21 de julho de 2011
Ingerência política sobre o euro

(publicado no jornal Valor Econômico em 21/07/2011)

A zona do euro poderia ser associada à Arca de Noé: a moeda é a arca e os bichos são os 17 países que formam a União Monetária Europeia (UME). Falta encontrar o Noé – ou Noés – que possa guiar a arca para porto seguro, salvando-a do Grande Dilúvio.

Espera-se que a reunião de hoje em Bruxelas venha a iluminar governantes e representantes de entidades monetárias no sentido da preservação da credibilidade do euro e do sistema bancário europeu cuja saúde está intimamente ligada ao valor dos ativos denominados naquela moeda.

Não será fácil encontrar uma solução para o curto e médio prazos que atenda ao mesmo tempo a necessidade de que o risco dos bônus emitidos em euro seja minimamente abalado e que os governos largamente endividados ganhem condições de administrar suas dívidas de forma mais equilibrada com a previsão de suas receitas. Uma linha muito fina, mas consistente, que atenda a devedores e credores, terá de ser traçada consensualmente com o apoio de todos os países da UME, a despeito das divergências políticas que desde 2010 nada mais fizeram do que ampliar um problema que era grego para a dimensão continental.

Houve displicência, sem dúvida. Os interesses particulares de cada país pesaram mais do que o da região. Em verdade, a origem da atual dificuldade vem de longe. O desaparecimento da válvula cambial que antes de 1999 camuflava a desnível competitivo na Comunidade Europeia não foi seriamente considerado nem antes e nem depois do lançamento da nova moeda. Muito menos houve preocupação dos líderes europeus em exigir e fiscalizar o cumprimento das regras de endividamento do Tratado de Maastricht. Permitiu-se aos países menos eficientes, afetos a governos permissivos, o acesso a uma unidade monetária cuja reputação repousa, a rigor, no poder econômico da Alemanha e da França.

As divergências até agora só conseguiram ampliar um problema que era grego para a dimensão continental
Mas não adianta chorar. Trata-se de agir agora para levar a nau a porto firme. Vários arranjos podem ser definidos para a Grécia em moldes que sirvam, como padrão, para outros países.

Não deveria causar surpresa se a Reserva para a Estabilidade Financeira Europeia (European Financial Stability Facility) vier a ser acionada como parte de um amplo pacote de medidas, provendo recursos para o governo grego recomprar papéis de sua emissão ou mesmo realizando compras diretas de bônus soberanos de países devedores no mercado secundário. O próprio fundo criado com o objetivo de socorrer os governos insolventes – e do qual devem sair os recursos do segundo empréstimo em garantia para a Grécia, em torno de € 125 bilhões, acima dos € 110 bilhões do primeiro socorro ao país, em maio de 2010 – teria potencialmente papel a desempenhar em uma solução mais geral.

Mas a dúvida sobre a reestruturação da dívida grega continua. Esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles de toda a problemática envolvendo o euro. O motivo é muito simples: se adotada, o Eurosystem – autoridade monetária europeia formada pelo Banco Central Europeu (BCE) e os bancos centrais dos 17 países membros – será afetado, uma vez que carrega em seus ativos mais de € 60 bilhões só em papéis da dívida grega. Muitos desses títulos foram aceitos em garantia da liquidez injetada no sistema bancário europeu.

Não à toa o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, tem alertado para as consequências de um “default” – integral, parcial ou selecionado – dos títulos da Grécia.

Em entrevista publicada na segunda-feira pelo “Financial Times Deutschland”, Trichet (que encerra seu mandato no BCE no final de outubro) foi enfático: “No caso de uma decisão dos governos que leve a um default seletivo ou a um default, contra o qual, de novo, nós advertimos em alto e bom som, os governos terão de cuidar para que o Eurosystem seja contemplado com “collateral” (garantias) que possam ser aceitas”. Se o pior acontecer, contra os avisos de Trichet, o BCE ficaria em situação inusitada, tendo de carregar ativos degradados em carteira, desclassificados pelas agências de risco.

A questão também impacta os bancos privados, pois muitos são credores de governos soberanos. As estatísticas do Banco Internacional de Compensações (BIS) mostram que boa parte dos créditos externos dos bancos alemães (fora da Alemanha) está comprometida com operações realizadas na região, das quais US$ 303 bilhões (€213 bilhões), ou um quarto do total, envolvem ativos do setor público, na posição de dezembro de 2010. Só em papéis da dívida soberana grega, os alemães têm exposição de cerca de US$ 21,6 bilhões (€15,2 bilhões). Os bancos franceses estão expostos aos títulos públicos gregos no equivalente a US$ 23,6 bilhões (€16,6 bilhões). Há sério risco de contágio.

Em meio à tormenta, um analista inglês comemorava: “Thank goodness UK did not join the euro!” (“Graças a Deus o Reino Unido não aderiu ao euro!”).

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