18 de novembro de 2010
Incompetência monetária

(publicado no jornal Valor Econômico em 18/11/2010)

Qualquer que seja o ângulo pelo qual se analise a decisão, nenhum ajuda a redimir o Fed da incompetência monetária.

Primeiro: falha no objetivo a que se propôs de estimular a economia interna com a farta distribuição de liquidez. O motivo da inoperância da medida tem a ver com a racionalidade dos americanos que, diante de taxas de desemprego ainda muito elevadas e sem a perspectiva de que dias melhores virão no curto e médio prazos, têm se esquivado de tomar empréstimo. Os bancos, por seu lado, temerosos de micarem com credores inadimplentes, preferem manter o dinheiro em caixa. A economia, no geral, não se move e o dinheiro tende a circular menos. Não é algo que possa ser resolvido com liquidez. Há um forte elemento psicológico envolvido no cenário da recessão dos Estados Unidos. Afinal, de que serve ter dólares se não há confiança nem mesmo daqueles que têm emprego quanto ao futuro da sua renda?

Trata-se de aproveitar a crise dos parceiros desenvolvidos para criar um ambiente de maturidade econômica
O gráfico abaixo, elaborado pela Consultoria Tendências, mostra bem a nulidade daquela medida de expansão monetária. Os dados são do próprio Fed e mostram a evolução do multiplicador monetário nos Estados Unidos. Desde setembro do ano passado, o indicador tem se mantido abaixo de um, considerando a razão entre o M1 (meios de pagamento no conceito mais simples) e a base monetária, que é a emissão primária de moeda. Significa que o sistema bancário não tem sido capaz de girar os dólares em ritmo suficiente para colocar a economia em andamento.

Segundo, o dólar é a moeda mais conversível do mundo. Isso dá ao seu emissor um enorme poder de influência nos mercados de moedas em geral. Ao injetar soma altíssima de moeda no circuito bancário dos Estados Unidos, e em não havendo demanda interna para tanto dinheiro, os dólares acabam tomando outras direções. Vão ajudar a irrigar outras economias que, a rigor, não precisam de mais liquidez.

Terceiro, todo o movimento do dólar a partir da decisão do Fed tem o efeito de contribuir para as chamadas operações de “carry-over”, estimuladas pelos ganhos pelo diferencial de taxas de juros entre os Estados Unidos e os países em desenvolvimento que não conseguiram até aqui se desvincularem da rigidez monetária do passado, contribuindo assim para alimentar os problemas criados com o excesso de dólares no mercado.

Enquanto isso, os bancos europeus (em especial os alemães e belgas, mais carregados de ativos duvidosos) se afundam com as perspectivas de insolvência da dívida soberana de países como a Irlanda, Espanha, Portugal e etc…, a ponto das pessoas começarem a colocar em dúvida o futuro do euro. É mais um petardo complicado de mastigar no cenário global que não mostra sinais positivos no horizonte.

 

Isso sem falar na China, que começa a se preocupar com os efeitos da crise e que não pode de jeito nenhum passar por uma recessão do tipo da que assola os Estados Unidos. Lá, ainda há milhões de bocas para serem alimentadas, de um lado, e uma classe média que se acostumou com um padrão de vida elevado. Politicamente, para o partido comunista chinês, seria uma situação difícil de gerenciar. O sudeste asiático se mantém à mercê dos ventos que sopram na China; e, no Japão, a economia continua sem ir para frente e nem para trás.

Na América Latina, tudo parece andar dentro do esperado na medida daquilo que pode ser esperado, tendo em vista as circunstâncias.

O Brasil aflora na região como se fosse o verdadeiro pedaço do paraíso na terra, mas tende a não ficar imune aos efeitos da crise internacional. Como já se disse aqui, não há nenhum motivo no momento para maiores preocupações com o déficit em conta corrente do país, mas há sim com os efeitos que a enxurrada de dólares promovida pelo Fed poderá ter sobre a economia do país.

Não se trata apenas da valorização do real. O que está em jogo, em meio à confusão generalizada, é a capacidade do próximo governo em desenvolver uma política econômica que possa manter a estabilidade da inflação independente da política cambial e praticar juros que realmente tenham a ver com o valor aquisitivo da moeda nacional e não com a preocupação de atrair capital externo. Enfim, trata-se de aproveitar a crise dos parceiros desenvolvidos para criar um ambiente de maturidade econômica interna, enquanto há tempo.

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