12 de março de 2015
Câmbio, juros e inflação

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 12/03/2015)

 

No atual cenário de crescentes incertezas, onde o agravamento do quadro político complica os esforços de estabilização da economia – e vice-versa, pois um reforça o outro – nada se consegue enxergar adiante, mas a ninguém é dado o direito de pelo menos não desconfiar do que está em jogo e das possíveis consequências político-institucionais que podem trazer danos para todos os brasileiros.

“Brinca-se com o fogo”, “Insufla-se o caos”, “Atiça-se o ódio”. São expressões dos moderados, em muitos casos tardias, que buscam interpretar as furiosas manifestações contra o governo e que devem atingir o ápice com a marcha prevista para o domingo próximo, dia 15. Mas os moderados parecem ser poucos. É bem provável que a mobilização tenha o efeito de fazer sangrar a Presidente Dilma Rousseff, como quer o senador do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira, sem entrar em detalhes de como pretende sustentar a maldição.

O fato é que para onde se olha, depara-se com a tônica do “quanto pior, melhor”. Às previsões dos analistas financeiros não escapa o tom de pessimismo, retratado na expectativa de inflação em torno de 7% – bem acima do núcleo da meta, que é de 4,5% medida pela variação do IPCA – e de que o déficit público, malgrado todos os esforços do Ministério da Fazenda, continue elevado, comprometendo a promessa de chegar ao superávit primário no final do ano.

De tudo, porém, o pior indicativo da perspectiva de caos é a taxa de câmbio. Por ser o preço mais sensível da economia, justamente porque embute a relação do valor da moeda nacional com as moedas fortes, notadamente o dólar norte-americano, a taxa de câmbio sempre funciona como o melhor termômetro da medida da temperatura tanto da conjuntura econômica quanto da política. Foi assim em janeiro de 1999, quando o ainda novato Real sofreu o ataque especulativo que causou um verdadeiro maremoto no Banco Central. Foi assim em 2002, quando a perspectiva da eleição de Lula levou o câmbio para a casa dos R$ 4,00 por dólar. Do mesmo modo, o câmbio dispara hoje como reflexo da insegurança política e econômica, tendo chegado ontem, à tarde, à casa dos R$ 3,1380 na cotação do comercial.

Não há dúvida de que do ponto de vista das reservas internacionais, o país está muitíssimo melhor posicionado do que estava em 2002. Naquele ano, as reservas chegavam a US$ 37,823 bilhões na posição de final de dezembro, pelo conceito caixa, que exclui do saldo as linhas de recompra e operações de empréstimo em moeda estrangeira.

Aquele valor equivalia a pouco mais de 10% do total atual de US$ 362,547 bilhões das reservas em caixa, conforme posição de 28 de fevereiro divulgada pelo FMI, muito embora deva-se ressaltar que US$ 112,756 bilhões correspondem a instrumentos financeiros de curto prazo envolvidos das operações derivativas de troca (swap) desenvolvidas com o mercado pelo Banco Central.

Não se pode negar que o BC esteja sentado sobre um volume significativo de moeda estrangeira, mas pode ser atropelado pelos elementos subjetivos da desconfiança no governo e da incerteza quanto ao futuro. É isso que tem sustentado o processo de desvalorização do Real, comprometendo o fluxo de entradas e saídas e contribuindo para engordar o caldeirão de temas ruins que alimentam o enorme ciclo vicioso no qual todos estamos metidos.

Além do fator psicológico negativo, uma desvalorização cambial profunda e acelerada, como se sabe, tem efeito inflacionário, comprometendo a política monetária e a tentativa do BC de segurar a meta de inflação. O famoso estudo elaborado em meados de 2003 dentro do próprio BC pelos economistas Ilan Goldfajn, André Minella, Paulo Springer de Freitas e Marcelo Kfoury Muinhos, com o título “Inflation Targeting in Brazil: Constructing Credibility under Exchange Rate Volatility” (“Meta de Inflação no Brasil: Construindo Credibilidade sob Volatilidade na Taxa de Câmbio”) mostra que foi alto o repasse do câmbio para os preços internos em 2002.

A desvalorização cambial naquele ano respondeu por 46% da inflação observada, quase a metade da evolução do IPCA. Nesse tipo de situação, o BC aumenta os juros para evitar que os efeitos do choque cambial se espalhem por todos os preços da economia, mas com chances reduzidas de trazer rapidamente a inflação para a meta.

Na atual conjuntura, é de se esperar que os juros continuem em alta, uma iniciativa que além de buscar a estabilidade monetária tem também o efeito de desanuviar a pressão sobre o câmbio na medida em que atrai capital estrangeiro de curto prazo para o país. Ter o faro da dosagem mais apropriada é um grande desafio para a equipe do BC.

Todo esse caldo de problemas, em conjunção com um PMDB que opera para salvar a própria pele e contribui para esgarçar a já por si complicada base aliada, com a inoperância do governo que nitidamente não sabe o que fazer diante dos acontecimentos e com o descrédito de um partido que padece dos próprios males que plantou, atesta que já se vive a crônica de uma profecia desejada.

 

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