Mundo

13 de agosto de 2015
A ousadia da Grécia

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 18/06/2015)

 

Hoje, quando estiverem sentados à mesa de reunião do Eurogrupo, em Luxemburgo, os ministros da Finanças dos países que integram a zona do euro vão debruçar-se sobre a quadratura do círculo na busca de uma alternativa que possa dar fôlego financeiro à Grécia, no curto prazo, sem comprometerem a credibilidade do programa de ajuste apregoado pelos credores.

A carga é indesejável e custosa. Não apenas pelo tamanho da dívida que a Grécia se diz impossibilitada de pagar, mas pelos custos políticos enredados na “queda de braço” travada nos últimos dias entre os principais personagens da história.

Desvencilhar-se da sinuca de bico a que foram empurrados pelo ousado primeiro-ministro grego Alexis Tsipras é o grande desafio a ser enfrentado pelos demais países do euro, sabendo que não há muito tempo a perder.

Os discursos não poderiam ser mais ríspidos. O governo grego acusa a Comissão Européia de fazer o jogo dos credores que querem acabar com a Grécia. O presidente da Comissão, Jean Claude Juncker, acha que os gregos não são sinceros. A chanceler da Alemanha prega a inflexibilidade, enquanto o FMI resolveu dar um tempo para deixar que os europeus se entendam entre si.

De imediato, quem está mesmo com a corda no pescoço é o Banco Central Europeu (BCE), que carrega em carteira uma expressiva soma de bônus gregos, originários da da compra de papéis realizada no mercado secundário para aliviar a pressão sobre os juros dos países com dificuldades, em 2010. Além disso, o BCE também trocou por liquidez papéis gregos que eram detidos por bancos privados, principalmente alemães e franceses.

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23 de maio de 2014
Para onde se move a China?

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 15/04/2014 no Valor Econômico)

 

O FMI previu na semana passada que o PIB da China deverá crescer ao redor de 7,5% este ano e de 7,3% em 2015, repetindo, portanto, nível próximo dos 7,7% de expansão registrado em 2012 e em 2013. A estas taxas de variação, a economia chinesa cresce por ano, hoje, praticamente a metade do extraordinário resultado alcançado em 2007, um ano antes da crise financeira dos “sub primes” nos Estados Unidos.

A menor evolução do PIB chinês nos últimos anos, coincidentemente ou não, tem ocorrido em paralelo às demonstrações de descontentamento da sociedade civil que podem ameaçar seriamente o poder do partido comunista. Pouco se fala no Ocidente a respeito dos movimentos populares que têm clamado por maior liberdade de opinião e de organização na China.

No entanto, eles existem e têm sido crescentes, envolvendo não apenas reclamações menores quanto ao funcionamento e à corrupção dos governos locais, nos diversos municípios – às quais o comitê central tem fechado os olhos – mas núcleos de insatisfação contra o autoritarismo do governo nas grandes cidades.

Isso, em verdade, era de se esperar em uma China mais urbanizada, com mais acesso à informação e com melhores níveis de renda.

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15 de abril de 2014
O que fazer com o Putin?

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 20/03/2014 no Valor Econômico)

Não bastasse o desgaste político para colocar de pé o chamado “Obamacare” – o programa de seguro saúde aprovado pela Lei de Proteção ao Paciente e Tratamento Acessível -, o presidente Barack Obama confronta-se com um novo e grande problema sem solução imediata à vista: o que fazer com Vladimir Putin?

Ambas as questões, em seus devidos contextos, minam a liderança do presidente dos Estados Unidos e reforçam a percepção de fragilidade do governo por parte dos americanos. Obama atravessa período difícil, sujeito a críticas de todos os lados e alvo de uma insatisfação crescente.

A propaganda contra o “Obamacare” é pesada. Ela se manifesta nas declarações dos republicanos e na maciça campanha na mídia patrocinada por associações ligadas às seguradoras privadas. O prazo de adesão ao programa, que prevê a obrigatoriedade de seguro saúde para todos os americanos, termina no final deste mês. Quem ficar de fora terá de pagar multa, mas o programa é complexo demais, inovador demais e não ganhou a confiança da população.

Alguns especialistas acham que o tempo provará os benefícios do “Obamacare” para a sociedade em geral e, em especial, para boa parte dos desassistidos, estimados em cerca de 15% da população.

O problema é que o tempo para Obama pode ser demasiado tarde. O governo está a poucas cadeiras de perder para o partido Republicano a maioria de assentos no Senado nas eleições de novembro. Isso atrapalharia a vida dos democratas, com a perspectiva de dias ainda piores para o presidente no período de dois anos de mandato que lhe resta cumprir.

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16 de agosto de 2013
O Fed e as operações compromissadas

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 15/08/2013 no Valor Econômico)

Operação compromissada é o nome que se dá às transações entre o banco central e as instituições financeiras com vistas a regular o nível mais apropriado de reservas (dinheiro em “cash”) que os bancos devem ter em caixa vis a vis o objetivo de determinada taxa de juros de curto prazo.

Tais operações se realizam por meio da compra e da venda de títulos de renda fixa – normalmente, títulos do Tesouro – com cláusulas de revenda e de recompra, respectivamente. Ou seja, funciona como uma espécie de “porta” pela qual o Banco Central injeta ou recolhe liquidez da economia, por meio do sistema bancário.

Ao contrário do que alguns acreditam, essas operações não têm a função de financiar o Tesouro e nem contribuem para ampliar o endividamento público.

A taxa de juros de curto prazo é o principal instrumento de política monetária na era do regime de meta de inflação, mas os BCs podem fazer uso do mecanismo das operações compromissadas para recolher ou injetar mais recursos no sistema financeiro por meio da compra de títulos, com o compromisso de revendê-los de volta em determinado prazo. Essas operações, que normalmente envolvem uma pequena fatia do total de liquidez em circulação, poderiam ser classificadas de instrumento secundário no gerenciamento da política monetária no dia-a-dia.

Foi a elas que o Fed (o banco central dos Estados Unidos) recorreu maciçamente depois de 2008, a partir da crise financeira, na tentativa de reverter o franco processo de retração da economia americana. Optou-se pelo “second best” da política monetária, pois o “first best”, o instrumento dos juros, já então próximo de zero, havia esgotado sua eficácia.

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17 de maio de 2013
A culpa é do Gorbatchev!

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 16/05/13 no Valor Econômico)

A imprescindibilidade do crescimento econômico para a conquista da riqueza, que reforçou as bases do sistema capitalista a partir da Segunda Guerra Mundial, tem sido questionada nos anos recentes por alguns economistas, com o argumento de que o uso dos recursos naturais teria chegado ao ponto de exaustão. O planeta Terra não aguentaria novos ciclos de expansão econômica.

A novidade não está na tese, mas no maior número de economistas que passou a aceitá-la no século XXI. Herman Daly trabalhou parte de sua vida no Banco Mundial (de 1988 a 1994) tentando convencer seus colegas da importância da preservação do meio ambiente para o crescimento econômico, sem muito sucesso.

Serge Latouche, da Universidade de Paris-Sul, desde os anos 1960 escreve sobre o assunto na condição de filósofo, cientista político e economista. Entre os vários livros e artigos, escreveu o texto “Why less should be so much more: degrowth economics” (Por que menos deveria ser muito mais: economia do decrescimento), publicado no Le Monde Diplomatique (dez/2004). O consumo excessivo é uma preocupação sempre presente nos escritos de Latouche.

Em verdade, a impossibilidade da ilimitada ambição humana ser saciada pelos bens e serviços disponíveis em um mundo que, por ser global tornou-se mais vulnerável, ganhou evidência com a crise de 2008. Dois fatos ocorridos no final do século XX podem ajudar no entendimento do quadro.

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22 de abril de 2013
Crescimento com maior equidade: hasta cuando?

por Maria Clara R. M. do Prado

Com os preços das commodities evoluindo mais moderadamente, no contexto de taxas ainda baixas de crescimento no países de economia mais avançada e também naqueles considerados “emergentes”, em especial a China, alguns analistas começam a prever taxas menores do PIB para os países da América Latina. Uma nova fase, de menor crescimento, estaria a caminho e o Brasil seria um dos mais afetados.

A pergunta que deve ser colocada, supondo a configuração de um cenário de menor prosperidade nos anos vindouros, é a seguinte: o que vai acontecer com a pujante classe média que nos últimos quinze anos foi significativamente ampliada em praticamente todos os países latino americanos? Tende a encolher? E a pobreza? Voltará aos níveis anteriores?

É cedo, por enquanto, para se saber a que ritmo, e se a menor, evoluirá o PIB na região. Vai depender de muitas variáveis. Primeiro, da movimentação do capital estrangeiro originário da abundante emissão de moedas fortes que tem alimentado a expansão das economias mais periféricas. Isso depende, obviamente, da percepção de uma retomada mais consistente e robusta nos Estados Unidos e na Europa, em especial. Segundo, do desempenho daqui para frente das contas públicas nos países latino-americanos face à nova realidade de menor ingresso líquido de divisas estrangeiras pela via da conta-corrente.

A julgar pelo que se pode enxergar hoje, é possível imaginar que, apesar de tender a um crescimento menor, a região não estaria sujeita a um retrocesso social e econômico para os deploráveis níveis das décadas de 80 (a região encolheu, em média, 0,2%) e de 90 (quando a expansão média do PIB não passou de 1,2%).

D e todo modo, são inegáveis os benefícios do inédito período de bonança que se espalhou pela América-Latina nestes primeiros anos do século XXI. Para sempre ficará registrado na história como a época em que os pobres viraram classe média, caracterizando-se como o período em que conseguiu-se conjugar o crescimento econômico com maior equidade.

O quadro abaixo, extraído de um longo estudo publicado recentemente pelo Banco Mundial,  mostra o que aconteceu na região, país por país, em termos de mobilidade social, com destaque para a significativa parcela dos que melhoraram de condição sócio-econômica.

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15 de abril de 2013
Thatcher universalizou os britânicos

por Maria Clara R. M. do Prado

A morte da ex-Primeira-Ministra Margaret Thatcher suscita enorme repercussão e não sem razão. Polêmica, há quem a ame e quem a odeie na Grã-Bretanha, país que ela governou ao longo de onze anos seguidos e no qual introduziu enorme transformação.

A economia britânica, como se sabe, ganhou impulso a partir das reformas que tiveram como ponto forte a privatização das emblemáticas empresas estatais – incluídas na lista a Rolls Royce e a Jaguar – que funcionavam como cabides de emprego, por um lado, e, de outro, como verdadeiros pólos de reforço ao poder dos sindicatos dos trabalhadores.

Quem teve a oportunidade de viver na Inglaterra antes e depois de Thatcher, conhece muito bem as mudanças pelas quais o país passou na década de 80 do século XX. Antes, as greves eram assunto corriqueiro: de ambulâncias, de ferroviários, de carvoeiros, de professores, “you name it!”. Havia dias em que era impossível sair de casa. Não havia ônibus, nem trens. As escolas primárias e secundárias, fechadas. Naquela segunda metade dos anos 70, as greves eram praticamente diárias e o país mantinha-se paralisado em meio a discussões políticas que o Partido dos Trabalhadores fazia reverberar no Parlamento, sob a liderança de James Callaghan.

Na era Thatcher, o mantra mudou e os conservadores passaram a culpar a incapacidade do socialismo de gerar oportunidades e riqueza. No vídeo abaixo, prestes a deixar o governo, no final de 1990, a Primeira-Ministra argumenta no Parlamento com a oposição que a culpava por ter ampliado a diferença entre pobres e ricos no país:

http://www.youtube.com/watch?feature=playerembedded&v=okHGCz6xxiw

 

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21 de março de 2013
Desastrada proposta da UE

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 21/03/2013 no Valor Econômico)

De tudo o que se viu até aqui desde o aprofundamento da crise na zona do euro, com o potencial default da Grécia – lá se vão três anos – nada é tão dramático e tão bombástico quanto a desastrada solução arquitetada pela cúpula da União Europeia, com o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), para Chipre.

Desastrada, em princípio, pelo inusitado precedente do confisco sobre os depósitos bancários dos cipriotas. Por qualquer lado que se analise, a proposta europeia não tem pé e nem cabeça porque, ao contrário do que aconteceu com o cruzeiro no Plano Collor e com o peso argentino na época do “corralito”, o confisco sugerido como se fora uma “contribuição” da sociedade local na solução dos problemas financeiros dos bancos e do governo jamais ficaria limitado, em suas consequências, às fronteiras de Chipre. O euro é uma moeda única para toda a zona europeia que optou por aderir ao modelo da unificação monetária.

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27 de fevereiro de 2013
A indústria ainda é importante?

Maria Clara R. M. do Prado

A questão em debate hoje, no Brasil e no mundo, sobre a capacidade do setor industrial em absorver mão de obra merece uma reflexão mais aprofundada. Afinal, qual o perfil e a função da industria nesta segunda década do século XXI? A crise de 2008, ainda com seus tentáculos em operação, terá aprofundado a tendência à especialização no setor produtivo?

Terá a crise contribuído para crivar uma divisão no processo econômico mundial, colocando, de um lado, os centros capazes de produzir com eficiência e alta produtividade, e, de outro, os centros de consumo, grandes compradores finais dos bens e serviços gerados nas economias de maior avanço tecnológico? Afinal, a indústria ainda é importante?

Todas são perguntas que estão na ordem do dia, muito embora versem sobre tema de difícil entendimento dado o processo ainda em curso de uma profunda fase de transição. Uma radiografa do que se passa hoje com o setor industrial no mundo pode ser captada no estudo elaborado pelo Mckinsey Global Institute.

Trata-se do trabalho “Manufacturing the Future: the Next Era of Global Growth and Innovation”. O cenário atual, colhido pelo Mckinsey, já dá uma boa idéia do grau de mudanças que têm assolapado modos e formas no sistema de produção e as conseqüências desses avanços. Alguns dados, aqui resumidos, atestam isso:

. 16% é a fatia do setor industrial na formação mundial do PIB

. Nas economias mais avançadas a quantidade de empregos gerada no setor industrial caiu de 62 milhões, em 2000, para 45 milhões em 2010. A queda é maior no segmento de uso mais intensivo de mão de obra, como a industria têxtil (ver gráfico abaixo).

A demanda global está hoje concentrada nos países menos desenvolvidos. A China dobrou a renda per capita de um bilhão de pessoas nos últimos doze anos, algo que a revolução industrial na Inglaterra levou 150 anos para conseguir, atingindo apenas nove milhões de pessoas.

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6 de fevereiro de 2013
A tese de Holland faz sentido

Maria Clara R. M. do Prado

O presidente da França, François Holland, colocou o dedo na ferida ao reivindicar na terça-feira, para desgosto dos alemães, uma política cambial menos flexível para o euro. Sem mencionar especificamente uma taxa de câmbio fixa ou a introdução de uma faixa de taxas , com piso e teto, para limitar a significativa valorização do euro nos últimos doze meses, Holland abriu uma celeuma que promete muita discussão pela frente.

Nesta quinta-feira, com a reunião do BCE (Banco Central Europeu), espera-se que Mario Draghi se pronuncie sobre o assunto, muito embora seja limitado o escopo de que dispõe para qualquer decisão e ação na política cambial da zona do euro.

O problema levantado por Holland, pressionado, obviamente, pelos dados mais desconfortáveis da economia francesa, está longe de ser trivial. A extrema valorização do euro tem, como se sabe, efeito danoso sobre a recuperação econômica dos países que já sofrem de paralisia, com altas taxas de desemprego e aumento de impostos, tendo de sobreviver de dinheiro emprestado pelo FMI e pelos fundos europeus.

O euro tem rodado em torno de US$ 1,35 (foi a US$ 1,37 na semana passada) e alguns operadores acham que pode chegar a US$ 1,45.

Seria realmente um desastre para a recuperação econômica de países como a Espanha (que, com 60% dos jovens até 25 anos desempregados, vê-se agora às voltas com o “mensalão espanhol” e os respingos sobre o primeiro-ministro Rajoy), a Itália (que, além da queda do PIB, tem diante de si uma grande incógnita política) e a França, que tem padecido de aumento nos custos de produção, um fato que não combina com moeda valorizada. [ leia mais ]