12 de abril de 2010
Inflação, diferentes pesos e medidas

(publicado no jornal Valor Econômico em 08/04/2010)

A recente preocupação de alguns analistas e economistas com a inflação carece de pesos e medidas. Tal qual frutos reunidos em uma mesma cesta, independente de tamanho, formato, paladar e cor, peca-se pela generalização e, ainda, pela pressa em avaliar comportamentos econômicos como se fizessem, todos, parte da mesma horda.

O equívoco analítico com certeza tem raízes no passado recente, quando o mundo ainda passava pelas transformações provocadas pela queda do muro de Berlim e pelo desaparecimento do estado soviético. Rapidamente, com a ajuda do avanço da internet, verificou-se o encurtamento das distâncias, a proximidade de desejos e anseios e a integração econômica. Guardadas as devidas proporções, o senso comum passou a acreditar que se viveria para sempre com prosperidade e estabilidade em qualquer parte do mundo.

A crise financeira do final do ano passado veio quebrar o encanto. Como que despertado de um sonho de fadas, o mundo percebeu que a realidade continua dura e que exige sacrifícios de quem quer alcançar a virtude do bem-estar. Mas a crise comprovou também o que sempre se soube, mas andava esquecido: que a realidade varia em função do lugar, da circunstância e do potencial de cada um. Nesse sentido, a diversidade de situações que hoje se verifica entre países e regiões exige cautela na análise dos fatos econômicos e suas perspectivas para o médio e o longo prazos.

Ontem, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou sua previsão de que a economia do G-7 (sete países mais industrializados) deve crescer à taxa média de 2,3% no atual trimestre, em base anualizada. Isso é mais do que a expansão de 1,9% para o grupo no trimestre passado, mas mantêm-se abaixo dos 3,7% de crescimento verificado na média dos sete – EUA, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Canadá e Japão – no último trimestre de 2009.

O mais importante, no entanto, foi a mensagem da OCDE de que o processo de recuperação econômica em geral, ainda incipiente, tem ocorrido “a velocidades diferentes ao longo de países e regiões”. O Canadá, por exemplo, deve crescer 4,5% neste trimestre, enquanto que a média da França, Alemanha e Itália não deve passar de 1,9%.

O mesmo deve ser dito com respeito à inflação. É equivocada a avaliação corrente de que os países chamados de “emergentes”, onde a demanda mais aumenta, estão fadados a enfrentar uma onda inflacionária no curto prazo. O equívoco decorre justamente da imprudência de se colocar todas as frutas na mesma cesta.

A rigor, a inflação preocupa sim de forma pontual em alguns países por motivos diversos. Na Índia, o caso mais dramático, a inflação tem oscilado entre 16% e 17%. Em janeiro deste ano, o índice de preços ao consumidor atingiu 16,2% naquele país sobre o mesmo período do ano anterior. A Índia é largamente afetada pelos preços das commodities, em especial agrícolas. Ontem, por acaso, a situação no mercado era péssima para os indianos: estavam em alta no mercado futuro os preços do milho, da aveia, da soja, do óleo de soja, do açúcar, do trigo e do arroz.

Também a Turquia voltou a apresentar aumento na taxa de inflação, retomando os níveis em torno de 10% ao ano que vigiam até o início de 2009. A inflação na Rússia mantém-se elevada, em torno de 8%, embora esteja abaixo do nível de 10,9% observado em 2009. Há também a destacar a inusitada situação da Argentina que tem uma inflação oficial, manipulada, girando em torno de 9% com tendência de alta, e uma inflação não oficial e mais confiável, baseada em dados das consultorias econômicas, que aponta para algo entre 25% e 30% neste ano.

É claro que o caso argentino é ímpar, tendo em vista as circunstâncias políticas que têm caracterizado o governo da presidente Cristina Kirchner. Os exemplos de inflação fora de controle no grupo dos “emergentes” são, portanto, pontuais e não justificam a generalização.

Só para não se perder a questão de vista, vale lembrar que a China apresentou em janeiro uma taxa de inflação de 1,5% em termos anualizados, medida pelos preços ao consumidor. Em 2009, o país deparou-se com uma inflação negativa de 1%. Ainda medida pelo CPI, a taxa de inflação em fevereiro de 2010, em comparação com o mesmo período do ano anterior, foi de 4,8% no México; de 3,8% na Indonésia, de 2,7% na Coreia; de 3,1% na Polônia; e de 0,3% no Chile. Os dados são oficiais e foram compilados pela OCDE. Podem ser consultados no site www.oecd.org

Com relação ao Brasil, não há grandes problemas a se temer. É claro que 2010 é ano de eleições e isso acaba pesando de alguma forma no comportamento do Banco Central seja para mais, no sentido do afrouxamento da política monetária como ocorreu em meados de 2002, ou seja para menos, com medidas de aperto desnecessário também por motivos políticos. Nesse caso, o móvel é a necessidade de mostrar excesso de zelo.

A última ata do Copom mostra bem o dilema: um texto cheio de retórica no sentido de que a inflação pode fugir ao controle e que tende a ficar este ano “sensivelmente acima de 4,5%”, lembrando que essa é a meta medida pela variação do IPCA. E ainda assim, por unanimidade, o colegiado resolveu manter a taxa Selic, de curto prazo, em 8,75% ao ano.

Uma das esperadas motivações do Copom para o aumento da inflação brasileira, conforme apontado no texto da ata, seria a influência do cenário internacional nos preços internos. Trabalhou-se ali com a expectativa de que o mundo cresceria de forma mais robusta e mais rapidamente do que estão apontando os dados colhidos até aqui pela OCDE e as previsões que a partir dali são traçadas para o semestre.

É óbvio que trabalhar as expectativas no sentido de que não deixará a inflação fugir ao controle é papel obrigatório de todo banco central, mas isso não deveria desorientar analistas e economistas em suas avaliações sobre o efetivo comportamento da inflação no segmento dos países chamados de “emergentes”. Muito menos, caírem na simplista e cômoda atitude de tratar aqueles países como uma só entidade a partir de situações muito específicas como são os casos da Índia e da Argentina.v

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