8 de janeiro de 2013
Diálogo tenebroso na Fonte da Saudade

Maria Clara R. M do Prado

Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, rua Fonte da Saudade, segunda-feira, dia 07 de janeiro, 21hs, mal o ano de 2013 começa e o seguinte diálogo prenuncia a gravidade de um problema recorrente:

– Alô.

– Oi, Lu, sou eu, a Bia.

– Oi, Bia, tudo bem? Não posso falar agora porque estou de mudança temporária para a casa do meu avô, que mora aqui do lado.

– O que aconteceu?

– É que pela vigééésima vez este ano, ou quase isso, estamos sem luz em casa, isto é, falta energia nos quartos, e com esse calor que beira os 40 graus, é humanamente impossível dormir sem ar-condicionado.

– Você disse, nos quartos?

– É, porque temos energia na cozinha. Na casa do meu avô, a poucos metros daqui, há luz nos quartos, mas falta energia nos demais cômodos, estranho, muito estranho, para dizer o mínimo.

– É bem estranho mesmo, amiga. Tá, depois falamos com mais calma. Aqui onde eu moro, temos luz hoje, mas ontem tivemos falta de energia por umas três horas. Boa sorte. Beijão.

– Beijo, amanhã te ligo.

O teor da conversa reproduzia acima dá o que pensar. Por que cargas d’água uma residência há de ter energia apenas em alguns cômodos? Que tipo de estrutura de distribuição está instalado na rua Fonte da Saudade e nas adjacências que possa explicar o motivo pelo qual, de repente, sem nunca ter ocorrido antes, casas e apartamentos passaram a ser abastecidos de energia em partes, aos pedaços, como se fossem unidades partidas. Seria esta uma nova modalidade de abastecimento? A conta de luz também será  apresentada em partes, uma parte para cada cômodo que tenha sido abastecido de energia?

Por esdrúxulo, até parece que tudo não passa de um conto, de uma historinha, mas o dramático é que o fato narrado na conversa acima ocorreu, de fato. Não é um caso isolado. Muitas localidades do país têm passado por quedas temporárias de energia nas últimas semanas e a cidade do Rio de Janeiro parece ser o exemplo mais grave! Do Recreio dos Bandeirantes ao subúrbio e à zona sul , situações de “black-out” têm se acumulado, apontando para o risco de um grande apagão a qualquer momento.

As autoridades governamentais atribuem os picos de falta de energia à estiagem. Não tem chovido nas cabeças dos principais rios que abastecem as usinas hidrelétricas. Alguns especialistas não governamentais concordam que a falta de chuva pode ser responsabilizada pelos problemas de abastecimento de energia no curto prazo, mas não param aí. Houve negligência do governo em traçar e gerir um programa de energia para o país que contemplasse o médio e o longo prazos, considerando o impacto que a ascensão de 40 milhões de pessoas das classes D e E para a classe C naturalmente provocaria sobre o consumo.

Com a nova classe média, cresceu o uso de eletrodomésticos, de computadores, de aparelhos de som e de TV, e de toda a sorte de serviços que implica maior uso de energia.

Se isso já acontece com um PIB que se expande à base de apenas 1% ao ano, pode-se em imaginar  o que não se passaria com um PIB correndo à velocidade maior! Crescer é bom, faz bem a todos, mas não é algo que aconteça sem maiores consequências. Para que o crescimento seja bem usufruído, por todas as classes de forma igual e com proveito pleno, é preciso que a economia esteja preparada e com capacidade ampliada em termos de oferta de energia. Isso é o básico do básico!

 

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