14 de dezembro de 2012
Mia Couto, na língua que lhe pertence

Maria Clara R. M. do Prado

Um escritor tem por sua maior companheira a língua que usa para esquadrinhar as palavras, dar-lhes vida na forma de verso ou de prosa. Fazer isso na língua materna, aquela em que aprendemos a falar, na qual rimos e choramos, é como estar em uma festa a bailar uma música conhecida.

Poucos escritores conseguem familiaridade com a escrita em uma língua que não seja a sua. Quando esteve no Brasil, há cerca de um mês, Mia Couto fez reflexões sobre a importância da língua na escrita e falou, em especial, da língua portuguesa e das possibilidades que oferece para escritores criativos como ele . 

A relação do escritor com a língua, algo que ele considera essencial, parece tão atávica ao ofício da escrita de Mia a ponto dele não se imaginar vivendo em um país de outra língua que não a portuguesa. Em Moçambique, terra onde nasceu e se criou, há 20 milhões de pessoas. Nem todas dominam o português, mas ela é a “moradia da gente que escreve”.

Autor de duas dezenas de livros, traduzidos em varias línguas,  biólogo que gosta de falar com as árvores, Mia sente na alma as crenças e a fantasia de um Moçambique que abraça uma diversidade enorme de mundos, no entendimento que ele próprio tem do seu país.

E o que significa para um escritor como ele, escrever em português? Seria ele o mesmo escritor se outra fosse a língua da sua escrita? Talvez não.

Por causa do Brasil, que soube se apropriar com sua cultura e com a influência africana de uma língua que pertence a outro e soube dissociar-se da matriz  com a modernidade da Semana de 22, a língua portuguesa tem uma dinâmica, um aceitar do que é novo, que Mia enaltece. Para ele, o Brasil fez a ruptura do Portugal que estava dentro da língua portuguesa.

“O português oferece esta plasticidade que outras línguas poderão ter menos, é uma plasticidade que se presta à filosofia”, entende ele. Na fantástica entrevista que deu ao Programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 05 do mês passado, Mia Couto notou a distinção que o português faz entre o ser e o estar.

“É uma grande vantagem a nosso favor, esta diferença não é um detalhe. Faz com que a gente faça essa visitação de uma coisa que é tida como uma essência (ser) ou simplesmente de uma coisa que tem uma condição de vivência temporária (estar)”, comentou.

Mia Couto se considera um poeta que escreve em prosa. Sua escrita tem a ousadia de compor novas palavras, brincar com elas, com o jeito de falar de uma nação que ele prefere inventar. Não nega a importância que Guimarães Rosa teve na sua escrita e acha que os brasileiros ainda não se deram conta da importância que teve Jorge Amado nos escritores africanos de língua portuguesa.

Dorme com Fernando Pessoa na cabeceira para beber na fonte, sempre que sente desejo, a essência que faz da sua língua a sua raiz, o seu lugar e o seu tempo. Mia veio lançar no Brasil seu mais novo livro “A Confissão da Leoa”.

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