24 de janeiro de 2014
Dicotomias brasileiras

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 23/01/2014 no Valor Econômico)

 

A dicotomia tem imperado no Brasil. Seja no campo das expectativas, seja no mundo real dos fatos econômicos.

As expectativas ajudam a moldar o futuro mais imediato e de médio prazo. Começaram a ganhar maior relevância a partir dos anos 60 da década passada, quando os economistas “descobriram” o papel das expectativas racionais no desempenho dos modelos e das políticas econômicas.

Aquilo que as pessoas acreditam que possa acontecer, acaba de alguma forma acontecendo porque a maioria passa a se comportar a partir da expectativa predominante. O relatório Focus, por meio do qual o Banco Central busca levantar as projeções dos representantes do sistema financeiro para o comportamento das principais variáveis econômicas, nada mais é do que uma prova da importância das expectativas para a condução da política econômica.

Sua melhor utilidade ocorre quando o governo consegue guiar as expectativas de modo a que convirjam para os objetivos desejados. Sua pior utilidade é quando as expectativas passam a guiar a economia de modo a comprometer os objetivos desejados pelo governo.

A última alternativa tem prevalecido. Se não, que outra interpretação se poderia dar à reação do mercado, manifestada no boletim Focus e em análises avulsas, que mantiveram as projeções de inflação em alta mesmo depois de o BC ter aumentado para 10,5% a Selic, a taxa de juros de curto prazo? Note-se que o acréscimo de 0,5 ponto percentual veio bem acima daquilo que o próprio mercado esperava. O impacto nas expectativas, no entanto, foi pequeno.

Continua-se trabalhando com a hipótese de que os juros não vão subir muito mais porque a presidente não quer, e de que a inflação, por isso mesmo, permanecerá ascendente.

Uma grave dicotomia reina no campo das expectativas: aquilo que o mercado deveria racionalmente esperar que acontecesse, ou seja, novos e substanciais aumentos da Selic para derrubar a inflação em pelo menos um ponto, não é esperado que aconteça. O BC é refém disso. Corre o risco de ficar enxugando gelo, a um custo elevado para parcos resultados. Só terá condições de romper com o impasse se usar de coragem para elevar substancialmente os juros e sinalizar claramente que pretende reverter a tendência de alta dos preços.

Aliás, a esta altura é possível que só a presidente consiga recolocar as expectativas nos eixos.

No mundo real dos acontecimentos, a dicotomia mais aparente tem sido apontada por renomados economistas desde 2012: a convivência de baixas taxas de desemprego com moderado ritmo do PIB, em especial do produto industrial. Um estudo divulgado por dois economistas do Banco Central em dezembro passado – www.bit.ly/1hM8kvz – procura desvendar o mistério.

“Um Conto de três Hiatos: Desemprego, Utilização da Capacidade Instalada da Indústria e Produto”, escrito por Sergio Afonso Lago Alves e por Arnildo da Silva Correa, do departamento de pesquisa do BC, propõe que se trabalhe com duas curvas de Phillips (desenvolvida pelo neozelandês Willian Phillips, relaciona inflação à taxa de desemprego).

Uma curva de Phillips foi aplicada ao setor industrial, usando a inflação dos produtos comercializáveis (bens que podem ser exportados e importados). Já a inflação dos produtos não-comercializáveis (serviços de modo geral) serviu de proxy para a curva de Phillips aplicada ao setor não industrial. O estudo cobriu o período de 1999 a 2012.

Eles usaram em cada equação o fator em que o setor é mais intensivo: no setor não industrial, a variável de demanda relevante é o hiato do desemprego com relação ao Nairu (sigla para non-accelerating inflation rate of unemployment ou desemprego não acelerador da taxa de inflação).

No setor industrial, usou-se como variável relevante para medir a inflação dos bens comercializáveis o hiato da utilização da capacidade industrial com relação a Naicu (non-accelerating inflation rate of capacity utilization ou capacidade de utilização não aceleradora da taxa de inflação).

Concluíram que maiores níveis de emprego afetaram diretamente a inflação de bens não comercializáveis (serviços, em geral), mas também funcionaram como fonte de pressão direta sobre a inflação dos bens comercializáveis. Somou-se a isso a baixa utilização da capacidade instalada do setor industrial. Para os autores, a conclusão contesta outros estudos que apontam para uma relação fraca entre desemprego e inflação no Brasil.

Essas dicotomias do mundo real são relativamente novas na realidade econômica do país nos últimos anos e precisam ser mais estudadas. Os autores não mencionam o papel da taxa de câmbio no processo inflacionário recente, seja pela influência direta nos preços, seja indiretamente, pelo efeito sobre o produto industrial, para mais ou para menos.

A relação de uma variável com outras nem sempre pode ser facilmente observada, mas novas e relevantes questões começam a se impor. Por exemplo, que efeito uma desaceleração do emprego pode ter sobre a inflação? E como isso influenciaria as expectativas? Dicotomias atrapalham o entendimento dos fatos e embaralham as percepções. Precisam ser enfrentadas.

 

Os comentários estão fechados.