16 de dezembro de 2010
Inflação e meta

(publicado no jornal Valor Econômico em 16/12/2010)

Tudo indica que a presidente eleita Dilma Rousseff terá de enfrentar o desafio do combate à inflação enquanto perseguir a prometida decisão de acabar com a pobreza absoluta no país. Ao contrário do presidente Lula, que pôde usufruir de uma larga janela de oportunidade pelas favoráveis condições econômicas externas até o final de 2008, Dilma tomará posse em 1º de janeiro com um quadro sem dúvida muito melhor do que o de janeiro de 2003, mas uma crucial diferença separa os dois janeiros.

Lá, boa parte da turbulência cambial e, consequentemente, inflacionária, foi alimentada pelo medo do que Lula e seu partido poderiam causar à economia. Vencido o temor, o país retomou o seu curso, tirando o máximo proveito da fase benévola que combinou inflação baixa e crescimento indiscriminadamente em todas as partes do globo.

Aqui, o mundo é diferente porque está hoje dividido em dois: de um lado, a estagnação dos desenvolvidos chega a contaminar quase que um continente inteiro, sem falar nos Estados Unidos, e, de outro, os “emergentes” cujo crescimento já se reflete no aumento das taxas de inflação. Ou seja, a parte do mundo onde vive a população de maior renda, ainda, que deveria estar comprando, quer vender, mas não tem muito a oferecer. A outra metade, em processo de acumulação de capital, encontra menos espaço para vender suas commodities que voltaram a subir de preço no mercado internacional pelo efeito da formação de estoques, estimulada pela política de “quantitative easing” ou frouxidão de liquidez promovida recentemente pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e que, ao que parece, pode ser repetida por Bernanke.

Internamente, esgotou-se o espaço para o real continuar acumulando apreciações face ao dólar
A política monetária americana espalha a inflação pelo mundo na tentativa de salvar a pele do próprio país, ao baratear o dólar, que só tem se sustentado diante da debilidade lastimável do euro.

Internamente, como bem colocou ontem o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, ao apresentar o book de análise estratégica da corretora, esgotou-se o espaço para o real continuar acumulando apreciações face ao dólar. Isso significa o desaparecimento do colchão cambial que ajudava a compensar boa parte dos altos preços das commodities praticados, com poucos períodos de queda, desde meados dos anos 90. Ou seja, a ajuda do câmbio para segurar a inflação será menor, enquanto que os efeitos de juros mais altos sobre a economia são difíceis de mensurar na hipótese de continuidade da política de redistribuição de renda que marcou a fase Lula no Brasil.

Deve-se esperar, portanto, o acirramento do debate em torno da meta de inflação cuja partida, aliás, foi dada recentemente pelo ministro Guido Mantega.

Se a inflação recrudescer, confirmando a expectativa generalizada dos analistas, o centro da meta de 4,5% com base no IPCA para 2011 ficaria comprometido, mas é bom lembrar que há uma folga de dois pontos de porcentagem para mais, o que coloca o teto da meta em 6,5%. Também vale recordar que a meta central deixou de ser atingida em outras vezes.

Para o bem do debate, necessário se torna esclarecer certos conceitos que têm sido distorcidos ultimamente. Primeiro, fala-se em expurgo como se isso fosse banal em regime de meta de inflação. Não é. Expurgo é a atitude que subtrai do índice de preços, de forma aleatória e informal, os preços de algum produto cuja alta esteja pesando na mensuração da inflação. O caso clássico no Brasil data dos anos 70 e ficou conhecido como a “inflação do chuchu”. Exemplo mais recente e mais chocante é a atitude do governo da Argentina de manipular os índices de preços para mascarar a inflação.

É comum no regime de meta que os países optem por uma medida de inflação subjacente (ou núcleo do índice de preços) a partir da avaliação dos preços que podem comprometer a expectativa de inflação e que independem do comportamento da demanda. Alguns excluem do índice, por exemplo, o impacto do aumento dos impostos indiretos nos preços dos bens ao consumidor. Outros descontam os juros das prestações da casa própria, como a Grã-Bretanha. A maioria atrelou ao regime de metas cláusulas de escape para situações em que desastres naturais ou choques de oferta venham a pressionar determinados preços.

Quando o regime de metas de inflação foi introduzido no Brasil – há onze anos e meio – todas as alternativas foram discutidas. Optou-se, porém, pelo sistema de meta central com margem razoável de oscilação para mais ou para menos como forma justamente de abrigar ali os impactos inesperados de preços sem que isso comprometesse a credibilidade do regime.

Alta de inflação não se resolve com a mudança de regras da meta inflacionária, mas com outros tipos de iniciativa, como a do arrocho fiscal. Quanto à estabilidade da moeda, com meta ou sem meta, vale sempre lembrar que no médio e no longo prazo inflação é basicamente um fenômeno monetário.

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