23 de abril de 2015
Mais confuso, impossível

por Maria Clara R. M. do Prado

 

O nível de incongruência a que chegaram os partidos políticos brasileiros talvez não tenha paralelo em nenhum outro lugar e em nenhuma outra época. De um lado, parece que baixou o “barata voa” no Congresso Nacional, tal é o paroxismo a que chegaram deputados e senadores.

Agem desvinculados de qualquer orientação ideológica partidária, a mercê, muitos, da insensatez de líderes que não estão preocupados com a biografia de ninguém, nem mesmo com a própria. Enxergam apenas o aqui e o agora, alijados de qualquer sintonia com o bom senso. Confundem autoridade com autoritarismo.

Individualmente, os políticos reforçam o ambiente de desconexão com uma sociedade que há 30 anos, desde a democratização, vem consolidando alto grau de complexidade, com interesses difusos, ambições alargadas e vozes de diferentes camadas sociais que não se intimidam diante da insatisfação.

O confronto entre classes é inevitável. E não é novidade. Aconteceu ao longo do processo de amadurecimento de toda sociedade que optou, ao fim e ao cabo, por manter e prestigiar as instituições democráticas, aquelas que são responsáveis justamente pela mediação do confronto, garantindo a convivência civilizada de todos os cidadãos, apesar da diferença de opiniões e da diversidade de interesses.

Escolhidos como representantes da sociedade para abrigar o debate divergente e tirar dele o consenso que deve nortear as leis, os políticos funcionam como corpo essencial do sistema institucional que zela pela democracia. Ou, dito de outra forma, pela harmonia entre as diferenças.  Mas eles não conseguiram, infelizmente, acompanhar a evolução da sociedade brasileira. Comportam-se como se as pessoas ainda se sujeitassem a parâmetros e ideias impostos de cima para baixo, como se a massa não tivesse se transformado em cidadãos.

Nitidamente, os políticos estão perdendo a identidade. Podem ser hoje um e, amanhã, outro. Falam o que bem entendendem, sem medir consequências. Sequer avaliam o significado das próprias palavras na suposição, na certa, de que jamais serão cobrados por elas.

Não bastassem as discussões sem rumo que alimentam o noticiário nos últimos tempos, o resultado da votação do projeto da terceirização, ocorrido ontem na Câmara dos Deputados, dá uma idéia do imbroglio e da descaracterização dos grandes partidos, que cada vez se distanciam mais das convicções e propostas defendidas na origem. Nem vale a pena perder-se tempo aqui com o PMDB, uma sigla que se desvirtuou totalmente dos preceitos que a orientaram nos primeiros anos, quando ainda era vista como o baluarte da resistência à ditadura.

Sem personalidade, apesar do tamanho, o partido vive dias grotescos, com os seus dois principais expoentes no cenário atual – os presidentes da Câmara e do Senado – trabalhando um para cada lado, cada um por si, em função de objetivos não muito bem perceptíveis, como ficou claro no episódio da divergência sobre a votação da lei da terceirização.

O PTB, talvez a mais longeva sigla no Congresso, votou majoritariamente na Câmara a favor do projeto e deve ter levado Getulio Vargas a dar voltas na tumba. Seu primo irmão, o PDT, criado por Brizola, foi bem mais fiel aos direitos dos trabalhadores, mas o PPS, originado do antigo partido comunista brasileiro, deu mais votos a favor do projeto do que contra. Até o principal lider do partido capitulou.

Pela história recente, o PSDB talvez seja o partido que mais se distanciou da cara que tinha na origem. Assentado em um programa econômico de feições liberais, mas criado por políticos sensíveis às causas sociais, o partido do Plano Real conseguiu acabar com a hiperinflação, e com o prejuízo que o processo aceleerado de aumento de preços impunha às classes de renda mais baixa, mas deixou que o legado se perdesse. Inclinado cada vez mais para a direita, votou maciçamente a favor da terceirização na Câmara. Seus líderes têm defendido idéias oportunistas que os coloca no mesmo nível dos líderes descompromissados do PMDB.

Não é de estranhar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha preferido nas últimas semanas um discurso mais moderado que o distancia da agressividade desconexada dos membros de seu partido. Experiente, FHC sabe que tem uma reputação a zelar e certamente não está disposto a jogar no lixo a sua história política.

Ele faz o que Lula tenta fazer, mas não tem conseguido devido ao iceberg de casos de corrupção que maculam o prestígio e a credibilidade do PT. O partido votou majoritariamente contra o projeto de terceirização do trabalho, como seria, aliás, de esperar, mas isso está longe de ser interpretado como sinal de coesão partidária. Confrontados com os escândalos, os líderes do PT parecem anestesiados, suscitando dúvidas quanto ao futuro do partido.

Quem achou que nesta segunda década do século XXI a democracia brasileira continuaria a ser sustentada pelo sistema de coalizão que permitiu o rearranjo político nos primeiros anos pós ditadura perdeu o pé do processo. Vive-se hoje no país um daqueles momentos caóticos que costumam ocorrer em profundos processos de mudança. A reforma política já iniciou o seu curso. Não se sabe quanto tempo levará para que a transformação se consolide, mas o fato é que a sociedade não deverá sossegar até que se tenha no país um sistema político partidário mais avançado, em linha com uma democracia mais desenvolvida e mais inclusiva.

 

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