17 de janeiro de 2013
Goethe e a economia

Maria Clara R. M. do Prado

Considerado grande escritor e pensador alemão, ao lado de Friedrich von Schiller, seu amigo pessoal e interlocutor intelectual, Johann Wolfgang von Goethe tornou-se mundialmente famoso e influente pela sua obra literária.

“Os sofrimentos do Jovem Werther”, publicado em 1774, quando tinha apenas 25 anos, foi um sucesso quase que imediato e espalhou pela Europa o nome de Goethe. Outros relevantes romances e poemas surgiram depois, como “Os anos de aprendizado de Wihelm Meister” e “Afinidades eletivas”.

Sua mais destacada obra é “Fausto”. Escrita em forma de poema, com estrutura de peça de teatro, divide-se em duas partes, tendo a primeira sido lançada em 1808 e a segunda, anos mais tarde, em 1832, depois da  morte de Goethe, aos 82 anos, ocorrida naquele mesmo ano, na cidade de Weimar.

 

Naquele poema trágico, Goethe narra o embate entre a ambição de Fausto e o preço que teve de pagar para alcançar as conquistas desejadas, entregando a própria vida a Mefistófeles.

É um clássico! Mas Goethe foi também advogado, geólogo, botânico, entendido em mineralogia, além de ter se dedicado ao estudo das cores. Chegou a escrever um Tratado das Cores. Essas várias facetas da sua vida são fartamente conhecidas, pelo menos por quem se interessa pela sua obra.

 

As façanhas de Goethe foram, no entanto, ainda mais longe, perpassando não apenas um reles interesse, mas uma atuação efetiva no mundo da economia e das finanças. Alexandro Merli, jornalista do Il Sole 24Ore, escreveu em dezembro um excelente artigo sobre a grande importância dedicada pelo escritor alemão aos temas econômicos, tendo, inclusive, ocupado o cargo de Ministro das Finanças do Grão-Duque Carlos Augusto da Saxônia-Weimar-Eisenach.

Goethe teria idealizado o Goethische Finanzreform, um programa de austeridade e de conversão da dívida, desenhado em 1782.

O interesse de Goethe pelas finanças, que a grande maioria desconhece, foi retratado por Merli na edição domininal de 09 de dezembro passado do Il Sole 24Ore, jornal italiano, dedicado à economia e finanças. O texto pode ser acessado através do seguinte link http://www.ilsole24ore.com/art/cultura/2012-12-09/goethe-economista-sorpresa-081748.shtml?uuid=AbiLySAH

Em Frankfurt, cidade onde Goethe nasceu, estão localizadas a sede do Banco Central Europeu (BCE), sob o comando do italiano Mario Draghi, e a sede do Bundesbank, sob o comando de Jens Weidmann. Entre os dois, surge Goethe, resgatado do passado por Weidmann para chancelar a posição de maior rigor no tratamento da moeda e da dívida pública.

É largamente notória a diferença de opinião entre Draghi e Weidmann sobre a forma como devem ser  administradas, na atual situação de crise, as questões monetária e fiscal na zona do euro, com o presidente do Bundesbank defendendo sempre o estrito controle do déficit publico e do endividamento com menos emissão monetária, e Draghi tentando fazer o possível e o impossível para manter de pé o projeto da moeda única.

O texto de Merli remete à diferença entre os dois e mete Goethe no meio da conversa. Em verdade, segundo relata, foi o próprio Weidmann quem apelou para Goethe em uma palestra proferida em setembro do ano passado, ao recordar que na segunda parte de Fausto, Mefistófeles resolve o problema da dívida simplesmente imprimindo moeda.

Seria o representante do demônio atuando com toda perversidade a favor do mal!

Para Weidmann, Goethe teria colocado luz na interelação potencialmente perigosa entre criação de moeda, finanças públicas e inflação. Conta Merli que em defesa do presidente do BCE, indiretamente referido nas entrelinhas da fala do presidente do Bundesbank, levantou-se o Prefeito de Frankfurt: “Draghi não é Mefistófeles”.

O texto convida os leitores à exposição “Goethe e o dinheiro”, realizada na casa do escritor alemão em Frankfurt. Infelizmente, para quem está ou pretende estar naquela cidade, a mostra encerrou-se no final de dezembro, mas o artigo de Merli, ao destacar a veia financista de Goethe, ajuda a que se entenda melhor quem foi o homem, para além de seus escritos literários.

O link acima dá acesso diretamente ao site do Il Sole 24Ore e o artigo está, obviamente, no original. Este blog jamais se atreveria a vertê-lo do italiano para o português por absoluta incapacidade. Espera-se, contudo, que a leitura possa ser de alguma forma proveitosa!

 

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