10 de novembro de 2016
EUA favorecem nova dinastia

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 10/11/2016 no Valor Económico)

 

Apesar da controversa retórica contra o islamismo, os mexicanos, a OTAN e os acordos comerciais, entre outras polêmicas, a vitória de Donald Trump não chegou a causar maiores danos no mercado financeiro.

Agitado no início do dia – com exceção da bolsa de Moscou, cujos preços amanheceram ontem em alta – o mercado acabou por acomodar-se rapidamente à realidade eleitoral que, por maioria do número de delegados, optou por defenestrar do poder o clã dos Clinton em favor do que poderá se transformar na consolidação de uma nova dinastia na história presidencial dos Estados Unidos. No discurso que proferiu tão logo confirmado o resultado, Trump não deixou dúvida sobre a pretensão de permanecer oito anos no poder.

Aquela indicação talvez seja uma garantia de que não haverá muita maluquice pela frente durante a administração do próximo governo. Se pretende ser reeleito dentro de quatro anos, Trump terá de agir de modo a não confrontar o status quo institucional – no qual o próprio partido republicano é parte relevante, além do poder judiciário, do FBI, da CIA, enfim…- ao mesmo tempo em que buscará cumprir com as promessas de crescimento, de geração de empregos e de prosperidade em prol de uma América “great again”, grande novamente, de acordo com o slogan da campanha.

Ainda é muito cedo para se vislumbrar o formato das políticas e inclinações do governo a partir de janeiro de 2017. É preciso esperar, primeiro, a definição dos nomes que vão compor os postos chaves da administração. E, tão importante quanto, prestar atenção aos compromissos que Trump estará disposto a assumir, tanto internamente quanto no exterior, já agora como futuro presidente.

Tudo indica que o sistema de saúde implantado na atual administração, conhecido como Obamacare, passará por mudanças. Foi um dos temas mais mencionados nas promessas de campanha.

Questão importante a ser monitorada pelos mercados, a continuidade da independência do FED – o banco central dos Estados Unidos – é um ponto de interrogação a ser esclarecido. Do mesmo modo, há dúvidas sobre os desdobramentos políticos relacionados ao curso das investigações dos badalados e-mails trocados por Hillary Clinton, enquanto Secretária de Estado do primeiro governo Obama, além das relações institucionais e empresariais da Fundação Clinton, do ex-presidente Bill Clinton.

Objetivamente, é grande o desconhecimento sobre o futuro dos Estados Unidos sob a tutela de um presidente eleito com perfil populista, cuja ascensão à presidência se encaixa na tendência mundial que tem favorecido o protecionismo e posicionamentos políticos de direita. De certeza, pode-se dizer que a vitória de Trump é um duro golpe no liberalismo que abriu o mundo à globalização e uma derrota do sistema político enraizado em Washington desde os anos Reagan.

A incerteza que isso traz é tão grande que chegou a cegar os institutos de pesquisa de opinião, os analistas e a mídia em geral nos prognósticos pré-eleitorais, prevalecendo as expectativas ilusórias, ou seja, baseadas naquilo que era mais conveniente imaginar do que em evidências e na realidade.

Não há outra forma de entender a discrepante diferença entre as projeções eleitorais das vésperas do pleito e os resultados finais. Erraram, grosseiramente, as pesquisas e a mídia ao apresentarem Hillary com vantagens que variavam de dois a seis pontos sobre Trump. Apenas a pesquisa IBD/TIPP – realizada em conjunto pelo Investor’s Business Daily e a Technometrica Market Intelligence -, entre as mais relevantes, previu a vitória de Trump por dois pontos.

Outro aspecto que merece reflexão é o papel da mídia durante a campanha. Parece cada vez mais claro – não apenas a eleição de Trump, mas também a vitória do Brexit, no Reino Unido são exemplos a considerar – a menor influência que a mídia institucional (jornais, revistas, rádio e tv) passou a ter na formação da opinião do eleitorado.

Ganham terreno as plataformas disseminadas via Internet. Por serem difusas, essas formas de comunicação não conseguem magnificar tendências, o que torna difícil a captação de prognósticos mais realistas. Esse é um ponto a ser levado em conta, cada vez com mais relevância.

Ao fim e ao cabo, ficou evidente que os vários cantores pops e artistas agregados na campanha não foram suficientes para assegurar a vitória de Hillary.  As presenças constantes de Obama e de Michele não conseguiram garantir os votos necessários à candidata democrata nos estados de Mississippi, Alabama, Georgia e Louisiana, históricos redutos da população negra no país.

E nem mesmo se verificou a grande importância do voto dos latinos, apregoado como o grupo que derrotaria Trump na Flórida. Quando se passa um pente fino nos resultados, vê-se logo que os prognósticos apontaram para uma realidade distante da realidade. Uma outra abordagem impõe-se aos processos de pesquisa de opinião.

Nesta fase de transição entre o fim do governo Obama e o início do governo Trump, há muito ainda por acontecer. O mundo continuará com a respiração em suspenso até que efetivamente sejam definidas as políticas da nova administração. O governo do Irã, por exemplo, é um dos que está de sentinela.

 

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