18 de agosto de 2011
Retórica não é solução para o euro

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 18/08/2011)

Retórica, nada além de retórica, é o que os principais líderes do mundo desenvolvido, assim chamado, têm a apresentar na expectativa de que palavras e promessas possam resolver a grave situação econômica dos Estados Unidos e da Europa. Não há dúvida de que esta última enfrenta um cenário profundamente mais complicado do que a economia americana, emissora soberana de uma moeda que, embora desvalorizada, mantém-se como a principal reserva de valor e de troca no mercado financeiro internacional.

Já os europeus, mergulhados em movimentos de protesto popular liderados por jovens em busca de emprego e de autoafirmação, parecem jogados em um saco sem fundo. Quanto mais os líderes se reúnem, mais complicado fica o quadro. Ontem, um dia após mais um dos frustrados encontros entre o presidente Sarkozy e a chanceler Merkel, uma notícia preocupante envolvendo um banco europeu, conforme foi divulgada pelo “Financial Times”, fez brilhar com mais intensidade a luz amarela que paira sobre a região do euro.

A instituição bancária, cujo nome não é formalmente conhecido, pediu emprestado diretamente ao Banco Central Europeu (BCE) US$ 500 milhões, na forma de dólares, para fazer frente a obrigações tomadas na moeda americana. Não há em si nada de novo nisso. No entanto, chama a atenção o volume de recursos, em claro sinal de estreitamento de liquidez nas operações envolvendo o dólar no mercado interbancário europeu. A rigor, a taxa para aquelas operações tem subido.

Agregou-se esta semana às preocupações a constatação de que a Europa está virtualmente estagnada.

Não é o fim do mundo, nem deve ser visto como o início de uma crise do sistema financeiro europeu. Porém, é um importante fato que se soma a outros fatos também preocupantes com relação à Europa e à zona do euro em particular.

Para começar, não há liderança. Patina-se de um lado para outro, sem um plano firme que possa conciliar as discrepâncias internas entre os vários países à realidade de estarem amarrados, como emissores, a uma mesma moeda. Desde que essa confusão começou – no início do ano passado com os sinais de insolvência da Grécia – já se ouviu barbaridades de todos os tipos a pretexto de soluções. A mais recente evoca a criação de um eurobônus, ou seja, um título que represente a soberania dos 17 países que compõem a zona do euro. É como se uma cesta cheia de frutas de diversos tamanhos, e em diferentes estados de conservação, viesse a ser oferecida aos investidores na esperança que estes, por um lapso de percepção, olhassem para a cesta como se estivesse impregnada apenas do valor das boas frutas, sem a contaminação das podres. Não é de estranhar que os maiores defensores dessa aberração sejam justamente os países com dificuldades em rolar suas dívidas no mercado que a cada dia pede taxas mais altas, como ocorreu novamente ontem com os papéis da Itália.

Mas, perguntariam alguns, não seria o próprio euro uma aberração na medida em que representa monetariamente países com níveis de desenvolvimento diversos? Sim, mas como diria o aprendiz de feiticeiro, o experimento já se tornou uma realidade. Como notou para a coluna um experiente executivo do sistema financeiro brasileiro, a existência do euro funciona para os países menos competentes da região como uma espécie de “currency board” – comitê de emissão monetária – só que ali, diferentemente da Argentina, não é preciso usar o dólar para lastrear a moeda local.

O próprio euro, porque tem a Alemanha como um de seus emissores, funciona como camisa de força para os que não investiram na eficiência econômica nos últimos doze anos, desde o lançamento da nova moeda, em 1999.

Para deixar o quadro ainda mais confuso, agregou-se esta semana às preocupações a constatação de que a Europa está virtualmente estagnada. A Alemanha, dizem as estatísticas oficiais, cresceu mísero 0,1% no segundo trimestre sobre o primeiro e a França ficou em zero. Já não pode contar a máquina alemã com as mesmas vantagens das exportações que alimentaram sua engrenagem nos últimos anos. Os números ainda são preliminares para mostrarem uma tendência, mas dados do Eurostat – o órgão oficial das estatísticas da Comunidade Econômica Europeia (CEE), que abrange 27 países – atestam que as exportações da Alemanha para fora da CEE caíram 4,5% entre maio e junho deste ano. O saldo não foi negativo porque as importações caíram mais do que proporcionalmente. Pela mesma situação passam a França, a Holanda, a Bélgica e outros mais. Não é de espantar, tendo em vista a política americana de dólar fraco que estimula as exportações dos Estados Unidos, colocando forte freio nas importações do país, em cujas estatísticas a Europa sempre apareceu como grande fornecedora.

Diante de tais evidências, o que fazer? Rezar para que os Estados Unidos se recuperem rapidamente e para que a China não tropece na sua marcha rumo a lugar mais proeminente porque o Brasil, sozinho, não tem condições de aguentar esse rojão!

21 de julho de 2011
Ingerência política sobre o euro

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 21/07/2011)

A zona do euro poderia ser associada à Arca de Noé: a moeda é a arca e os bichos são os 17 países que formam a União Monetária Europeia (UME). Falta encontrar o Noé – ou Noés – que possa guiar a arca para porto seguro, salvando-a do Grande Dilúvio.

Espera-se que a reunião de hoje em Bruxelas venha a iluminar governantes e representantes de entidades monetárias no sentido da preservação da credibilidade do euro e do sistema bancário europeu cuja saúde está intimamente ligada ao valor dos ativos denominados naquela moeda.

Não será fácil encontrar uma solução para o curto e médio prazos que atenda ao mesmo tempo a necessidade de que o risco dos bônus emitidos em euro seja minimamente abalado e que os governos largamente endividados ganhem condições de administrar suas dívidas de forma mais equilibrada com a previsão de suas receitas. Uma linha muito fina, mas consistente, que atenda a devedores e credores, terá de ser traçada consensualmente com o apoio de todos os países da UME, a despeito das divergências políticas que desde 2010 nada mais fizeram do que ampliar um problema que era grego para a dimensão continental.

Houve displicência, sem dúvida. Os interesses particulares de cada país pesaram mais do que o da região. Em verdade, a origem da atual dificuldade vem de longe. O desaparecimento da válvula cambial que antes de 1999 camuflava a desnível competitivo na Comunidade Europeia não foi seriamente considerado nem antes e nem depois do lançamento da nova moeda. Muito menos houve preocupação dos líderes europeus em exigir e fiscalizar o cumprimento das regras de endividamento do Tratado de Maastricht. Permitiu-se aos países menos eficientes, afetos a governos permissivos, o acesso a uma unidade monetária cuja reputação repousa, a rigor, no poder econômico da Alemanha e da França.

As divergências até agora só conseguiram ampliar um problema que era grego para a dimensão continental
Mas não adianta chorar. Trata-se de agir agora para levar a nau a porto firme. Vários arranjos podem ser definidos para a Grécia em moldes que sirvam, como padrão, para outros países.

Não deveria causar surpresa se a Reserva para a Estabilidade Financeira Europeia (European Financial Stability Facility) vier a ser acionada como parte de um amplo pacote de medidas, provendo recursos para o governo grego recomprar papéis de sua emissão ou mesmo realizando compras diretas de bônus soberanos de países devedores no mercado secundário. O próprio fundo criado com o objetivo de socorrer os governos insolventes – e do qual devem sair os recursos do segundo empréstimo em garantia para a Grécia, em torno de € 125 bilhões, acima dos € 110 bilhões do primeiro socorro ao país, em maio de 2010 – teria potencialmente papel a desempenhar em uma solução mais geral.

Mas a dúvida sobre a reestruturação da dívida grega continua. Esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles de toda a problemática envolvendo o euro. O motivo é muito simples: se adotada, o Eurosystem – autoridade monetária europeia formada pelo Banco Central Europeu (BCE) e os bancos centrais dos 17 países membros – será afetado, uma vez que carrega em seus ativos mais de € 60 bilhões só em papéis da dívida grega. Muitos desses títulos foram aceitos em garantia da liquidez injetada no sistema bancário europeu.

Não à toa o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, tem alertado para as consequências de um “default” – integral, parcial ou selecionado – dos títulos da Grécia.

Em entrevista publicada na segunda-feira pelo “Financial Times Deutschland”, Trichet (que encerra seu mandato no BCE no final de outubro) foi enfático: “No caso de uma decisão dos governos que leve a um default seletivo ou a um default, contra o qual, de novo, nós advertimos em alto e bom som, os governos terão de cuidar para que o Eurosystem seja contemplado com “collateral” (garantias) que possam ser aceitas”. Se o pior acontecer, contra os avisos de Trichet, o BCE ficaria em situação inusitada, tendo de carregar ativos degradados em carteira, desclassificados pelas agências de risco.

A questão também impacta os bancos privados, pois muitos são credores de governos soberanos. As estatísticas do Banco Internacional de Compensações (BIS) mostram que boa parte dos créditos externos dos bancos alemães (fora da Alemanha) está comprometida com operações realizadas na região, das quais US$ 303 bilhões (€213 bilhões), ou um quarto do total, envolvem ativos do setor público, na posição de dezembro de 2010. Só em papéis da dívida soberana grega, os alemães têm exposição de cerca de US$ 21,6 bilhões (€15,2 bilhões). Os bancos franceses estão expostos aos títulos públicos gregos no equivalente a US$ 23,6 bilhões (€16,6 bilhões). Há sério risco de contágio.

Em meio à tormenta, um analista inglês comemorava: “Thank goodness UK did not join the euro!” (”Graças a Deus o Reino Unido não aderiu ao euro!”).

16 de junho de 2011
Real forte: bênção ou castigo?

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 16/06/2011)
Na terça-feira desta semana, a taxa de câmbio fechou em seu nível mais baixo dos últimos tempos, voltando aos dias áureos de 1999 quando o real entrou em flutuação, depois de ter amargado um janeiro de trevas.

Ontem, o dólar entrou em rota de alta, recuperando o terreno perdido nos dois dias anteriores. Entre um movimento e outro, 250 mil diferentes análises e prognósticos se levantam. Uns para um lado, outros, para outro. Sempre que o real se valoriza, a indústria grita. Sempre que o dólar se valoriza, o mercado se agita.

Mas os movimentos desta semana não passam de oscilações provocadas por impressões instantâneas. O dólar caiu porque a liquidez internacional se estreitou. O dólar sobe porque os dados da economia dos Estados Unidos são ruins e a Grécia voltou a virar um campo de batalha! Grandes diferenças de taxa de câmbio de um dia para o outro têm, efetivamente, o efeito de garantir ganhos para uns e perdas para outros nas operações realizadas no mercado, mas o relevante não é isso e sim o comportamento do câmbio ao longo dos anos.

Naquela perspectiva, é mais do que conhecida a trajetória de apreciação do real diante do dólar em suas duas etapas distintas. A primeira, relaciona-se ao período entre o início de 2007 e o auge da crise que derrubou o mercado internacional no final de 2008. A segunda etapa, caracterizada pelo período entre o primeiro trimestre de 2009 e os dias de hoje.

Canais precisam ser abertos para aumentar a saída de divisas estrangeiras pelo tempo que for necessário.

Tomando janeiro de 2007 por índice igual a 100, a moeda brasileira sofreu uma valorização de 35% em termos efetivos reais até o terceiro semestre de 2008 quando teve uma queda brusca, voltando rapidamente a valorizar-se em percentual que passa dos 35% em comparação com a base 100.

Paralelamente, o país vem acumulando reservas internacionais – próximas dos US$ 350 bilhões – e mantém sob controle o endividamento externo que, ao contrário do passado não muito remoto, hoje está mais acentuada nos tomadores do setor privado. Essas informações devem ser vistas como uma grande benção para um país que ainda está classificado no mundo dos “emergentes”. Ou seja, não passa por enquanto de um país em desenvolvimento por menor que seja a vulnerabilidade externa, mas inspira confiança.

É óbvio que a montanha de reservas internacionais traz muita tranquilidade para todos e ajuda o Brasil a conquistar níveis confortáveis de classificação de risco, conforme saudou ontem o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Por outro ângulo, um real encarecido face ao dólar tem o efeito de puxar para cima produtos e serviços transacionados no país, haja vista a disparada observada nos preços dos imóveis e principalmente no setor de prestação de serviços. É claro que os exportados também ficam mais caros no mercado internacional, muito embora nessa área várias possibilidades são oferecidas aos exportadores no mercado financeiro com o efeito de reduzir o impacto da queda da receita em reais.

Mas não há dúvida de que uma persistente apreciação do real imprime à moeda brasileira um determinado poder de compra que não condiz par e passo com o nível de desenvolvimento da economia e da sociedade. Há uma grande margem de artificialismo no valor do real diante dos valores cotados em mercado para as moedas consideradas fortes, em especial o dólar e o euro.

A resposta que alinha a valorização da moeda ao aumento da taxa de juros – atualmente em 12,25% nominais ou cerca de 7% em termos reais, ao ano, referenciada à Selic – está correta na simplória avaliação que compara uma com a outra. Mas o problema não está no câmbio. E a taxa de juros, por sua vez, reflete a necessidade de tornar cara a moeda nacional com a finalidade obrigatória do Banco Central de controlar a inflação. O que mantém os juros altos? Aí as respostas podem ser várias: descontrole dos gastos públicos, crédito farto pelos bancos públicos, elevada reminiscência de contratos atrelados à indexação, aumento da dívida pública interna, enfim… Todos explicam e todos devem ser atacados. Se arregaçar as mangas com ousadia para tapar todos os buracos, o governo estará sem dúvida contribuindo para a redução dos juros e para a depreciação da moeda nacional.

Enquanto a coragem política não vem, só há uma forma de reverter o processo de valorização da moeda nacional, supondo, obviamente, que nenhuma grande catástrofe internacional venha a tomar forma. Ou seja, só dá para desvalorizar o real se e quando houver da parte das autoridades a percepção de que canais precisam ser abertos para aumentar a saída de divisas estrangeiras pelo tempo que a situação indicar. O Brasil não tem uma moeda conversível e não terá tão cedo, o que o amarra ao nicho dos “emergentes”.

Mas pode abrir espaço para algumas operações que estimulem o carregamento de dólar no exterior por parte do setor privado. Aliás, a ideia de taxar produtos adquiridos por brasileiros com cartão de crédito no exterior vem justamente na contramão de medidas em prol da desvalorização do real.

19 de maio de 2011
Ensaios em prol de uma moeda

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 19/05/2011)
Tal e qual Fadinard, que passa todo o tempo em cena à procura do Chapéu de Palha de Itália, tema da magnífica ópera de Nino Rota, muito bem montada no Teatro São Carlos, os europeus tentam reencontrar a essência do projeto que levou à criação da União Europeia (UE). Não tem sido uma busca fácil. A introdução do euro, que abrange 17 dos 27 países da UE, colocou a nu desigualdades que conseguem conviver em uma zona de livre comércio, mas não resistem à uma zona de unificação monetária.

O uso de uma só moeda tornou evidente a baixa produtividade e, por conseguinte, as deficiências competitivas entre os países da região. Grécia, Portugal e Irlanda são os mais necessitados de ajuda financeira no momento, mas outros também têm sido afetados, como a Espanha e até a Itália. Em verdade, alguns membros da UE foram admitidos na zona do euro sem terem a mínima condição para isso. Quando a economia mundial crescia às custas de inflação zero, do boom dos ativos financeiros e da emergência da China, tudo seguia às mil maravilhas. Bastou o quadro mudar radicalmente para que se comprovasse na prática o que a história já sabia: a Europa não passa de uma colcha mal alinhavada de pedaços de territórios soberanos com características culturais, políticas e sociais bem diferentes.

O projeto de criação da UE serviu bem aos interesses alemães no pós-guerra pela necessidade de trazer para sua esfera de influência os vários países que surgiram ao redor de sua fronteira com etnias e origens engalfinhadas. Mas não houve muita preocupação sobre como lidar com os desvios do script traçado pelos vários tratados, emendas e sucessivos acordos alinhavados na região desde os anos 50. Pior, descortinam-se hoje algumas discussões claramente contra os ideais do projeto original como a proposta analisada em Bruxelas no sentido dos países da UE voltarem a fechar suas fronteiras aos cidadãos europeus, restaurando assim o controle migratório. Se levada adiante, a medida vai ferir o princípio fundamental da livre circulação de pessoas entre os países da comunidade.

Doze anos depois da criação do euro, a crise está na Europa. A situação não será rapidamente resolvida

Outros aspectos do projeto têm sido discutidos, mas nenhum deles passa por teste maior do que o da sobrevivência do euro. Na mesa está a capacidade dos países alinharem a política fiscal de modo a que todos na zona da moeda única toquem no mesmo tom, muito embora a música possa variar entre o fado, a zarzuela ou a polca.

O tamanho do Estado precisa encolher para abrir espaço à iniciativa privada de forma a garantir competitividade à região. Isso não vale apenas para os governos inadimplentes, mas também para países como a França onde a presença do Estado continua muito forte em vários setores da economia.

No descompasso que agora se procura ajustar, todos têm culpa. Os olhos fecharam-se às mazelas da Grécia, de Portugal e da Irlanda, que por muito tempo foi saudada como um prodígio na região. Erraram os dirigentes do Conselho Europeu pela não introdução de mecanismos que mantivessem as finanças públicas ajustadas ao limite de 3% de déficit com relação ao PIB, como ficou cravado no Tratado de Maastricht.

Portugal chegou a um déficit público de 10% do PIB em 2009 e fechou com 9,1% em 2010. Agora, sob um programa de ajuste draconiano do FMI, que prevê cortes por todos os lados, aumento da receita fiscal, fortalecimento do capital dos bancos e um programa de privatização que prevê a venda da TAP, da EDP e a eliminação da “golden share” que o Estado português detém em algumas empresas como a Portugal Telecom, terá de baixar o déficit ao limite de 3% até o final de 2013. É o mínimo que terá de fazer para justificar o pacote de € 78 bilhões que o país recebeu do FMI, do BCE e a UE e cuja conta vai recair em cima dos contribuintes europeus em seu maior peso.

A Irlanda ganhou o seu pacote em dezembro passado, no total de € 85 bilhões e tenta cumprir as exigências de ajuste. A Grécia, em pé de guerra, voltou a passar o pires. Não conseguiu manter-se minimamente alinhada com os € 110 bilhões que obteve há um ano e quer mais. Continua com déficit em torno de 10% do PIB. Na Espanha, o déficit público roda em torno dos 6% do PIB.

Quando o euro surgiu, não se imaginava que países detentores de moeda presumidamente tão forte viessem a enfrentar tal situação de desconfiança dos investidores. Doze anos depois, a crise está na Europa. A situação não será rapidamente resolvida, por mais que os dirigentes europeus descartem qualquer hipótese de reestruturação de dívida soberana contratada em euro.

Há movimentos políticos em paralelo que só aprofundam as dúvidas. Eleições à porta em Portugal, mobilização popular na Grécia e na Espanha, e mudança no comando do BCE com a saída do experiente Jean-Claude Trichet. Para complementar, em nada ajuda o continente o aparente distúrbio de debilidade sexual de Dominique Strauss-Kahn (ou DSK), comandante máximo do FMI até a semana passada.

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin – Comunicação Inteligente e autora do livro “A Real História do Real”. Escreve mensalmente, às quintas-feiras. E-mail: mclaraprado@ig.com.br

20 de abril de 2011
A arte de comunicaçao da moeda

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 20/04/2011)

Há não muito tempo, ninguém estranharia se em meio a uma roda de chope a imagem de presidente do Banco Central fosse associada à figura de um buldogue. Cara fechada, refratário à mídia, monossilábico nas declarações públicas, mais pareceria o guardião do pedaço do que propriamente o guardião da moeda. Ficou famosa a alcunha de “caixa-preta”, apropriadamente criada pelo ex-presidente da República, Itamar Franco, para denominar o Banco Central do Brasil. Estamos falando dos anos 80 e início dos 90. Portanto, o espaço de apenas uma geração.

Predominava a ideia de que a política monetária conseguiria afetar as variáveis reais como crescimento e emprego quando e somente se as alterações naquela política não fossem antecipadas. Os dirigentes da autoridade monetária atuavam de forma discricionária. O mercado era subjugado.

Os poucos economistas que ainda nos anos 80 defendiam maior transparência na atuação dos bancos centrais falaram sozinhos por bom tempo, até que o mundo percebeu a dimensão cada vez mais globalizada dos mercados e a liberdade de movimento dos fluxos de capital e mesmo do comércio. Foi aí que se percebeu a impossibilidade dos bancos centrais continuarem a fazer uso de metas monetárias (emissão de moeda, nas suas diferentes gradações) na busca pela estabilidade dos preços. Seria como enxugar gelo. Dá para imaginar o fiasco: o BC tirando diariamente montanhas de reais do mercado com perspectivas disso aumentar diante do crescente volume de moeda estrangeira que passou a entrar no país. A liquidez do real desapareceria e o dólar viraria moeda abundante. Teríamos instalado o caos monetário!

Meta de inflação só funciona se as expectativas forem efetivamente guiadas na direção do objetivo.
Portanto, a mudança generalizada para o regime de meta de inflação – no qual o BC persegue determinado nível de inflação, usando basicamente a taxa de juros e não a emissão de moeda para controlar a liquidez – decorreu da frouxidão no fluxo das moedas e da internacionalização do sistema financeiro. A Nova Zelândia foi o primeiro país a introduzir a meta de inflação, em 1991. Hoje, mais ou menos diretamente, a maioria dos bancos centrais criva em uma taxa de inflação esperada o norte da sua política monetária.

O Brasil viu-se obrigado a seguir o padrão mundial e adotou a meta de inflação em meados de 1999, poucos meses depois do mercado ter colocado a política cambial do BC em corner. Todos conhecem os problemas do regime brasileiro de meta de inflação. O maior deles está no peso dos chamados “preços administrados” na composição do IPCA, o índice usado como referencial oficial de inflação.

O vício vem de longe. Tem a ver com a quantidade razoável e relevante, do ponto de vista do consumo, de serviços cujas tarifas continuam atreladas à variação de algum tipo de índice de preços, notadamente o IGP da FGV. Em épocas normais, quando não há grandes choques de oferta nos preços livres, os “administrados” chegam a participar entre 20% e 25% na formação do IPCA. É uma boa fatia da inflação que fica alijada, pode-se dizer, dos efeitos diretos da política monetária. Essa deformação pode levar o BC a praticar juros mais altos do que deveria se todos os preços da economia fossem livremente formados no mercado. Um dia, terá de ser encarada pelo governo.

De todo modo, meta de inflação e autonomia do BC caminham juntas e essa conjugação tem a ver com a inquestionável credibilidade exigida para o bom funcionamento de tal regime monetário. É crucial porque meta de inflação só funciona se as expectativas forem efetivamente guiadas na direção do objetivo. Transparência, ao invés de obscuridade, passou a ser a tônica da atuação dos bancos centrais e, com ela, ganhou destaque o papel da comunicação das entidades monetárias com o público.

As palavras ditas pelo BC precisam ser certeiras, escolhidas a dedo para evitar ruído no mercado. Não só o BC não pode se esconder, como tem por obrigação comunicar de forma clara e precisa sua política ao mercado. A importância disso é tanto maior quanto mais confusa for a leitura do público com relação aos comunicados, declarações, escritos ou seja lá que tipo de meio o BC escolher para divulgar suas ações e previsões. De novo, trata-se de formar expectativas e, como disse em pronunciamento público este ano o governador do Banco de Reserva da Índia (o BC indiano), Duvvuri Subbarao, “muitas vezes a comunicação, ao invés de ser um veículo para a política (monetária), pode ser ela mesma a própria política”. Não dá para entender, por exemplo, que sentido tem uma declaração em “off” (quando a fonte da informação não aparece), aparentemente do governo, com a interpretação do que teria querido dizer o presidente do BC em tal ou qual situação. Não há nada mais obscuro do que isso! Só contribui para ampliar as incertezas.

Sugiro leitura da palestra proferida por Subbarao em janeiro, intitulada “Dilemas na Comunicação do Banco Central”. Pode ser acessada no www.business-standard.com/india/news/dilemmas-in-central-bank-communication/421253

17 de março de 2011
Momento não recomenda bravatas

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 17/03/2011)

O Brasil não tem um problema de contas externas, mas tem sérios problemas econômicos internos. Todos relacionados ao tripé câmbio/ juros/ inflação. Não são questões novas. Arrastam-se há mais de dez anos. Para ser justa, desde 1995, quando se percebeu que câmbio apreciado era o melhor antídoto contra o retorno à nociva hiperinflação. Todos se lembram do esforço colossal, necessário nos primeiros anos, para perpetuar a estabilização do real.

Nos últimos dez anos, as benesses globais da conjunção inflação baixa e crescimento robusto, em situação de farta liquidez, caíram como luva para garantir a valorização da moeda nacional e, assim, a estabilidade monetária. Ninguém no governo teve, no entanto, coragem sequer de triscar a configuração da sagrada trindade câmbio/ juros/ inflação.

É possível que recaiam sobre o governo da presidente Dilma Rousseff as consequências daquela omissão. Pois o quadro que se delineia nas relações econômicas mundiais a cada dia mostra-se mais e mais distante do período de prosperidade rompido emblematicamente pela “débâcle” do sistema financeiro dos Estados Unidos em 2008.

Diante do tamanho das dificuldades que têm surgido nas economias desenvolvidas e algumas já detectadas na China – a tragédia vivida pelo Japão só agrava o quadro – o Brasil tem diante de si perspectivas complicadas. Debates simplistas sobre meta de inflação, do tipo redução do alvo, expurgo de alguns itens do IPCA, etc.. são absolutamente inócuos. Também se encaixa na gaveta da perda de tempo as 250 mil – podem ser mais, não foram contabilizadas – opiniões sobre câmbio, do tipo põe IOF, represamento de divisas no Banco Central, etc..

Quanto aos juros, tendo em vista o cenário, não se espera nada mais além do cumprimento do papel do Banco Central que é o de zelar pela estabilidade da moeda.

O ponto vital e inequívoco a ser focado é a inflação, que dá sinais perigosos de descontrole. A inflação em si, e não a meta. É fundamental que se retenha isso. De nada adianta ter metas mais baixas de inflação, como defendem alguns, se o real se depreciar ou se os preços externos continuarem em espiral. São coisas intrinsecamente atreladas e a conjuntura mundial não recomenda ousadias nem bravatas.

Diferentemente da realidade anterior, o nível da taxa de câmbio hoje, por mais apreciado que esteja o real, já não compensa a variação de preços de muitos dos produtos importados. Isto vale para combustíveis, produtos químicos, bens duráveis, e outros cujos preços têm aumentado no mercado internacional. Uma realidade bate à porta e não pode ser desconsiderada: a inflação voltou com força nos segmentos de produtos importados pelo Brasil. Até os produtos chineses estão mais caros.

Isso significa, em simples aritmética, que qualquer depreciação do real no momento teria o efeito de encarecer ainda mais os importados, abrindo brecha para contaminar a inflação interna. Mas há outro lado do câmbio, estudado principalmente pelo viés nefasto sobre o aumento de preços, o chamado “pass through”, ou, em tradução livre, “passagem direta”, termo usado para caracterizar a transmissão direta dos movimentos cambiais sobre os preços. É claro que não há uma medida única sobre o impacto de determinada depreciação do real sobre os preços.

A depreciação do real alimentaria a inflação que já caminha, pelas próprias pernas, para um patamar mais alto
Depende das expectativas com relação à própria inflação antes do efeito cambial. Um exemplo: a influência que a descabida e insensata defesa do salário mínimo de R$ 600 teve sobre as previsões. Fato é que, para mais ou para menos, o câmbio afeta os preços em geral. Medidas de indução à depreciação do real, agora, só ajudariam a alimentar a inflação que já caminha, pelas próprias pernas, para um patamar mais alto.

Sabe-se que outros fatores puxam os índices para cima. Um terço dos bens e serviços que compõem o IPCA tem seus preços atrelados à variação de algum tipo de índice. Também gastos correntes abusivos do setor público são fonte de inflação e parece que, no campo das expectativas, o corte de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo federal não teve ainda grandes efeitos. Porém, tudo somado, descontando-se os aumentos sazonais, como o das mensalidades escolares, entre outros, boa parte do aumento de preços projetado pela imaginação coletiva parece ter raiz na reversão da trajetória da economia internacional, que já não ajuda a camuflar as mazelas brasileiras.

Se isso é verdade, se o mundo efetivamente mudou, cabe à presidente Dilma Rousseff e a seu gabinete desempenhar o papel que a legitimidade do poder lhe confere: tentar segurar a inflação a todo custo e adiar medidas que possam piorar o quadro. Ter, enfim, a coragem de dizer ao povo que época de vacas magras se prenuncia e persuadi-lo a rechaçar o aumento dos preços. Poupar hoje para gastar mais adiante. Foi no gogó, além do câmbio, que o real se segurou nos primeiros meses de vida.

17 de fevereiro de 2011
A diferença entre as primaveras

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 17/02/2011)

O que mais intrigava aquela jovem carioca era o enorme interesse de Tom Charvat pelos Estados Unidos: o que acontecia por lá, as músicas em voga, as novidades políticas e, sobretudo, a curiosidade em saber tudo sobre a viagem do primeiro homem à Lua, um fato obviamente censurado em seu país. Dava para imaginar que Tom tivesse recorrido a uma “pen pall” brasileira para não ter as cartas interceptadas. Como se sabe, só em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, Tom Charvat e outros jovens tchecos puderam conhecer e compartilhar livremente dos acontecimentos e das opiniões internamente e com o resto do mundo.

Na quinta-feira passada, William Veras, um jovem de São Bernardo do Campo, contou no debate sobre o Egito, no Instituto Fernand Braudel, que trocou informações com três jovens egípcios (todos chamados Muhammad) ao longo das semanas que marcaram a revolta da população no Cairo. Ficou sabendo de tudo o que se passava concomitantemente aos acontecimentos na praça Tahir. “Primeiro entrei no LIVEMOCHA, um site de relacionamento internacional de várias línguas, depois me comuniquei com eles através do Skype, do Twitter e do Facebook”, contou William, revelando que os jovens egípcios querem mudar, participar, votar, enfim, melhorar de vida e ter voz na vida política do país.

As mídias sociais provaram que são, indubitavelmente, o mais importante meio de mobilização popular e o caso do Egito será para sempre lembrado como emblemático.

Porém, mais do que o largo poder de mobilização testado na prática na chamada Primavera Árabe, há na Internet e em suas várias ferramentas a característica intrínseca de estreitar a dimensão do universo. Qualquer que seja a distância geográfica e para muito além das fronteiras do cerceamento político, a rede leva aos quatro cantos costumes, opiniões, músicas, modas e modismos, cria ambições e estimula desejos.

Até Marshall McLuhan ficaria espantado com o tamanho da coisa se pudesse imaginar o poder dos avançados apetrechos eletrônicos quando preconizou, no final dos 60, que a humanidade caminhava para uma “aldeia global”. Partiu do enorme poder do rádio e da TV na comunicação de massa. O papel da Al Jazeera foi crucial nos levantes árabes. Mas a TV já está aquém das mídias eletrônicas que, além de transmitirem texto, imagem, voz e som, permitem aos usuários interagirem, em tempo real, uns com os outros.

As instituições tal como formalizadas parecem estar em dissonância com o novo paradigma que passou a moldar o comportamento dos jovens, e também de muitos adultos, neste século XXI.

A questão primeira, que antecede ao fator mobilizador, é a capacidade que tem a Internet de expor uma sociedade, a cada segundo, a novos tipos de produtos e a novas formas de viver. Aquela troca de cartas com Tom Charvat, que, além da demora, ainda recebia as informações a partir da única e distante visão de uma jovem carioca, parece hoje ficção. Entre os desdobramentos do novo processo, talvez o mais óbvio e menos estudado seja a consolidação de um campo fértil, ilimitado e mundial, para a multiplicação do fenômeno que leva as pessoas a se espelharem umas nas outras.

As mídias sociais provaram ser importante meio de mobilização popular. O caso do Egito é emblemático.
Aguça-se o que se convencionou chamar na sociologia e na ciência social de “efeito demonstração”. Aquilo que o meu vizinho tem, eu também quero ter. Essa é, a rigor, a essência do capitalismo. Ocorre que o vizinho hoje não é somente o indivíduo que mora em frente ou na casa ao lado. Vizinhos viraram todos os que frequentam as páginas dos sites de relacionamento como o Facebook e o Orkut, ou que compartilham as mensagens # curtas e objetivas # do Twitter, além de outros espaços disponíveis, como salas de bate-papos e SMS.

Há mais de 50 anos, o economista Ragnar Nurkse, nascido na Estônia – considerado um dos maiores nomes da economia do desenvolvimento – introduziu o conceito do “efeito demonstração internacional”. Defendia ele que “o conhecimento e o contato com novos padrões de consumo abrem os olhos para possibilidades nunca antes vislumbradas e geram, com o tempo, insatisfação e impaciência onde não há perspectiva de serem alcançados”.

As pressões pelo acesso a bens mais sofisticados e avançados aumentam e práticas antigas de consumo deixam de ser aceitas. “O seu (da sociedade) conhecimento é ampliado, a imaginação é estimulada e novos desejos afloram”, indicou ele. É isso o que provoca a Internet.

Se o conceito de Nurkse está ou não correto só os estudiosos poderão dizer, mas, talvez, quem sabe, estejam ali as respostas para as perguntas de Clóvis Rossi, na Folha de domingo, e de todos nós.

21 de janeiro de 2011
Despertar dos remanescentes

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 20/01/2011)

Não é de hoje que se sabe, se conta, se mede e se publica que o setor público no Brasil gasta muito e gasta mal. A larga e crescente receita dos governos em geral, garantida nos últimos anos – seja pelo aumento de taxas e alíquotas, seja pela expansão da atividade econômica -, acaba camuflando uma realidade torpe que só emerge nos momentos das grandes catástrofes.

Mais de 720 mortes e mais de 13 mil desabrigados são os números dramáticos, contabilizados até a tarde de ontem da tragédia da zona serrana do Rio. Deveriam envergonhar a qualquer homem ou mulher que exerce atividade pública no país.

Não há escape. O poder executivo, qualquer que seja a esfera da administração federal (União, estados ou municípios) é culpado do crime de desperdício de dinheiro. Seus representantes deveriam agir com a preocupação de limitar ao mínimo necessário as despesas com gente que fica trançando nos gabinetes, de um lado para outro, a carregar nos braços ofícios e pareceres que não significam nada. É um gasto que pesa para todos, mas que não tem nenhuma serventia.

O poder executivo, qualquer que seja a esfera, é culpado do crime de desperdício de dinheiro

O poder legislativo não consegue enxergar o país e suas necessidades como um todo, agindo de forma paroquial, com zelo especial pelos interesses próprios e não coletivos. O poder judiciário, por sua vez, preocupado ultimamente mais com os holofotes da visibilidade pública do que com a liturgia da sobriedade inerente à função, perde credibilidade e peca pela morosidade.

Se os remanescentes da tragédia do Rio pudessem conhecer o custo do descaso com o qual foram tratados, retratado na falta de condições de moradia, na inexistência de rede apropriada de esgoto, na displicência do cuidado com áreas de risco nas encostas e no falso discurso das preocupações com a educação que se ouve repetidamente há anos, com certeza não permaneceriam calados depois da lama secar e dos escombros terem sido removidos.

Não se vai entrar aqui na questão do dinheiro público desviado sob suspeita de corrupção. Não há dados disso, muito embora a sensação geral dos brasileiros seja a de que envolva recursos à beça.

Basta dar uma olhada no Boletim Estatístico de Pessoal, nº 176, do Ministério do Planejamento, para se ter uma ideia do volume de recursos que os governos gastam com pessoal e que poderiam ter sido usados em boa parte para evitar que desastres, como o do Rio, viessem a ocorrer. Isso ajuda a dar a dimensão do descaso do setor público com o resto do país.

Depara-se ali com uma informação surpreendente. O governo do Estado do Rio de Janeiro é, há anos, disparado, o que mais gasta com pagamento de pessoal ativo e inativo da sua administração direta e indireta. Até novembro de 2010, no acumulado de 12 meses, o estado do Rio gastou R$ 18,558 bilhões com servidores de sua esfera de governo. O valor é 130% maior do que os R$ 8 bilhões que aquele estado gastava, em 2002, na mesma rubrica de pessoal. Para comparar, o estado de São Paulo, muitas vezes maior em território e muitas vezes mais habitado, despendeu de dezembro de 2009 a novembro de 2010 a quantia de R$ 7,806 bilhões com pessoal da sua administração direta e indireta.

Se os remanescentes da tragédia na serra fluminense soubessem disso, como reagiriam? Que cobranças fariam ao governo do Rio? A que valor montaria a indenização que exigiriam do poder público por terem perdido pessoas da família, a casa, o terreno, o carro, o respeito das autoridades e a própria dignidade que os transformou em dependentes da boa vontade alheia?

Quando se olha os números das despesas com pessoal na esfera federal, a realidade também grita. Juntando a administração direta e indireta, sociedades de economia mista e fundações, o total de gastos com funcionários dos poderes executivo, legislativo e judiciário, alcançou R$ 181, 807 bilhões no acumulado em doze meses, em novembro de 2010 (dos quais R$ 109,4 bilhões com ativos). Em todo o ano de 2002, o gasto total com pessoal dos três poderes somou R$ 75 bilhões, entre ativos e inativos. Ou seja, a União mais do que dobrou a despesa com seus servidores em apenas oito anos.

Há informações no relatório que são incompreensíveis, para as quais o documento não dá explicação. A mais relevante refere-se à despesa mensal contabilizada apenas no mês de novembro de 2010, indicando gasto no valor de R$ 21,413 bilhões (R$ 12,488 bilhões com gente ativa), muito acima do registrado no mês anterior, outubro de 2010, quando a despesa total com funcionários públicos do governo federal, nas três esferas, foi de R$ 14,361 bilhões. Um aumento despropositado, entre um mês e outro.

Quando se olha a série das despesas com pessoal da União, novembro de 2010 é um ponto fora da curva. E, quando nos aprofundamos nos detalhes, verifica-se para surpresa ainda maior que a relação entre despesas líquidas com pessoal nos três poderes e a receita líquida em bases correntes do governo federal atingiu, em novembro, a preocupante marca dos 50,6%, ultrapassando o limite legal. Será isto algo esporádico ou uma tendência a agravar ainda mais a quantidade de dinheiro público que se gasta sem justificativa em troca de corpos e de desalentados, como os da serra fluminense?

16 de dezembro de 2010
Inflação e meta

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 16/12/2010)

Tudo indica que a presidente eleita Dilma Rousseff terá de enfrentar o desafio do combate à inflação enquanto perseguir a prometida decisão de acabar com a pobreza absoluta no país. Ao contrário do presidente Lula, que pôde usufruir de uma larga janela de oportunidade pelas favoráveis condições econômicas externas até o final de 2008, Dilma tomará posse em 1º de janeiro com um quadro sem dúvida muito melhor do que o de janeiro de 2003, mas uma crucial diferença separa os dois janeiros.

Lá, boa parte da turbulência cambial e, consequentemente, inflacionária, foi alimentada pelo medo do que Lula e seu partido poderiam causar à economia. Vencido o temor, o país retomou o seu curso, tirando o máximo proveito da fase benévola que combinou inflação baixa e crescimento indiscriminadamente em todas as partes do globo.

Aqui, o mundo é diferente porque está hoje dividido em dois: de um lado, a estagnação dos desenvolvidos chega a contaminar quase que um continente inteiro, sem falar nos Estados Unidos, e, de outro, os “emergentes” cujo crescimento já se reflete no aumento das taxas de inflação. Ou seja, a parte do mundo onde vive a população de maior renda, ainda, que deveria estar comprando, quer vender, mas não tem muito a oferecer. A outra metade, em processo de acumulação de capital, encontra menos espaço para vender suas commodities que voltaram a subir de preço no mercado internacional pelo efeito da formação de estoques, estimulada pela política de “quantitative easing” ou frouxidão de liquidez promovida recentemente pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e que, ao que parece, pode ser repetida por Bernanke.

Internamente, esgotou-se o espaço para o real continuar acumulando apreciações face ao dólar
A política monetária americana espalha a inflação pelo mundo na tentativa de salvar a pele do próprio país, ao baratear o dólar, que só tem se sustentado diante da debilidade lastimável do euro.

Internamente, como bem colocou ontem o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, ao apresentar o book de análise estratégica da corretora, esgotou-se o espaço para o real continuar acumulando apreciações face ao dólar. Isso significa o desaparecimento do colchão cambial que ajudava a compensar boa parte dos altos preços das commodities praticados, com poucos períodos de queda, desde meados dos anos 90. Ou seja, a ajuda do câmbio para segurar a inflação será menor, enquanto que os efeitos de juros mais altos sobre a economia são difíceis de mensurar na hipótese de continuidade da política de redistribuição de renda que marcou a fase Lula no Brasil.

Deve-se esperar, portanto, o acirramento do debate em torno da meta de inflação cuja partida, aliás, foi dada recentemente pelo ministro Guido Mantega.

Se a inflação recrudescer, confirmando a expectativa generalizada dos analistas, o centro da meta de 4,5% com base no IPCA para 2011 ficaria comprometido, mas é bom lembrar que há uma folga de dois pontos de porcentagem para mais, o que coloca o teto da meta em 6,5%. Também vale recordar que a meta central deixou de ser atingida em outras vezes.

Para o bem do debate, necessário se torna esclarecer certos conceitos que têm sido distorcidos ultimamente. Primeiro, fala-se em expurgo como se isso fosse banal em regime de meta de inflação. Não é. Expurgo é a atitude que subtrai do índice de preços, de forma aleatória e informal, os preços de algum produto cuja alta esteja pesando na mensuração da inflação. O caso clássico no Brasil data dos anos 70 e ficou conhecido como a “inflação do chuchu”. Exemplo mais recente e mais chocante é a atitude do governo da Argentina de manipular os índices de preços para mascarar a inflação.

É comum no regime de meta que os países optem por uma medida de inflação subjacente (ou núcleo do índice de preços) a partir da avaliação dos preços que podem comprometer a expectativa de inflação e que independem do comportamento da demanda. Alguns excluem do índice, por exemplo, o impacto do aumento dos impostos indiretos nos preços dos bens ao consumidor. Outros descontam os juros das prestações da casa própria, como a Grã-Bretanha. A maioria atrelou ao regime de metas cláusulas de escape para situações em que desastres naturais ou choques de oferta venham a pressionar determinados preços.

Quando o regime de metas de inflação foi introduzido no Brasil – há onze anos e meio – todas as alternativas foram discutidas. Optou-se, porém, pelo sistema de meta central com margem razoável de oscilação para mais ou para menos como forma justamente de abrigar ali os impactos inesperados de preços sem que isso comprometesse a credibilidade do regime.

Alta de inflação não se resolve com a mudança de regras da meta inflacionária, mas com outros tipos de iniciativa, como a do arrocho fiscal. Quanto à estabilidade da moeda, com meta ou sem meta, vale sempre lembrar que no médio e no longo prazo inflação é basicamente um fenômeno monetário.

18 de novembro de 2010
Incompetência monetária

Por Maria Clara R. M. do Prado
(publicado no jornal Valor Econômico em 18/11/2010)

Qualquer que seja o ângulo pelo qual se analise a decisão, nenhum ajuda a redimir o Fed da incompetência monetária.

Primeiro: falha no objetivo a que se propôs de estimular a economia interna com a farta distribuição de liquidez. O motivo da inoperância da medida tem a ver com a racionalidade dos americanos que, diante de taxas de desemprego ainda muito elevadas e sem a perspectiva de que dias melhores virão no curto e médio prazos, têm se esquivado de tomar empréstimo. Os bancos, por seu lado, temerosos de micarem com credores inadimplentes, preferem manter o dinheiro em caixa. A economia, no geral, não se move e o dinheiro tende a circular menos. Não é algo que possa ser resolvido com liquidez. Há um forte elemento psicológico envolvido no cenário da recessão dos Estados Unidos. Afinal, de que serve ter dólares se não há confiança nem mesmo daqueles que têm emprego quanto ao futuro da sua renda?

Trata-se de aproveitar a crise dos parceiros desenvolvidos para criar um ambiente de maturidade econômica
O gráfico abaixo, elaborado pela Consultoria Tendências, mostra bem a nulidade daquela medida de expansão monetária. Os dados são do próprio Fed e mostram a evolução do multiplicador monetário nos Estados Unidos. Desde setembro do ano passado, o indicador tem se mantido abaixo de um, considerando a razão entre o M1 (meios de pagamento no conceito mais simples) e a base monetária, que é a emissão primária de moeda. Significa que o sistema bancário não tem sido capaz de girar os dólares em ritmo suficiente para colocar a economia em andamento.

Segundo, o dólar é a moeda mais conversível do mundo. Isso dá ao seu emissor um enorme poder de influência nos mercados de moedas em geral. Ao injetar soma altíssima de moeda no circuito bancário dos Estados Unidos, e em não havendo demanda interna para tanto dinheiro, os dólares acabam tomando outras direções. Vão ajudar a irrigar outras economias que, a rigor, não precisam de mais liquidez.

Terceiro, todo o movimento do dólar a partir da decisão do Fed tem o efeito de contribuir para as chamadas operações de “carry-over”, estimuladas pelos ganhos pelo diferencial de taxas de juros entre os Estados Unidos e os países em desenvolvimento que não conseguiram até aqui se desvincularem da rigidez monetária do passado, contribuindo assim para alimentar os problemas criados com o excesso de dólares no mercado.

Enquanto isso, os bancos europeus (em especial os alemães e belgas, mais carregados de ativos duvidosos) se afundam com as perspectivas de insolvência da dívida soberana de países como a Irlanda, Espanha, Portugal e etc…, a ponto das pessoas começarem a colocar em dúvida o futuro do euro. É mais um petardo complicado de mastigar no cenário global que não mostra sinais positivos no horizonte.

 

Isso sem falar na China, que começa a se preocupar com os efeitos da crise e que não pode de jeito nenhum passar por uma recessão do tipo da que assola os Estados Unidos. Lá, ainda há milhões de bocas para serem alimentadas, de um lado, e uma classe média que se acostumou com um padrão de vida elevado. Politicamente, para o partido comunista chinês, seria uma situação difícil de gerenciar. O sudeste asiático se mantém à mercê dos ventos que sopram na China; e, no Japão, a economia continua sem ir para frente e nem para trás.

Na América Latina, tudo parece andar dentro do esperado na medida daquilo que pode ser esperado, tendo em vista as circunstâncias.

O Brasil aflora na região como se fosse o verdadeiro pedaço do paraíso na terra, mas tende a não ficar imune aos efeitos da crise internacional. Como já se disse aqui, não há nenhum motivo no momento para maiores preocupações com o déficit em conta corrente do país, mas há sim com os efeitos que a enxurrada de dólares promovida pelo Fed poderá ter sobre a economia do país.

Não se trata apenas da valorização do real. O que está em jogo, em meio à confusão generalizada, é a capacidade do próximo governo em desenvolver uma política econômica que possa manter a estabilidade da inflação independente da política cambial e praticar juros que realmente tenham a ver com o valor aquisitivo da moeda nacional e não com a preocupação de atrair capital externo. Enfim, trata-se de aproveitar a crise dos parceiros desenvolvidos para criar um ambiente de maturidade econômica interna, enquanto há tempo.