24 de junho de 2016
Britain, old Britain

 por Maria Clara R. M. do Prado 

O surpreendente resultado do plebiscito que sacramentou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) mostra um país dividido – entre gerações, entre regiões e até por raízes históricas que ainda hoje repercutem nos ânimos dos escoceses e dos irlandeses do norte diante do maior poder dos ingleses – mas revela também importantes aspectos do comportamento das sociedades nesta era contemporânea.

Parece claro que a satisfação individual, aquilo que o cidadão comum espera em termos de segurança e prevalência de direitos associados ao solo em que nasceram e cresceram, é algo que se sobrepõe hoje à expectativa de mais emprego, melhores oportunidades e aprimoradas condições de vida. Isto tudo é muito importante e as pessoas valoram suas conquistas, mas não para todos, apenas para aqueles que efetivamente “pertencem” ao território que consideram como sua nação.

Devem ficar de fora todos os outros, ou seja, aqueles que estão deslocados de suas origens e, em território alheio, pressionam o mercado de trabalho, atrapalhando o bem-estar dos que se consideram genuínos destinatários das regalias sociais prometidas pelo Estado, além dos empregos e oportunidades oferecidos pelo setor privado.

Não é mais a economia, mas o indivíduo, estúpido!

É uma forma egoísta de olhar o mundo e a si próprio dentro do mundo, típica de comportamentos nacionalistas onde o bem público deve estar a serviço dos genuínos “nacionais”  e não dos estrangeiros que ocupam espaço geográfico, social e político que não lhes pertence legitimamente.

Aquela lógica é anterior a qualquer expectativa de melhor situação de vida oferecida a todos, em termos gerais. Portanto, o discurso econômico de mais emprego, maior crescimento, vantagens comerciais e financeiras,  já não tem o mesmo impacto que o distinguiu no mundo político a partir da segunda metade do século XX.

Isso ajuda a explicar o resultado do plebiscito britânico e o temor das autoridades dos demais países da UE que perceberam objetivamente as consequências de uma política que não contempla as aspirações dos cidadãos em sua individualidade. Não é de estranhar que o medo do aumento da imigração tenha sido um dos fatores determinantes para a vitória da saída do Reino Unido da UE e pode pesar em outros movimentos semelhantes no continente europeu. A questão não é quanto nem como a economia como um todo pode ser fortalecida, mas as chances de melhores oportunidades que têm os nacionais diante da concorrência promovida pela entrada de outros, que os britânicos costumam chamar de “aliens”, em seu território.

Outro aspecto que merece atenção é a grande distância que parece separar as autoridades constituídas da sociedade. O que os governos fazem ou falam já não têm o mesmo peso de antes. As pessoas em geral passaram a acreditar mais em suas desconfianças do que nas palavras dos políticos. Há uma descrença nas intenções do poder constituído. Neste contexto, não adianta prometer mundos e fundos porque as pessoas simplesmente não acreditam nisso, ainda que os alertas possam estar imbuídos de racionalidade e as promessas, de objetivos factíveis.

Talvez a difusão do uso da Internet, onde o indivíduo passou a ter voz com largas chances de proliferação mundo afora, ajude a entender não apenas a primazia do individualismo sobre a comunidade, mas também a sensação de banalidade atribuída aos discursos das autoridades. Até o termo autoridade, no limite, perdeu relevância.

É cedo ainda para ter a exata medida das consequências do plebiscito na vida dos indivíduos nacionais e dos “aliens” que habitam o Reino Unido. Pode ser que os ânimos se acomodem no médio prazo, mas pode ser também que desdobramentos ainda mais impactantes venham a comprometer o tamanho de um reino que chegou a ser império, o maior de todos na virada do século XIX. O descolamento da Escócia seria fatal pela relevância econômica. A integração da Irlanda do Norte à Irlanda comprometeria o prestígio político de um arranjo soberano que sobreviveu às custas de muitas guerras e perdas de milhares de vidas. Estaria a Rainha Elizabeth II viva para assistir a tudo isso?

E os 27 países que ficaram na UE, por quanto mais tempo continuarão a fazer parte do bloco? Não deve haver dúvida de que o resultado do plebiscito foi igualmente danoso para o projeto da Europa unificada. Afinal, dos três grandes eixos que a sustentavam desde o início, restam agora dois e não dá para prever se a Alemanha e a França terão força suficiente para levar adiante o projeto de Europa unida indefinidamente.

 

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