14 de maio de 2015
Imediatismo, doença brasileira

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 14/05/2015)

 

O quadro econômico do país deu uma aliviada, mas continua sombrio. A se confirmarem os prognósticos do FMI no relatório sobre o Brasil – originário da consulta anual sob a égide do artigo 4º dos estatutos do fundo – só em 2017 se poderá contar com uma taxa de crescimento mais decente, ao redor de 2%.

A inflação tende a ceder depois da puxada nos juros, mas vai demorar. A taxa de câmbio não vai dar refresco a médio prazo, mesmo porque não depende apenas dos humores políticos internos, mas também, e principalmente, da larga dependência da economia brasileira aos movimentos da política monetária norte-americana.

Além disso, o dólar tende a valorizar-se face ao real pelo inexorável fato de que o crescimento da maior economia do mundo desloca de volta para seu território o pêndulo da prosperidade que muitos acreditaram ter se desviado definitivamente em favor da China. A desvalorização do real pode ajudar nas exportações, mas isso não significa muito em um país de economia tradicionalmente fechada, onde a venda de bens para o exterior equivale a apenas 11% do PIB.

Alguns festejam. Pode-se ganhar com operações financeiras bem estruturadas. O juro mais elevado, necessário para reduzir a inflação, ajuda a quem prefere os rendimentos fáceis do investimento financeiro ao lucro incerto do investimento produtivo.

O Brasil segue firme na tradição de funcionar no compasso do curto prazo. Salvo momentos muito pontuais da sua história, o imediatismo tem dado o tom, a cara e o ritmo do errático processo de desenvolvimento do país. A primazia do curto prazo persiste mesmo depois do desaparecimento da hiperinflação.

Educação? Considerada uma prioridade desde que a República foi proclamada, mantém-se inabalável na categoria da má qualidade. Que o diga a OECD – Organização Econômica para a Cooperação e o Desenvolvimento – que tem compilado os dados sobre educação em vários países, incluindo o teste PISA que mede o nível de conhecimento em matemática, leitura e ciência dos estudantes. O Brasil mantem-se abaixo da média, com algum progresso, mas muito lento. Tão lento que pouco tem contribuído para a melhoria da produtividade da mão de obra, um indicador que afeta a competitividade do país.

Mas a insistência em lidar com questões que impactam para pior o longo prazo tem outras facetas. Está em todos os lados. O governo há muito não consegue traçar, planejar e por em marcha, de forma coerente, um programa integrado de desenvolvimento. Executivo e Legislativo gastam mais tempo barganhando cargos, prestígio e benefícios específicos em torno de medidas e propostas pontuais do que efetivamente em projetos de peso que contribuam para o crescimento sustentado do país.

As deficiências na infraestrutura estão em todos os discursos, mas as iniciativas para equacioná-las não avançam. Menos de 15% das estradas estão pavimentadas (pasme-se!). Com exceção de Santos, os portos funcionam precariamente. As ferrovias inexistem. A energia elétrica é falha na distribuição e na transmissão, além de deixar a desejar em termos de geração.

Um estudo desenvolvido pelo FMI sobre a infraestrutura brasileira, também divulgado nesta semana, diz que o investimento no setor caiu do equivalente a 5,2% do PIB no início dos anos 80 para algo em torno de 2,25% do PIB nas últimas décadas, tendo atingido a taxa ainda precária de 2,5% do PIB em 2013. Mas, sem dúvida, sua importância é vital: uma infraestrutura deficiente e inadequada é capaz de afetar para menos entre 10% e 15% a evolução do PIB no Brasil, segundo menciona o estudo “Filling the Gap: Infrastructure Investment in Brazil” , citando um trabalho sobre o tema feito pelo Credit Suisse, em 2013.

Há ainda um outro elemento chave que ajuda a propagar a doença brasileira do imediatismo. O empresariado não tem o hábito de investir. Isso vem de longe. A aversão do setor privado ao investimento há muito foi detectada por outros países, parceiros comerciais do Brasil. O problema é que a tendência continua.

Incrivelmente, o excesso de liquidez a custo baixo que pairou no mundo a partir de 2009 com a agressiva política expansionista dos Estados Unidos, disseminando crédito abundante para os países emergentes, foi usado pelos empresários brasileiros em boa parte para fazer “cash”, através de diferentes modalidades de captação de recursos, ao invés de ter sido aplicado em investimentos produtivos. Isso foi identificado em outro recente estudo do FMI sobre o Brasil sob o título “Non-Financial Corporate Sector Vulnerabilities” (Vulnerabilidades do Setor Corporativo Não Financeiro).

“A crescente alavancagem financeira levou as empresas a construírem estoques de liquidez ao invés de aumentarem o seu estoque de capital”, diz o estudo. Ressalte-se que isso foi feito às expensas dos baixos juros cobrados pelo BNDES, das facilidades de captação no exterior e até da relevante queda ocorrida na taxa Selic, no governo anterior. A inovação, tão cara à competitividade e ao progresso, não tem relevância porque não se encaixa no imediatismo.

Que país consegue sair com honras e glórias da pecha de emergente titubeante se as suas crianças não aprendem, se os trabalhadores têm baixa produtividade, se os empresários não investem e se os governos não planejam? Para não falar da corrupção.

Talvez uma grande sessão de terapia com todos os brasileiros reunidos pudesse encontrar a cura para a doença do imediatismo, mas isso soa impossível. As próximas gerações sempre poderão desenvolver um antídoto que faça vigorar a saudável preocupação com o médio e o longo prazos. Isso tem sido sempre uma esperança.

 

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