12 de janeiro de 2017
EUA retomam hegemonia no mundo

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Económico em 12/01/2017)

 

A economia mundial vai colher em 2017 o que foi plantado em 2016. Muitas e substanciais mudanças políticas ocorridas no ano passado terão consequências a partir deste janeiro, com o ponto de inflexão substanciado pela posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia 20.

Não se trata de alterações pontuais em políticas específicas, mas de um profundo movimento na direção oposta da ideologia econômica baseada no “laissez-faire” que dominou o mundo desde a liderança da dupla Reagan/Thatcher. Políticas liberais, não intervencionistas, passaram a prevalecer nos anos 80, abrindo espaço para que o mercado, no seu sentido mais largo, e não mais o Estado, definisse  as decisões de alocação dos investimentos e financiamentos.

Trinta e cinco anos depois, o que se está prestes a vivenciar é o retorno ao paradigma do intervencionismo estatal, algo que não é novo na história da humanidade, mas que, tudo indica, volta a prevalecer sob a ótica particular de um personagem alheio aos meandros do sistema político, embora sendo ele próprio um empresário.

Os detalhes das mudanças na política econômica, reveladas até aqui superficialmente pelo presidente eleito, não foram abordados na entrevista coletiva que ele concedeu ontem (na quarta-feira) para a mídia americana e estrangeira. Boa parte da conferência de imprensa foi dominada pelas perguntas sobre a participação dos russos na invasão dos computadores usados na campanha do partido democrático, por iniciativa dos jornalistas.

Outra parte, por iniciativa de Trump, foi ocupada por ampla explicação e detalhamento das medidas adotadas juridicamente pelo presidente eleito no que diz respeito à questão do conflito entre os interesses de suas empresas e os interesses da sociedade americana.

Mas Trump reafirmou ali alguns dos compromissos que tem anunciado com relação às medidas econômicas voltadas para privilegiar as empresas automobilísticas, a indústria química, a indústria aeronáutica – insistiu na redução de custos do programa de produção do avião F-34 – e de outros setores, desde que optem por produzirem dentro do território nacional.

“Eu não me importo que as empresas se movimentem entre os diversos estados (federativos) desde que seja dentro das fronteiras dos Estados Unidos”, disse Trump na conferência de imprensa de ontem, indicando que uma alta taxa será cobrada sobre as empresas americanas que deixarem o país para produzirem em outros territórios.

Aquele direcionamento da alocação geográfica do capital americano irá produzir, nos seus cálculos, postos de trabalho de grande magnitude, capazes de absorver os 95 milhões de pessoas que, segundo ele, estão à espera de emprego. Em outras ocasiões, ele prometeu redução substancial da tributação para as atividades empresariais em geral.

Isso é intervencionismo no seu estado mais puro. O governo escolhe os agentes econômicos que pretende privilegiar na crença de que está melhor preparado para zelar pelos interesses do país, direcionando investimentos e incentivos, mais ou menos o que tem acontecido no Brasil desde que o BNDES foi criado.

No campo do comércio externo, Trump insistiu que os acordos serão realizados pontualmente, parceiro por parceiro, levando em conta os interesses dos Estados Unidos. Não está claro se, no contexto, será formalizado um incremento na taxação das importações “indesejadas”.

O que sim, parece certo, é que a mudança de rumo preconizada por Trump já começou a fazer efeito nas expectativas quanto ao crescimento da economia dos Estados Unidos, haja vista a série de prognósticos divulgados para este ano e o ano que vem, com taxas anuais de expansão acima dos 2%. Pode ser que passe bem disso se a onda de otimismo se firmar e se as pessoas começarem a perceber que tudo caminha de fato para uma América que voltará a “ser grande novamente”.

O movimento de valorização do mercado de ações nos Estados Unidos desde a eleição de Trump e o processo de apreciação do dólar norte-americano são elementos indicativos de otimismo. A expectativa de crescimento entrou nas avaliações do Fed – o banco central americano.

Em sua última reunião, em dezembro, o Fed elevou a taxa básica de juros dos empréstimos interbancários de 0,5% para 0,75% e anunciou que outras elevações serão definidas ao longo de 2017.

De fato, o crescimento mais acelerado tende a impactar a inflação pelo menos até que a reestruturação da indústria, conforme imaginada por Trump, esteja efetivamente funcionando, com a pretendida geração de novos empregos, além dos prometidos investimentos em infra-estrutura.

Os juros em alta seriam compensados, no balanço das empresas, pelos incentivos fiscais e abatimento na taxação tributária que o presidente eleito tem advogado para estimular o crescimento interno.

No mercado financeiro, juros elevados tornam os bônus do Tesouro norte-americano mais atrativos, forçando os demais países a também contemplar os juros como forma de não sofrer grandes perdas nas inversões em seus ativos de renda fixa.

Em resumo, seja através do investimento direto, seja através do investimento via mercado financeiro, parece que o cenário está sendo preparado para direcionar aos Estados Unidos o capital que tem rodado pelo mundo nos últimos anos, desde a crise de 2008, com pouso meio indefinido.

Quanto ao resto do mundo, cada um que se cuide e atue de forma inteligente para tirar algum proveito deste novo processo de retomada norte-americano que, obviamente, não deve durar para sempre. No longo prazo, chegará a conta do setor público para a sociedade pagar. Mas, até lá, tudo aponta para que os Estados Unidos voltem a ser o centro econômico do mundo.

 

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