13 de novembro de 2012
Incertezas Monetárias

(publicado no Valor Econômico em 19/09/12)

Incerteza quanto ao futuro foi o tom das declarações do presidente do banco central dos Estados Unidos – Federal Reserve Board – ao término da última reunião do FOMC (Comitê do Mercado Aberto do Fed), no último dia 13. Claramente, a trajetória do comitê para a queda da taxa de desemprego nos próximos anos (mantém-se em torno de 8%) veio minada por uma áurea de dúvidas misturada a certa esperança de que, desta vez, a política de afrouxamento monetário dê certo.

Quatro anos depois dos primeiros passos do Fed com o objetivo de impingir estímulo e robustez à economia norte-americana, sem sucesso, crescem as pressões de economistas e políticos para uma mudança na condução da política monetária com vistas a efetivamente garantir a retomada do crescimento.

Em agosto, contabilizava-se em cerca de US$ 1,45 trilhão o total de liquidez injetada pelo Fed no mercado desde o final de 2008. Novas rodadas de compra de títulos lastreados em créditos imobiliários conforme foi aprovada há uma semana – com injeção adicional direta de US$ 40 bilhões por mês no mercado, além de mais US$ 45 bilhões de retorno por maturação de papéis adquiridos pelo Fed em operações anteriores – já não impressionam. Pelo contrário, apenas agrega mais barulho ao crescente discurso dos descontentes.

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um deles e tem razão. Além de não ajudar na retomada da economia, a política do Fed tem sérias conseqüências no mercado financeiro internacional, em especial, na definição dos preços pelos quais as moedas são trocadas. O dólar é a moeda mais conversível do mundo e sua desvalorização, perpetuada pela vigorosa política de emissão monetária do Fed (que, vale lembrar, é feita a custo zero em comparação com qualquer medida de estímulo fiscal), afeta seriamente o valor das demais moedas. E, para registro, não só aquelas emitidas por países emergentes são afetadas.

Recentemente, o diretor-geral do BIS (Bank for International Settlements – o banco dos bancos centrais), Jaime Caruana, chamou firmemente atenção para aquele ponto ao conclamar os bancos centrais a se preocuparem com os efeitos que suas políticas monetárias têm no mundo.

“Uma vez que a moedas mais fortes são usadas internacionalmente, a política de taxas (de juros) determinada por seus emissores afetam diretamente as condições monetárias em outros lugares”, disse ele na célebre reunião de Jackson Hole, no final de agosto, complementando: “tomar dinheiro emprestado em moeda estrangeira pode ser coisa rara nas grandes economias, mas pode ser significativo em outros países”.

Caruana citou números. Desde a crise de 2008, enquanto o crédito para consumo e investimento no mercado norte-americano praticamente não saiu do lugar, os empréstimos em dólar para aquele tipo de tomadores no resto do mundo cresceu 20%, alcançado o marca de cerca de US$ 7 trilhões. Isto indica que o multiplicador monetário para a emissão de dólares promovida pelo Fed tem funcionado positivamente e em larga escala fora dos Estados Unidos. Internamente, o multiplicador mantém-se estagnado, sendo até negativo para alguns analistas.

Mas é dentro dos Estados Unidos que soa maior a crítica contra a atuação do Fed. O respeitado Alan Blinder, expert em política monetária, abandonou a moderação para adotar posição veemente contra a insistência de Ben Bernanke no “quantitative easing”, melhor traduzida por expansão de liquidez, como principal instrumento monetário, diante do limite que impede a redução do juro de curto prazo, já perto de zero. Blinder passou a defender que seja nula ou mesmo negativa (implicando, neste caso, em custo para os bancos) a taxa paga pelo Fed para as reservas bancárias excedentes. Estas têm origem justamente na larga aquisição de papéis de maior maturação que o Fed deflagrou desde a crise de 2008 na expectativa de influenciar, assim, na redução dos juros de longo prazo e, através deste canal, estimular a atividade e o emprego.

Para contornar a lei que impede o Fed de pagar juros sobre as reservas dos bancos, o Congresso dos Estados Unidos teve de autorizar aquele custo. Desde então, as reservas excedentes (além do recolhimento obrigatório) recebem 0,25% do Fed, mas Blinder acha que isso funciona como um desestímulo aos empréstimos para o setor privado. Diante da perspectiva de que os juros de curto prazo fiquem entre 0 e 0,25% até 2005 e, na suposição de que a economia continue em recessão, é muito melhor para os bancos deixar o dinheiro aplicado em lugar seguro com rendimento garantido do que arriscar com a inadimplência.

A proposta de Blinder, se adotada, implicaria em enorme aumento de liquidez na economia norte-americana. No limite, na entrada em circulação do US$ 1,450 trilhão que está represado no Fed. É claro que boa parte daquele dinheiro tem como contrapartida títulos do Tesouro dos Estados Unidos que foram emitidos justamente para ajudar a equilibrar o balanço do Fed. Mas não resta dúvida de que haveria o risco da inflação ser de repente detonada para além do nível de 2% ao ano e esse é, em verdade, o maior pepino que o Fed tem de descascar pela frente: como desconstruir o “quantitative easing” sem afetar os preços em uma economia que trabalha muito aquém de sua capacidade?

Outras idéias ganham peso na tentativa de imaginar uma forma de tirar o Fed da armadilha em que se meteu. Há quem defenda a esdrúxula alternativa da inflação ser substituída pelo PIB como alvo a ser perseguido pelo banco central. Seria o mesmo que acabar de enterrar em uma cova bem funda a política monetária, seus fundamentos e todos os preceitos que a norteiam desde a criação do Banco da Inglaterra.

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