19 de abril de 2012
Fim da bonança das commodities?

(publicado no jornal Valor Econômico em 19/03/2012)

Como que pisando em areia movediça, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que a economia mundial tende a crescer mais em 2012 e em 2013, mas diz também que sérios riscos continuam presentes, principalmente na zona do euro. De fato, um relatório divulgado ontem indica que os bancos europeus continuam sob forte pressão. A isso se somam as desanimadoras perspectivas de crescimento para a região em 2012 que desta vez atingem também a Alemanha (apenas 0,6% de expansão) e a França (0,5% de incremento), sem falar nos demais países que continuam mergulhados em ondas de desconfiança.

A experiência recente mostra que o FMI não tem sido muito bom em prognósticos. No ano passado, tão logo o relatório mundial veio a público em setembro apontando certo otimismo com a recuperação da Europa, a zona do euro sofreu nova recaída. Projeções para a economia chinesa também têm sido superestimadas. Está claro que, sendo um organismo essencialmente político, o FMI sofre constrangimentos em pintar um cenário negro pela frente. É sempre melhor pecar pelo excesso de otimismo!

Minimizado, porém, o aspecto “estava escrito nas estrelas”, vale ressaltar a importância do banco de dados do FMI, o maior de todos em termos de estatísticas econômicas. E as variadas análises combinatórias que buscam levantar comportamentos do passado para entender o presente e as possíveis tendências do futuro.

O Panorama Econômico Mundial, principal documento do FMI, tornado público esta semana, durante a chamada “reunião da primavera”, em Washington, dedica algumas páginas ao mercado de commodities (pág. 27 a 35 no link www.imf.gov/external/pubs/ft/weo/2012/01/pdf/text.pdf). É o trecho mais relevante para alguém que queira ter uma ideia sobre: 1) para onde vão os preços das commodities e 2) como isso tende a afetar a economia brasileira.

Há uma preocupação com o efeito da queda dos preços médios de metais, produtos agrícolas e outras matérias-primas sobre a economia dos países exportadores de commodities. Nos primeiros meses de 2012 os preços daqueles produtos continuam abaixo, em termos reais, dos níveis registrados em fins de 2010, exceção feita apenas ao petróleo que se mantém em alta por motivos políticos regionais. A questão interessa aos países que na última década puderam sustentar a expansão de suas economias internas com as elevadas receitas obtidas com a venda de café, soja, algodão, minério de ferro, cobre, estanho, zinco, e outros. Encaixa-se como uma luva no caso brasileiro.

A motivação para a piora dos preços vem, obviamente, da redução da demanda mundial provocada pela retração econômica que se seguiu à crise de 2008. No entanto, o que muitos se perguntam é se a queda ocorrida mais recentemente nos preços das commodities tende a se aprofundar e quanto disso estaria ou não relacionado à piora do quadro econômico ou mesmo à manutenção da situação atual?

Os economistas do FMI, depois de fuçarem aqui e ali, concluíram que nunca houve na história do comportamento das commodities um período tão largo, de mais de dez anos, em que todos os tipos de produtos (com exceção, de novo, do petróleo) mantiveram-se em alta independente da origem, se agropecuária ou mineral. Reputam isso à extraordinária fase de expansão mundial com baixa inflação vivenciada a partir de meados da década de 1990 até 2008.

A posição do Brasil não é muito confortável, de acordo com trabalho dos economistas Gustavo Adler e Sebastián Sosa, do FMI, divulgado em dezembro. No quesito “Concentração das Exportações” – que considera a participação das exportações brutas de commodities no total das exportações – situa-se na terceira faixa, de 40 a 50, em escala de 0 a mais de 70. No quesito “Dependência de Commodities”, que envolve a exportação líquida de commodities como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), há certo alívio: o país fica na segunda faixa, de 0 a 5, em escala de 0 a mais de 20. A menor dependência neste quesito deve-se ao peso das importações de petróleo, uma vez que exportação líquida é o resultado da exportação menos a importação.

E por que tudo isso é importante? Basta ler o artigo do economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre da FGV da Praia de Botafogo, na edição de abril da “Conjuntura Econômica”. Ele argumenta que o PIB, a preços de 2011, cresceu 31,8%, entre 2004 e 2011, enquanto que a absorção (demanda doméstica) aumentou 40,1% no mesmo período, significando crescimento de 6,3 pontos percentuais do PIB de 2011.

No mesmo período, nota-se aumento de 3,8 pontos de percentagem do PIB no saldo de transações correntes que corresponderiam à absorção de poupança externa. Os ganhos de termos de troca responderiam pelos restantes 2,5 pontos percentuais do PIB da expansão da demanda doméstica. Ele conclui que 61% do aumento da absorção no período, equivalente a 6,3% do PIB, deveu-se à elevação da absorção de poupança externa e 39% aos ganhos de termos de troca.

Ou seja, os altos preços das commodities que contribuíram para os ganhos dos termos de troca respondem em boa parte pela expansão do mercado doméstico, que impulsionou a economia brasileira nos últimos anos. Se o mercado de commodities tiver uma reviravolta, a economia brasileira vai sofrer, ainda mais quando se imagina que justamente o mercado interno tem sido um dos atrativos para o capital estrangeiro. Cabe ao governo começar a se preparar para enfrentar um eventual pior cenário.

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