22 de abril de 2013
Crescimento com maior equidade: hasta cuando?

por Maria Clara R. M. do Prado

Com os preços das commodities evoluindo mais moderadamente, no contexto de taxas ainda baixas de crescimento no países de economia mais avançada e também naqueles considerados “emergentes”, em especial a China, alguns analistas começam a prever taxas menores do PIB para os países da América Latina. Uma nova fase, de menor crescimento, estaria a caminho e o Brasil seria um dos mais afetados.

A pergunta que deve ser colocada, supondo a configuração de um cenário de menor prosperidade nos anos vindouros, é a seguinte: o que vai acontecer com a pujante classe média que nos últimos quinze anos foi significativamente ampliada em praticamente todos os países latino americanos? Tende a encolher? E a pobreza? Voltará aos níveis anteriores?

É cedo, por enquanto, para se saber a que ritmo, e se a menor, evoluirá o PIB na região. Vai depender de muitas variáveis. Primeiro, da movimentação do capital estrangeiro originário da abundante emissão de moedas fortes que tem alimentado a expansão das economias mais periféricas. Isso depende, obviamente, da percepção de uma retomada mais consistente e robusta nos Estados Unidos e na Europa, em especial. Segundo, do desempenho daqui para frente das contas públicas nos países latino-americanos face à nova realidade de menor ingresso líquido de divisas estrangeiras pela via da conta-corrente.

A julgar pelo que se pode enxergar hoje, é possível imaginar que, apesar de tender a um crescimento menor, a região não estaria sujeita a um retrocesso social e econômico para os deploráveis níveis das décadas de 80 (a região encolheu, em média, 0,2%) e de 90 (quando a expansão média do PIB não passou de 1,2%).

D e todo modo, são inegáveis os benefícios do inédito período de bonança que se espalhou pela América-Latina nestes primeiros anos do século XXI. Para sempre ficará registrado na história como a época em que os pobres viraram classe média, caracterizando-se como o período em que conseguiu-se conjugar o crescimento econômico com maior equidade.

O quadro abaixo, extraído de um longo estudo publicado recentemente pelo Banco Mundial,  mostra o que aconteceu na região, país por país, em termos de mobilidade social, com destaque para a significativa parcela dos que melhoraram de condição sócio-econômica.

O gráfico do Banco Mundial contém relevantes informações.  A mais auspiciosa, sem dúvida, é a larga fatia (em cor amarela) da população dos países pesquisados que subiu de classe social. Como se vê, o Brasil, ao lado do Chile, da Costa Rica e da Colômbia, foi um dos que mais vivenciou a mobilidade social, para melhor. O índice Gini brasileiro caiu cinco pontos entre 2000 e 2010, indicando que o pais conseguiu reduzir a desigualdade de renda entre os mais ricos e mais pobres com expansão do PIB.

Mas há os que conseguiram ampliar a fatia dos mais pobres social e economicamente, a despeito da fase de bonança que puxou para cima a região, em geral. Os “patinhos feios” são a Venmezuela, o Paraguai e a Republica Dominicana, sendo que também parcelas da população (embora pequenas) do México e da Argentina se moveram para classe inferior nos últimos anos.

O estudo, sob o título “Economic Mobility and the Rise of the Latin American Middle Class”, indica que a classe média latino americana (classificada como grupo cuja renda per capita da população, por dia, em termos de PPP –  paridade de poder de compra – situa-se na faixa entre US$ 10 e US$ 50) cresceu substancialmente do total de 103 milhões de pessoas registradas em 2003 para 152 milhões de pessoas em 2009. Um aumento, portanto, de 50%.

Também se estima que pelo menos 40% das famílias da região mudaram para uma classe socioeconômica mais alta entre 1995 e 2010, denotando significativa mobilidade entre gerações.

Já a população considerada pobre, com renda per capita diária abaixo de US$ 4 PPP, teve a participação no total da região reduzida de 44% para 30%. No outro extremo, a alta classe média, com renda per capita, por dia, de mais de US$ 50 em termos de PPP, absorve apenas 2% dp total da população. Isso mostra que apesar de todos os avanços, a renda na América Latina permanece concentrada e com distribuição ainda muito desigual.

A continuar no mesmo ritmo, a tendência seria de maior aprofundamento na melhoria social das classes de renda mais baixa e consequente redução da distância que separa os ricos dos pobres. Porém, há um aspecto que preocupa. Entre a classe considerada pobre pelos padrões de renda do Banco Mundial e a alargada classe média existe um grupo expressivo de pessoas que emergiu mas que ainda não pode ser considerada como suficientemente estabilizada em termos das conquistas sociais e econômicas para ser classificada de classe média pelos pesquisadores.

São os chamados “vulneráveis” ou classe sanduiche. São pessoas que sairam da pobreza mas ainda não garantiram o “passaporte” para a classe média. Foram chamados de vulneráveis porque podem, a qualquer momento, voltar para a classe pobre. Nesta faixa dos intermediários, digamos assim, enquadra-se a maior fatia da população da América Latina, segundo o estudo do Banco Mundial, com renda per capita, diária, que oscila entre US$ 4 e US$ 10.

Ali mora o maior perigo para um eventual retrocesso dos avanços sociais observados na região, nos últimos dez a quinze anos. Se os  “vulneráveis” não conseguirem se estabilizar na classe média podem voltar para a pobreza. Muito dependerá da taxa de crescimento dos países que, de acordo com o Banco Mundial, tem uma relação positiva com a melhoria da renda da população.

Fica, por enquanto, o registro relevante da profunda mobilidade social que se espalhou pela região nos últimos quinze anos: de cada 100 latino americanos, 43 mudaram de status econômico no período e a esmagadora maiora, para melhor. De cada grupo de 43 pessoas que se moveram entre classes, apenas duas pessoas pioraram, caindo na pobreza ou saindo da classe média. O estudo do Banco Mundial é amplo e busca associar a educação e outros fatores como causas que também contribuiram para o aumento da classe média na América Latina.

Os interessados podem acessar o trabalho, na íntegra, através do endereço:  https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/11858/9780821396346.pdf?sequence=5

 

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