prosperidade mundial que beneficiaram a infância da nova moeda, mas não aguentou o tranco da crise financeira mundial. Uma espécie de véu encobria uma realidade que, descortinada, pegou a todos de surpresa.

Mas como isso foi detonado?

As respostas têm de ser buscadas a partir de 2007, no início da crise do subprime (crédito imobiliário de baixa qualidade) nos Estados Unidos, mas o “turning point” (momento da virada) para a crise soberana e bancária na Europa foi a quebra, seguida de resgate, do banco Bear Stearns em março de 2008. Neste ponto, os spreads (taxa de risco) da dívida soberana na região começaram a subir. A segunda etapa, com a falência do Lehman Brothers, foi marcada pela continuidade do aumento dos spreads, mas agora acompanhada de significativa diferenciação de taxas entre os países.

Aquela cronologia foi claramente delineada por dois economistas do Departamento de Europa do FMI, Ashoka Mody e Damiano Sandri. No texto publicado em novembro – “The European Crisis: How Banks and Sovereigns Came to the be Joined at the HIP” (”A Crise Europeia: como os bancos e os Estados soberanos se tornaram inseparáveis”) – eles relacionam as várias etapas da crise financeira internacional à crise bancária e soberana da zona do euro com base em estudos econométricos.

O caso da Irlanda é emblemático. Em julho de 2007, quando os subprimes ainda não tinham contaminado o mundo, o bônus soberano irlandês com prazo de dez anos tinha spread negativo, abaixo da taxa paga pelo Tesouro alemão. Em março de 2008, atingira 30 pontos básicos. Em janeiro de 2009, a taxa irlandesa pulou para 300 pontos básicos, com a nacionalização do banco Anglo Irish. Em meados de setembro deste ano a taxa de risco do mesmo tipo de bônus da Irlanda acusou 650 pontos básicos, depois de ter atingido 1 mil pontos.

Na opinião de Mody e Sandri, a partir do resgate do Bear Stearns emergiu uma distinta dimensão europeia da crise bancária. Os spreads das dívidas soberanas passaram a responder cada vez mais à fragilidade dos seus próprios sistemas financeiros. Os problemas do Anglo Irish acenderam a luz no sentido de que também na Europa os bancos estavam vulneráveis. Não apenas o estresse do sistema financeiro influenciava no aumento do “spread” da dívida soberana, mas o crescimento desta passou a afetar o setor financeiro, em uma espécie de contaminação interdependente.

Mody e Sandri analisaram os determinantes de mudanças semanais nos spreads soberanos de janeiro de 2006 a maio de 2011, abrangendo Áustria, Bélgica, Holanda, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha.

A Alemanha ficou de fora porque o “german bund” funciona como benchmark para os demais bônus soberanos e é considerado “risk free”. Pelo menos, tem sido assim até aqui.

A crise tomou outra dimensão envolvendo problemas fiscais e de competitividade. Os desajustes do setor público realimentam o processo que eleva os custos de endividamento dos bancos e gera perdas de capital com menor crescimento. “Com o espaço para a intervenção fiscal muito mais limitado, as economias da zona do euro chegaram a uma nova e mais estressante situação da qual não há retorno rápido”, concluem os autores.

18 de novembro de 2011
Quem será o próximo?

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 17/11/2011)

No fim de 1998, às vésperas do euro ser introduzido como moeda escritural – antes de entrar efetivamente em circulação, a partir de janeiro de 2002 – várias preocupações surgiram em meio às discussões sobre o novo arranjo monetário. A necessidade de convergência fiscal e de integração dos interesses políticos dos 12 entes que inauguraram a União Monetária Europeia eram os aspectos mais citados. No entanto, apesar de todo o ceticismo e das críticas durante o processo de criação da união monetária, o otimismo acabava por prevalecer. Afinal, o euro estava prestes a tornar-se uma realidade. Surgiu a expressão Década da Europa, na crença de que, no longo prazo, o euro transformaria uma colcha de retalhos onde predominavam mercados onerosos, ineficientes e autoprotegidos em um único, forte e competitivo bloco econômico.

Quase 12 anos depois, o mundo acompanha, perplexo, os acontecimentos que ameaçam o euro e que parecem não ter freio. Na esfera política, a falta de liderança da CEE, do BCE, de Angela Merkel e de Nicolas Sarkozy é acachapante. Já no grupo dos países alvo das consequências da má gestão econômica e, claro, da especulação, parece ter sido aberta a comporta das renúncias dos principais mandatários. As semanas ficaram mais curtas diante do atropelo dos acontecimentos. Mal entrou no lugar de Papandreou e Lucas Papademos já enfrenta a desconfiança dos conterrâneos gregos e a do mercado. Na Itália, Berlusconi não aguentou o rojão. Mario Monti faz cara de estátua, mas sua indicação não conseguiu ainda apaziguar os ânimos dos investidores que continuam a cobrar altas taxas de juros pelos papéis da república italiana.

Como convencer os europeus de diferentes culturas e origens a se submeterem à uma só liderança política?

Quem será o próximo governante a perder apoio político? As fichas voltaram-se com muita força esta semana para a Espanha. A sorte é que José Luis Zapatero está no fim de seu mandato e não precisará passar pelo vexame do pedido de renúncia. Sairá do cargo fora da corrida eleitoral em uma situação política mais honrada. Como tantos outros espanhóis, assiste às declarações sem pé nem cabeça dos candidatos à presidência, que apregoam o fim da crise com a simples troca do governo, como imagina Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), ou o confronto com os especuladores, como defende Alfredo Rubalcaba, do PSOE, o partido socialista. A França está na mira do mercado e, mais recentemente, também a Áustria e a Bélgica começaram a ser alvo de desconfiança com relação à capacidade de honrar os compromissos da dívida soberana.

Desde que o projeto do euro foi colocado de pé, sabia-se que, além das muitas vantagens que a unificação monetária traria para a Europa, haveria também desvantagens quando se analisava a situação no caso a caso de cada país. Para começar, nenhum membro da União Monetária Europeia (UME) poderia mais fazer uso da taxa de juros para encorajar ou desencorajar o investimento e o consumo. Essa passou a ser uma função do BCE, com a preocupação de olhar o todo e não cada país individualmente.

Também deixou de ser prerrogativa individual a definição da política cambial. Os países integrantes do euro perderam a válvula de escape que o câmbio representa como meio de ajuste da economia.

Ambos os instrumentos – taxa de juros e câmbio – saíram das mãos do poder local e passaram para as mãos do BCE.

Sobrou, então, sob o comando dos governos individuais, o poder de manusear o orçamento e, com isso, tudo o mais que tem a ver com as contas do setor público. Ora, se não há juros e nem câmbio para administrar a economia, parece meio óbvio que os países passassem a recorrer à única opção restante, a política fiscal, como meio de injetar dinheiro na economia e estimular o crescimento.

Pesou mais os interesses políticos de partidos e governantes do que os requisitos traçados em comum acordo, conhecidos como critérios de convergência, que condicionavam a permanência de um membro do UME no grupo. O déficit anual do orçamento do governo no país (o montante de dinheiro devido) não poderia exceder 3% do PIB. A dívida ativa total do governo (o total acumulado do déficit anual do orçamento) não poderia exceder 60% do PIB. A taxa média nominal de juros no longo prazo deveria ser no máximo 2% maior que a taxa média dos três países com a taxa de inflação mais baixa, sendo que essas taxas de juros são medidas na base dos títulos de longo prazo do governo.

O ajuste fiscal ficou, a rigor, a critério de cada um, com os países à vontade para mover a economia pela via da dívida e do orçamento. Os números dos gastos públicos acumularam-se muito acima do recomendável e os endividamentos crescem ainda mais com a desconfiança dos mercados.

A quarta desvantagem a atrapalhar o UME é o que mais tem pesado nesta crise já longeva e cada vez mais profunda: a falta de uma voz única que represente todos os países do euro. Ora, aqui está o fulcro do problema. Como convencer os europeus de diferentes línguas, culturas e origens a se submeterem à uma só liderança política? Vê-se agora, na prática, que é como buscar a quadratura do círculo.

9 de novembro de 2011
Público e privado, condenável simbiose

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 20/10/2011)

Do alto, no palco do Rock in Rio, o vocalista Dinho da banda Capital Inicial empolgou a imensa multidão que tinha diante de si. Dedicou a música de Renato Russo “Que país é esse?” às “oligarquias que ainda parecem governar o Brasil”, falou da censura ao jornal “O Estado de São Paulo” e, explicitamente, mencionou “em especial” o nome de José Sarney. Quem ainda não assistiu, pode procurar o vídeo no YouTube.

Se fosse hoje, Dinho poderia incluir como exemplo do poder das oligarquias a decisão tomada pela Assembléia do Maranhão de transferir para a Secretaria de Educação do Estado a Fundação José Sarney, em claro exemplo de interesse privado que passa a ser absorvido pelo setor público.

Renato Russo escreveu a célebre música em 1978. De lá para cá, o que se vê é o acúmulo de descalabros no governo, em todas as três esferas de administração.

O poder executivo federal conta hoje com 37 ministérios, um exagero desnecessário que é justificado pela necessidade de sustentar o processo democrático em governo de coalizão. Cada partido político da base governista demanda postos e poder e os cargos do chamado primeiro escalão vão proliferando. Quanto mais ministérios houver, maior é a possibilidade de desvio do dinheiro público pela dificuldade de controle e de fiscalização. Não é à toa que têm crescido as suspeitas de atos de corrupção na máquina pública. E isso parece geral porque a “boa-vontade” dos governantes com os representantes dos partidos aliados se reproduz nos governos estaduais e municipais.

O “apadrinhamento” se estende aos postos de destaque nas agências reguladoras e nas empresas estatais, tornando-as ineficientes, com larga possibilidade de estarem a serviço dos interesses pessoais e não públicos.

As pessoas se escandalizam, mas a questão não tem sido devidamente estudada, com a profundidade que merece. Fernando de Holanda Barbosa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), além dos temas mais em evidência, como os da política cambial e da política monetária, tem chamado a atenção para a necessidade de manter o setor público sob controle. “O aumento da taxa de crescimento do produto potencial brasileiro depende de uma reforma que torne o estado eficiente na provisão de educação, saúde, segurança pública e justiça, e libere recursos para aumentar os investimentos públicos”, diz ele, sugerindo uma reforma que comece pela extinção de cargos de ministros do governo federal e de secretários nos estados e municípios.

Os gastos com a Fundação José Sarney serão, claro, cobertos com taxas e impostos pagos pelo povo maranhense. Não se tem ideia a quanto isso montará. Cabe à população local levantar a causa para descobrir o valor que vai afetar o bolso dos contribuintes. Será preciso dinheiro não apenas para manter a Fundação, mas também para a construção do túmulo do homenageado, algo que está incluído na decisão da Assembleia do estado. Apenas se desconhece se será uma simples sepultura ou um panteão.

O governo federal tem conseguido manter dentro do previsto os resultados de suas contas graças à crescente e altíssima carga da receita fiscal. Mesmo assim, não se pode despregar as vistas dos números oficiais, divulgados todo o mês. Vale destacar o aumento significativo que vem afetando o estoque da dívida pública federal. Os últimos dados mostram que a dívida interna alcançou o valor de R$ 2,4 trilhões na posição de final de agosto deste ano, bem acima dos R$ 1,7 trilhão apurado em dezembro de 2008 e dos R$ 838 milhões contabilizados em dezembro de 2002. Isso significa que toda a grandiosa carga tributária não tem sido suficiente para cobrir as despesas que, obviamente, só crescem. O governo precisa ir ao mercado para captar dinheiro, na forma de endividamento, para enfrentar as despesas que excedem a arrecadação.

Casos como o da Fundação José Sarney são, espera-se, contabilizados no rol dos gastos públicos. Ocorre que outros tipos de despesas não formais, nem oficiais, como os desvios de recursos públicos, passam ao largo da contabilidade. Ninguém tem ideia do montante. Recentemente, a Fiesp realizou um estudo onde estima entre R$ 41,5 bilhões e R$ 69,1 bilhões o valor da corrupção no país. A margem entre os números do estudo é muito larga e não por acaso. Em verdade, é difícil descobrir a quanto isso chega. Nem adiantaria sair com lápis e papel na mão a perguntar a todos os funcionários do governo se desviam dinheiro público e quanto seria isso. As respostas, obviamente, não seriam confiáveis!

15 de setembro de 2011
Querem enquadrar os culpados!

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 15/09/2011)

Quanto mais se agrava a situação econômico-financeira dos países mais desenvolvidos, assim chamados até aqui, menos clareza parece haver na percepção dos analistas de mercado quanto às mudanças de rumo e de prumo que têm tomado forma nos últimos três anos. A rigor, no 3º aniversário, completado hoje, da quebra formal do Lehman Brothers, predomina entre os porta-vozes do mercado financeiro a mesma postura de superioridade que ao longo dos anos dourados do crescimento mundial influenciou formadores de opinião, o mundo acadêmico e a política econômica do governo. A impressão que se tem, pelo menos por aqui, é a de que a ficha não caiu!

No entanto, o quadro é outro. São absolutamente vãs as tentativas no sentido de “enquadrar a crise”. Assim como são vãs, além de fundamentalmente equivocadas, as análises que teimam em ler os dados conjunturais de hoje com os mesmos olhos que guiaram opiniões e comentários no passado recente. Fizeram sentido até a “explosão” do sistema financeiro nos Estados Unidos, em 2008. Ocorre que a crise pegou no fundo justamente do segmento que mais evidência teve no cenário econômico e financeiro nos anos 90 e em boa parte da década passada. Junto, foram afetados princípios, crenças, dogmas e comportamentos. Mas nem todos se aperceberam disso, por inércia ou por omissão.

Em rápidas pinceladas, é possível resumir a profundidade das mudanças. O gráfico da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), dá uma boa ideia do tamanho de parte do pepino ao revelar a evolução em dez anos da dívida soberana de importantes países da Europa, além dos Estados Unidos. Com exceção apenas do Japão, cujas complicações se arrastam desde meados dos anos 90, os débitos acumulados são tão pesados que passaram a contaminar a eficácia da política fiscal daqueles países além de contaminar a administração da política monetária. No caso dos Estados Unidos, é notório que toda a expansão da dívida promovida nos últimos três anos não foi suficiente para colocar a economia de volta nos trilhos. Do mesmo modo, não resultou em sucesso a grandiosa emissão monetária realizada no mesmo período.

Diante do quadro, Ben Bernanke, presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), ferrenho defensor do regime de meta de inflação enquanto acadêmico e que abandonou suas crenças, clama pela flexibilidade no gerenciamento da moeda. No tradicional simpósio de Jackson Hole, promovido todos os anos pelo Banco Central da cidade de Kansas, no final de agosto, Bernanke foi claro: “o duplo mandato da política monetária deve responder às mudanças da economia e, em particular, ao panorama do crescimento e da inflação”. O Fed, como se sabe, tomou recentemente a decisão inédita de acenar com a perspectiva de mantar a mesma baixa taxa de juros até meados de 2013. Na verdade, mira o crescimento e não a inflação.

Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu) jogou para o espaço a sua referência maior na execução da política de administração da moeda, que preconiza o controle dos agregados monetários para manter a inflação estabilizada. Depois de praticar nos últimos anos uma política monetária tradicional, perseguindo ferrenhamente a queda da inflação com juros que enxugassem a liquidez do mercado, o BCE mudou totalmente de rumo quando passou a adquirir toneladas de títulos da dívida soberana dos países do euro que perderam a confiança do mercado. Nada mais faz o BCE, assim como nada mais fez o Fed quando se entupiu de papéis dos bancos que socorreu, do que subjugar-se às ingerências políticas dos países aos quais está atrelado.

Sacrifica-se a independência dos bancos centrais, tão cara ao dogmático padrão de conduta monetária da era de abundância dos PIBs e do encolhimento dos índices de preços, em nome do emprego e da prosperidade que se esvaiu. Venceu o pragmatismo político sobre a autonomia monetária, mesmo sem segurança de acerto e a despeito do risco que representa para o balanço dos bancos centrais o carregamento de dívidas cujos valores se degradam dia após dia no mercado!

No Brasil, a hegemonia do mercado financeiro parece ainda não ter sofrido abalos. Haja vista a reação convicta e estridente à decisão do Copom de reduzir os juros em 0,5 ponto de percentual, ao trazer a taxa para 12% ao ano. Clamou-se a favor do respeito à doutrina que rege o sistema de meta de inflação. Que sistema de metas? Qual a ótica? Ou seja, o BC não teria o direito de deixar o mercado no escuro, sem sinalizar com todas as pistas para onde caminha a condução da política monetária. Leia-se, taxa Selic. A crise, que crise? Para os que ficaram chupando o dedo, o BC precisaria ser enquadrado, assim como a crise.

Ninguém tem condições de antever agora o tamanho da encrenca que se prenuncia. Nem o BC, nem o mercado. Mas não pode haver dúvidas de que é séria a crise e que a economia brasileira sofrerá se o mundo encolher ainda mais!

18 de agosto de 2011
Retórica não é solução para o euro

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 18/08/2011)

Retórica, nada além de retórica, é o que os principais líderes do mundo desenvolvido, assim chamado, têm a apresentar na expectativa de que palavras e promessas possam resolver a grave situação econômica dos Estados Unidos e da Europa. Não há dúvida de que esta última enfrenta um cenário profundamente mais complicado do que a economia americana, emissora soberana de uma moeda que, embora desvalorizada, mantém-se como a principal reserva de valor e de troca no mercado financeiro internacional.

Já os europeus, mergulhados em movimentos de protesto popular liderados por jovens em busca de emprego e de autoafirmação, parecem jogados em um saco sem fundo. Quanto mais os líderes se reúnem, mais complicado fica o quadro. Ontem, um dia após mais um dos frustrados encontros entre o presidente Sarkozy e a chanceler Merkel, uma notícia preocupante envolvendo um banco europeu, conforme foi divulgada pelo “Financial Times”, fez brilhar com mais intensidade a luz amarela que paira sobre a região do euro.

A instituição bancária, cujo nome não é formalmente conhecido, pediu emprestado diretamente ao Banco Central Europeu (BCE) US$ 500 milhões, na forma de dólares, para fazer frente a obrigações tomadas na moeda americana. Não há em si nada de novo nisso. No entanto, chama a atenção o volume de recursos, em claro sinal de estreitamento de liquidez nas operações envolvendo o dólar no mercado interbancário europeu. A rigor, a taxa para aquelas operações tem subido.

Agregou-se esta semana às preocupações a constatação de que a Europa está virtualmente estagnada.

Não é o fim do mundo, nem deve ser visto como o início de uma crise do sistema financeiro europeu. Porém, é um importante fato que se soma a outros fatos também preocupantes com relação à Europa e à zona do euro em particular.

Para começar, não há liderança. Patina-se de um lado para outro, sem um plano firme que possa conciliar as discrepâncias internas entre os vários países à realidade de estarem amarrados, como emissores, a uma mesma moeda. Desde que essa confusão começou – no início do ano passado com os sinais de insolvência da Grécia – já se ouviu barbaridades de todos os tipos a pretexto de soluções. A mais recente evoca a criação de um eurobônus, ou seja, um título que represente a soberania dos 17 países que compõem a zona do euro. É como se uma cesta cheia de frutas de diversos tamanhos, e em diferentes estados de conservação, viesse a ser oferecida aos investidores na esperança que estes, por um lapso de percepção, olhassem para a cesta como se estivesse impregnada apenas do valor das boas frutas, sem a contaminação das podres. Não é de estranhar que os maiores defensores dessa aberração sejam justamente os países com dificuldades em rolar suas dívidas no mercado que a cada dia pede taxas mais altas, como ocorreu novamente ontem com os papéis da Itália.

Mas, perguntariam alguns, não seria o próprio euro uma aberração na medida em que representa monetariamente países com níveis de desenvolvimento diversos? Sim, mas como diria o aprendiz de feiticeiro, o experimento já se tornou uma realidade. Como notou para a coluna um experiente executivo do sistema financeiro brasileiro, a existência do euro funciona para os países menos competentes da região como uma espécie de “currency board” – comitê de emissão monetária – só que ali, diferentemente da Argentina, não é preciso usar o dólar para lastrear a moeda local.

O próprio euro, porque tem a Alemanha como um de seus emissores, funciona como camisa de força para os que não investiram na eficiência econômica nos últimos doze anos, desde o lançamento da nova moeda, em 1999.

Para deixar o quadro ainda mais confuso, agregou-se esta semana às preocupações a constatação de que a Europa está virtualmente estagnada. A Alemanha, dizem as estatísticas oficiais, cresceu mísero 0,1% no segundo trimestre sobre o primeiro e a França ficou em zero. Já não pode contar a máquina alemã com as mesmas vantagens das exportações que alimentaram sua engrenagem nos últimos anos. Os números ainda são preliminares para mostrarem uma tendência, mas dados do Eurostat – o órgão oficial das estatísticas da Comunidade Econômica Europeia (CEE), que abrange 27 países – atestam que as exportações da Alemanha para fora da CEE caíram 4,5% entre maio e junho deste ano. O saldo não foi negativo porque as importações caíram mais do que proporcionalmente. Pela mesma situação passam a França, a Holanda, a Bélgica e outros mais. Não é de espantar, tendo em vista a política americana de dólar fraco que estimula as exportações dos Estados Unidos, colocando forte freio nas importações do país, em cujas estatísticas a Europa sempre apareceu como grande fornecedora.

Diante de tais evidências, o que fazer? Rezar para que os Estados Unidos se recuperem rapidamente e para que a China não tropece na sua marcha rumo a lugar mais proeminente porque o Brasil, sozinho, não tem condições de aguentar esse rojão!

21 de julho de 2011
Ingerência política sobre o euro

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 21/07/2011)

A zona do euro poderia ser associada à Arca de Noé: a moeda é a arca e os bichos são os 17 países que formam a União Monetária Europeia (UME). Falta encontrar o Noé – ou Noés – que possa guiar a arca para porto seguro, salvando-a do Grande Dilúvio.

Espera-se que a reunião de hoje em Bruxelas venha a iluminar governantes e representantes de entidades monetárias no sentido da preservação da credibilidade do euro e do sistema bancário europeu cuja saúde está intimamente ligada ao valor dos ativos denominados naquela moeda.

Não será fácil encontrar uma solução para o curto e médio prazos que atenda ao mesmo tempo a necessidade de que o risco dos bônus emitidos em euro seja minimamente abalado e que os governos largamente endividados ganhem condições de administrar suas dívidas de forma mais equilibrada com a previsão de suas receitas. Uma linha muito fina, mas consistente, que atenda a devedores e credores, terá de ser traçada consensualmente com o apoio de todos os países da UME, a despeito das divergências políticas que desde 2010 nada mais fizeram do que ampliar um problema que era grego para a dimensão continental.

Houve displicência, sem dúvida. Os interesses particulares de cada país pesaram mais do que o da região. Em verdade, a origem da atual dificuldade vem de longe. O desaparecimento da válvula cambial que antes de 1999 camuflava a desnível competitivo na Comunidade Europeia não foi seriamente considerado nem antes e nem depois do lançamento da nova moeda. Muito menos houve preocupação dos líderes europeus em exigir e fiscalizar o cumprimento das regras de endividamento do Tratado de Maastricht. Permitiu-se aos países menos eficientes, afetos a governos permissivos, o acesso a uma unidade monetária cuja reputação repousa, a rigor, no poder econômico da Alemanha e da França.

As divergências até agora só conseguiram ampliar um problema que era grego para a dimensão continental
Mas não adianta chorar. Trata-se de agir agora para levar a nau a porto firme. Vários arranjos podem ser definidos para a Grécia em moldes que sirvam, como padrão, para outros países.

Não deveria causar surpresa se a Reserva para a Estabilidade Financeira Europeia (European Financial Stability Facility) vier a ser acionada como parte de um amplo pacote de medidas, provendo recursos para o governo grego recomprar papéis de sua emissão ou mesmo realizando compras diretas de bônus soberanos de países devedores no mercado secundário. O próprio fundo criado com o objetivo de socorrer os governos insolventes – e do qual devem sair os recursos do segundo empréstimo em garantia para a Grécia, em torno de € 125 bilhões, acima dos € 110 bilhões do primeiro socorro ao país, em maio de 2010 – teria potencialmente papel a desempenhar em uma solução mais geral.

Mas a dúvida sobre a reestruturação da dívida grega continua. Esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles de toda a problemática envolvendo o euro. O motivo é muito simples: se adotada, o Eurosystem – autoridade monetária europeia formada pelo Banco Central Europeu (BCE) e os bancos centrais dos 17 países membros – será afetado, uma vez que carrega em seus ativos mais de € 60 bilhões só em papéis da dívida grega. Muitos desses títulos foram aceitos em garantia da liquidez injetada no sistema bancário europeu.

Não à toa o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, tem alertado para as consequências de um “default” – integral, parcial ou selecionado – dos títulos da Grécia.

Em entrevista publicada na segunda-feira pelo “Financial Times Deutschland”, Trichet (que encerra seu mandato no BCE no final de outubro) foi enfático: “No caso de uma decisão dos governos que leve a um default seletivo ou a um default, contra o qual, de novo, nós advertimos em alto e bom som, os governos terão de cuidar para que o Eurosystem seja contemplado com “collateral” (garantias) que possam ser aceitas”. Se o pior acontecer, contra os avisos de Trichet, o BCE ficaria em situação inusitada, tendo de carregar ativos degradados em carteira, desclassificados pelas agências de risco.

A questão também impacta os bancos privados, pois muitos são credores de governos soberanos. As estatísticas do Banco Internacional de Compensações (BIS) mostram que boa parte dos créditos externos dos bancos alemães (fora da Alemanha) está comprometida com operações realizadas na região, das quais US$ 303 bilhões (€213 bilhões), ou um quarto do total, envolvem ativos do setor público, na posição de dezembro de 2010. Só em papéis da dívida soberana grega, os alemães têm exposição de cerca de US$ 21,6 bilhões (€15,2 bilhões). Os bancos franceses estão expostos aos títulos públicos gregos no equivalente a US$ 23,6 bilhões (€16,6 bilhões). Há sério risco de contágio.

Em meio à tormenta, um analista inglês comemorava: “Thank goodness UK did not join the euro!” (”Graças a Deus o Reino Unido não aderiu ao euro!”).

16 de junho de 2011
Real forte: bênção ou castigo?

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 16/06/2011)
Na terça-feira desta semana, a taxa de câmbio fechou em seu nível mais baixo dos últimos tempos, voltando aos dias áureos de 1999 quando o real entrou em flutuação, depois de ter amargado um janeiro de trevas.

Ontem, o dólar entrou em rota de alta, recuperando o terreno perdido nos dois dias anteriores. Entre um movimento e outro, 250 mil diferentes análises e prognósticos se levantam. Uns para um lado, outros, para outro. Sempre que o real se valoriza, a indústria grita. Sempre que o dólar se valoriza, o mercado se agita.

Mas os movimentos desta semana não passam de oscilações provocadas por impressões instantâneas. O dólar caiu porque a liquidez internacional se estreitou. O dólar sobe porque os dados da economia dos Estados Unidos são ruins e a Grécia voltou a virar um campo de batalha! Grandes diferenças de taxa de câmbio de um dia para o outro têm, efetivamente, o efeito de garantir ganhos para uns e perdas para outros nas operações realizadas no mercado, mas o relevante não é isso e sim o comportamento do câmbio ao longo dos anos.

Naquela perspectiva, é mais do que conhecida a trajetória de apreciação do real diante do dólar em suas duas etapas distintas. A primeira, relaciona-se ao período entre o início de 2007 e o auge da crise que derrubou o mercado internacional no final de 2008. A segunda etapa, caracterizada pelo período entre o primeiro trimestre de 2009 e os dias de hoje.

Canais precisam ser abertos para aumentar a saída de divisas estrangeiras pelo tempo que for necessário.

Tomando janeiro de 2007 por índice igual a 100, a moeda brasileira sofreu uma valorização de 35% em termos efetivos reais até o terceiro semestre de 2008 quando teve uma queda brusca, voltando rapidamente a valorizar-se em percentual que passa dos 35% em comparação com a base 100.

Paralelamente, o país vem acumulando reservas internacionais – próximas dos US$ 350 bilhões – e mantém sob controle o endividamento externo que, ao contrário do passado não muito remoto, hoje está mais acentuada nos tomadores do setor privado. Essas informações devem ser vistas como uma grande benção para um país que ainda está classificado no mundo dos “emergentes”. Ou seja, não passa por enquanto de um país em desenvolvimento por menor que seja a vulnerabilidade externa, mas inspira confiança.

É óbvio que a montanha de reservas internacionais traz muita tranquilidade para todos e ajuda o Brasil a conquistar níveis confortáveis de classificação de risco, conforme saudou ontem o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Por outro ângulo, um real encarecido face ao dólar tem o efeito de puxar para cima produtos e serviços transacionados no país, haja vista a disparada observada nos preços dos imóveis e principalmente no setor de prestação de serviços. É claro que os exportados também ficam mais caros no mercado internacional, muito embora nessa área várias possibilidades são oferecidas aos exportadores no mercado financeiro com o efeito de reduzir o impacto da queda da receita em reais.

Mas não há dúvida de que uma persistente apreciação do real imprime à moeda brasileira um determinado poder de compra que não condiz par e passo com o nível de desenvolvimento da economia e da sociedade. Há uma grande margem de artificialismo no valor do real diante dos valores cotados em mercado para as moedas consideradas fortes, em especial o dólar e o euro.

A resposta que alinha a valorização da moeda ao aumento da taxa de juros – atualmente em 12,25% nominais ou cerca de 7% em termos reais, ao ano, referenciada à Selic – está correta na simplória avaliação que compara uma com a outra. Mas o problema não está no câmbio. E a taxa de juros, por sua vez, reflete a necessidade de tornar cara a moeda nacional com a finalidade obrigatória do Banco Central de controlar a inflação. O que mantém os juros altos? Aí as respostas podem ser várias: descontrole dos gastos públicos, crédito farto pelos bancos públicos, elevada reminiscência de contratos atrelados à indexação, aumento da dívida pública interna, enfim… Todos explicam e todos devem ser atacados. Se arregaçar as mangas com ousadia para tapar todos os buracos, o governo estará sem dúvida contribuindo para a redução dos juros e para a depreciação da moeda nacional.

Enquanto a coragem política não vem, só há uma forma de reverter o processo de valorização da moeda nacional, supondo, obviamente, que nenhuma grande catástrofe internacional venha a tomar forma. Ou seja, só dá para desvalorizar o real se e quando houver da parte das autoridades a percepção de que canais precisam ser abertos para aumentar a saída de divisas estrangeiras pelo tempo que a situação indicar. O Brasil não tem uma moeda conversível e não terá tão cedo, o que o amarra ao nicho dos “emergentes”.

Mas pode abrir espaço para algumas operações que estimulem o carregamento de dólar no exterior por parte do setor privado. Aliás, a ideia de taxar produtos adquiridos por brasileiros com cartão de crédito no exterior vem justamente na contramão de medidas em prol da desvalorização do real.

19 de maio de 2011
Ensaios em prol de uma moeda

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 19/05/2011)
Tal e qual Fadinard, que passa todo o tempo em cena à procura do Chapéu de Palha de Itália, tema da magnífica ópera de Nino Rota, muito bem montada no Teatro São Carlos, os europeus tentam reencontrar a essência do projeto que levou à criação da União Europeia (UE). Não tem sido uma busca fácil. A introdução do euro, que abrange 17 dos 27 países da UE, colocou a nu desigualdades que conseguem conviver em uma zona de livre comércio, mas não resistem à uma zona de unificação monetária.

O uso de uma só moeda tornou evidente a baixa produtividade e, por conseguinte, as deficiências competitivas entre os países da região. Grécia, Portugal e Irlanda são os mais necessitados de ajuda financeira no momento, mas outros também têm sido afetados, como a Espanha e até a Itália. Em verdade, alguns membros da UE foram admitidos na zona do euro sem terem a mínima condição para isso. Quando a economia mundial crescia às custas de inflação zero, do boom dos ativos financeiros e da emergência da China, tudo seguia às mil maravilhas. Bastou o quadro mudar radicalmente para que se comprovasse na prática o que a história já sabia: a Europa não passa de uma colcha mal alinhavada de pedaços de territórios soberanos com características culturais, políticas e sociais bem diferentes.

O projeto de criação da UE serviu bem aos interesses alemães no pós-guerra pela necessidade de trazer para sua esfera de influência os vários países que surgiram ao redor de sua fronteira com etnias e origens engalfinhadas. Mas não houve muita preocupação sobre como lidar com os desvios do script traçado pelos vários tratados, emendas e sucessivos acordos alinhavados na região desde os anos 50. Pior, descortinam-se hoje algumas discussões claramente contra os ideais do projeto original como a proposta analisada em Bruxelas no sentido dos países da UE voltarem a fechar suas fronteiras aos cidadãos europeus, restaurando assim o controle migratório. Se levada adiante, a medida vai ferir o princípio fundamental da livre circulação de pessoas entre os países da comunidade.

Doze anos depois da criação do euro, a crise está na Europa. A situação não será rapidamente resolvida

Outros aspectos do projeto têm sido discutidos, mas nenhum deles passa por teste maior do que o da sobrevivência do euro. Na mesa está a capacidade dos países alinharem a política fiscal de modo a que todos na zona da moeda única toquem no mesmo tom, muito embora a música possa variar entre o fado, a zarzuela ou a polca.

O tamanho do Estado precisa encolher para abrir espaço à iniciativa privada de forma a garantir competitividade à região. Isso não vale apenas para os governos inadimplentes, mas também para países como a França onde a presença do Estado continua muito forte em vários setores da economia.

No descompasso que agora se procura ajustar, todos têm culpa. Os olhos fecharam-se às mazelas da Grécia, de Portugal e da Irlanda, que por muito tempo foi saudada como um prodígio na região. Erraram os dirigentes do Conselho Europeu pela não introdução de mecanismos que mantivessem as finanças públicas ajustadas ao limite de 3% de déficit com relação ao PIB, como ficou cravado no Tratado de Maastricht.

Portugal chegou a um déficit público de 10% do PIB em 2009 e fechou com 9,1% em 2010. Agora, sob um programa de ajuste draconiano do FMI, que prevê cortes por todos os lados, aumento da receita fiscal, fortalecimento do capital dos bancos e um programa de privatização que prevê a venda da TAP, da EDP e a eliminação da “golden share” que o Estado português detém em algumas empresas como a Portugal Telecom, terá de baixar o déficit ao limite de 3% até o final de 2013. É o mínimo que terá de fazer para justificar o pacote de € 78 bilhões que o país recebeu do FMI, do BCE e a UE e cuja conta vai recair em cima dos contribuintes europeus em seu maior peso.

A Irlanda ganhou o seu pacote em dezembro passado, no total de € 85 bilhões e tenta cumprir as exigências de ajuste. A Grécia, em pé de guerra, voltou a passar o pires. Não conseguiu manter-se minimamente alinhada com os € 110 bilhões que obteve há um ano e quer mais. Continua com déficit em torno de 10% do PIB. Na Espanha, o déficit público roda em torno dos 6% do PIB.

Quando o euro surgiu, não se imaginava que países detentores de moeda presumidamente tão forte viessem a enfrentar tal situação de desconfiança dos investidores. Doze anos depois, a crise está na Europa. A situação não será rapidamente resolvida, por mais que os dirigentes europeus descartem qualquer hipótese de reestruturação de dívida soberana contratada em euro.

Há movimentos políticos em paralelo que só aprofundam as dúvidas. Eleições à porta em Portugal, mobilização popular na Grécia e na Espanha, e mudança no comando do BCE com a saída do experiente Jean-Claude Trichet. Para complementar, em nada ajuda o continente o aparente distúrbio de debilidade sexual de Dominique Strauss-Kahn (ou DSK), comandante máximo do FMI até a semana passada.

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin – Comunicação Inteligente e autora do livro “A Real História do Real”. Escreve mensalmente, às quintas-feiras. E-mail: mclaraprado@ig.com.br

20 de abril de 2011
A arte de comunicaçao da moeda

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 20/04/2011)

Há não muito tempo, ninguém estranharia se em meio a uma roda de chope a imagem de presidente do Banco Central fosse associada à figura de um buldogue. Cara fechada, refratário à mídia, monossilábico nas declarações públicas, mais pareceria o guardião do pedaço do que propriamente o guardião da moeda. Ficou famosa a alcunha de “caixa-preta”, apropriadamente criada pelo ex-presidente da República, Itamar Franco, para denominar o Banco Central do Brasil. Estamos falando dos anos 80 e início dos 90. Portanto, o espaço de apenas uma geração.

Predominava a ideia de que a política monetária conseguiria afetar as variáveis reais como crescimento e emprego quando e somente se as alterações naquela política não fossem antecipadas. Os dirigentes da autoridade monetária atuavam de forma discricionária. O mercado era subjugado.

Os poucos economistas que ainda nos anos 80 defendiam maior transparência na atuação dos bancos centrais falaram sozinhos por bom tempo, até que o mundo percebeu a dimensão cada vez mais globalizada dos mercados e a liberdade de movimento dos fluxos de capital e mesmo do comércio. Foi aí que se percebeu a impossibilidade dos bancos centrais continuarem a fazer uso de metas monetárias (emissão de moeda, nas suas diferentes gradações) na busca pela estabilidade dos preços. Seria como enxugar gelo. Dá para imaginar o fiasco: o BC tirando diariamente montanhas de reais do mercado com perspectivas disso aumentar diante do crescente volume de moeda estrangeira que passou a entrar no país. A liquidez do real desapareceria e o dólar viraria moeda abundante. Teríamos instalado o caos monetário!

Meta de inflação só funciona se as expectativas forem efetivamente guiadas na direção do objetivo.
Portanto, a mudança generalizada para o regime de meta de inflação – no qual o BC persegue determinado nível de inflação, usando basicamente a taxa de juros e não a emissão de moeda para controlar a liquidez – decorreu da frouxidão no fluxo das moedas e da internacionalização do sistema financeiro. A Nova Zelândia foi o primeiro país a introduzir a meta de inflação, em 1991. Hoje, mais ou menos diretamente, a maioria dos bancos centrais criva em uma taxa de inflação esperada o norte da sua política monetária.

O Brasil viu-se obrigado a seguir o padrão mundial e adotou a meta de inflação em meados de 1999, poucos meses depois do mercado ter colocado a política cambial do BC em corner. Todos conhecem os problemas do regime brasileiro de meta de inflação. O maior deles está no peso dos chamados “preços administrados” na composição do IPCA, o índice usado como referencial oficial de inflação.

O vício vem de longe. Tem a ver com a quantidade razoável e relevante, do ponto de vista do consumo, de serviços cujas tarifas continuam atreladas à variação de algum tipo de índice de preços, notadamente o IGP da FGV. Em épocas normais, quando não há grandes choques de oferta nos preços livres, os “administrados” chegam a participar entre 20% e 25% na formação do IPCA. É uma boa fatia da inflação que fica alijada, pode-se dizer, dos efeitos diretos da política monetária. Essa deformação pode levar o BC a praticar juros mais altos do que deveria se todos os preços da economia fossem livremente formados no mercado. Um dia, terá de ser encarada pelo governo.

De todo modo, meta de inflação e autonomia do BC caminham juntas e essa conjugação tem a ver com a inquestionável credibilidade exigida para o bom funcionamento de tal regime monetário. É crucial porque meta de inflação só funciona se as expectativas forem efetivamente guiadas na direção do objetivo. Transparência, ao invés de obscuridade, passou a ser a tônica da atuação dos bancos centrais e, com ela, ganhou destaque o papel da comunicação das entidades monetárias com o público.

As palavras ditas pelo BC precisam ser certeiras, escolhidas a dedo para evitar ruído no mercado. Não só o BC não pode se esconder, como tem por obrigação comunicar de forma clara e precisa sua política ao mercado. A importância disso é tanto maior quanto mais confusa for a leitura do público com relação aos comunicados, declarações, escritos ou seja lá que tipo de meio o BC escolher para divulgar suas ações e previsões. De novo, trata-se de formar expectativas e, como disse em pronunciamento público este ano o governador do Banco de Reserva da Índia (o BC indiano), Duvvuri Subbarao, “muitas vezes a comunicação, ao invés de ser um veículo para a política (monetária), pode ser ela mesma a própria política”. Não dá para entender, por exemplo, que sentido tem uma declaração em “off” (quando a fonte da informação não aparece), aparentemente do governo, com a interpretação do que teria querido dizer o presidente do BC em tal ou qual situação. Não há nada mais obscuro do que isso! Só contribui para ampliar as incertezas.

Sugiro leitura da palestra proferida por Subbarao em janeiro, intitulada “Dilemas na Comunicação do Banco Central”. Pode ser acessada no www.business-standard.com/india/news/dilemmas-in-central-bank-communication/421253