18 de abril de 2013
Expectativas à deriva

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 18/04/2013 no Valor Econômico)

 

Afinal, qual é o nível da taxa de juros básica, a Selic, em termos reais,  necessário para abater as previsões da inflação futura e, ao mesmo tempo,  satisfazer a orientação do governo no sentido de que é prioritário manter a  economia em crescimento?

A questão, de difícil solução, pairava no ar, ontem, enquanto o país  aguardava pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre o que fazer  com a taxa Selic.

E não por acaso. Quanto mais alta for a inflação esperada, menores tendem a  ser os juros reais projetados, com repercussão na poupança e no consumo, e, por  conseguinte, nos preços.

A manutenção da Selic nominal em 7,25% ao ano, supondo uma inflação (pelo  IPCA) consensualmente estimada hoje, em média, em torno de 5,8% na ponta de  dezembro, implicaria em juro real básico na faixa de 1,37% ao ano.

A alta da Selic nominal para 7,50%, dada a mesma projeção do IPCA para o ano,  representa taxa real ao redor de 1,6% ao ano. Já uma Selic um pouco mais  elevada, na faixa de 7,75% ao ano, garante uma taxa real em torno de 1,85% ao  ano.

Tudo depende das expectativas com relação ao comportamento dos preços no  curto e no médio prazos.

O cenário de “incertezas remanescentes”, recorrentemente lembrado pelo Banco  Central ao se referir à estagnação que ainda acomete o mundo desenvolvido,  continua na mira. Somou-se a essa percepção, nas últimas semanas, a palavra  “cautela”, referida pelo presidente Alexandre Tombini, com interpretações dúbias  no mercado: uns acharam que tinha a ver com uma cautela para evitar uma  precipitação com a alta da Selic agora, na crença de que os preços tendem a cair  nos próximos meses, enquanto outros confiaram em uma cautela na direção oposta,  no sentido de que seria preciso agir agora para evitar um recrudescimento maior  da inflação.

Confuso? Sem dúvida! Tudo porque o governo, incluindo o Banco Central,  esmerou-se em passar sinais contraditórios sobre a condução da política  monetária, deixando à deriva as expectativas do mercado, dos empresários, dos  analistas, enfim…

Sintomática foi a “guinada” de boa parte dos analistas das instituições  financeiras esta semana, às vésperas da reunião do Copom, alterando suas  previsões de manutenção da Selic em 7,25% para um aumento da taxa. Em cima da  hora, poucos foram os que ousaram cravar um novo percentual.

Em meados de fevereiro, no rastro do anúncio de um IPCA de 0,86% referente a  janeiro, o mercado entrou em polvorosa. Os juros subiram no mercado futuro e  especulou-se que uma apreciação do real face ao dólar voltaria a ser um  instrumento de controle da inflação. Em Moscou, onde estava, o ministro da  Fazenda, Guido Mantega, descartou o uso do câmbio e disse que a inflação seria  combatida com os juros. Passou-se então a trabalhar com a hipótese de que em  algum momento neste semestre, possivelmente a partir de maio, o Copom aumentaria  a Selic. Sem muita convicção, no entanto.

Em março, com a variação do IPCA em doze meses apontando para a perigosa  marca de 6,59% – totalmente fora do limite da banda dos juros – novo tumulto  tomou conta do mercado. No dia 22, o presidente do Banco Central declarou em São  Paulo que o BC já fizera “uma mudança de política monetária ao alterar sua  mensagem junto ao mercado”, indicando que a comunicação do BC é uma ação  importante para conter a inflação (sic!).

Não deu para entender muito bem o que o presidente Tombini quis dizer.  Sabe-se que, desde o início dos anos 90, quando os agregados monetários foram  substituídos pela meta de inflação como bússola para a condução da política  monetária, a comunicação passou a ser peça fundamental na condução das  expectativas para manter a inflação sob controle. Ou seja, comunica-se na frente  para assegurar a estabilidade adiante e não o contrário. Não dá para segurar um  processo em curso de alta inflacionária no gogó!

Quanto mais coerente e transparente for a comunicação do BC, e em bases  regulares, sem ruídos que possam suscitar insegurança, maior é a confiança da  sociedade de que pode contar com uma entidade, relevante, acima do bem e do mal,  cujo objetivo é garantir a estabilidade dos preços. É disso que se trata e não  se deve nunca confundir a “comunicação” do BC com o instrumento de política  monetária que, sob o regime de meta de inflação, é apenas e somente um: a taxa  de juros.

Poucos dias depois, no dia 27 de março, a presidente Dilma Rousseff deu uma  declaração em Durban, na África do Sul, que voltou a mexer com o mercado. Foram  palavras confusas, truncadas, dando margem à interpretação de que a presidente  estava à favor do crescimento, mesmo às custas de alguma inflação. O Palácio  desmentiu, com panos quentes daqui e dali, mas o mercado, aparentemente, não se  convenceu e continuou trabalhando com a ideia de que aumento da Selic, se  houvesse, só a partir de maio.

Mais recentemente, o ministro Mantega disse que a “inflação não seria  derrubada com um tiro de canhão”, indicando no entanto que algum movimento  poderia ser esperado nos juros. Mas foi a fala da presidente, na terça-feira, em  Belo Horizonte, ao afirmar que “a inflação será combatida”, que colocou o  mercado em alerta para um aumento da Selic nesta semana. Ainda assim, atenção à  ressalva da própria presidente de que “os juros permanecerão baixos”.

O problema é que ou bem se combate a inflação, com o nível de juros que se  fizer necessário, ou bem mantém-se baixa a taxa de juros. A confusão, portanto,  prevalece. As expectativas continuam desamarradas!

 

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