17 de março de 2011
Momento não recomenda bravatas

(publicado no jornal Valor Econômico em 17/03/2011)

O Brasil não tem um problema de contas externas, mas tem sérios problemas econômicos internos. Todos relacionados ao tripé câmbio/ juros/ inflação. Não são questões novas. Arrastam-se há mais de dez anos. Para ser justa, desde 1995, quando se percebeu que câmbio apreciado era o melhor antídoto contra o retorno à nociva hiperinflação. Todos se lembram do esforço colossal, necessário nos primeiros anos, para perpetuar a estabilização do real.

Nos últimos dez anos, as benesses globais da conjunção inflação baixa e crescimento robusto, em situação de farta liquidez, caíram como luva para garantir a valorização da moeda nacional e, assim, a estabilidade monetária. Ninguém no governo teve, no entanto, coragem sequer de triscar a configuração da sagrada trindade câmbio/ juros/ inflação.

É possível que recaiam sobre o governo da presidente Dilma Rousseff as consequências daquela omissão. Pois o quadro que se delineia nas relações econômicas mundiais a cada dia mostra-se mais e mais distante do período de prosperidade rompido emblematicamente pela “débâcle” do sistema financeiro dos Estados Unidos em 2008.

Diante do tamanho das dificuldades que têm surgido nas economias desenvolvidas e algumas já detectadas na China – a tragédia vivida pelo Japão só agrava o quadro – o Brasil tem diante de si perspectivas complicadas. Debates simplistas sobre meta de inflação, do tipo redução do alvo, expurgo de alguns itens do IPCA, etc.. são absolutamente inócuos. Também se encaixa na gaveta da perda de tempo as 250 mil – podem ser mais, não foram contabilizadas – opiniões sobre câmbio, do tipo põe IOF, represamento de divisas no Banco Central, etc..

Quanto aos juros, tendo em vista o cenário, não se espera nada mais além do cumprimento do papel do Banco Central que é o de zelar pela estabilidade da moeda.

O ponto vital e inequívoco a ser focado é a inflação, que dá sinais perigosos de descontrole. A inflação em si, e não a meta. É fundamental que se retenha isso. De nada adianta ter metas mais baixas de inflação, como defendem alguns, se o real se depreciar ou se os preços externos continuarem em espiral. São coisas intrinsecamente atreladas e a conjuntura mundial não recomenda ousadias nem bravatas.

Diferentemente da realidade anterior, o nível da taxa de câmbio hoje, por mais apreciado que esteja o real, já não compensa a variação de preços de muitos dos produtos importados. Isto vale para combustíveis, produtos químicos, bens duráveis, e outros cujos preços têm aumentado no mercado internacional. Uma realidade bate à porta e não pode ser desconsiderada: a inflação voltou com força nos segmentos de produtos importados pelo Brasil. Até os produtos chineses estão mais caros.

Isso significa, em simples aritmética, que qualquer depreciação do real no momento teria o efeito de encarecer ainda mais os importados, abrindo brecha para contaminar a inflação interna. Mas há outro lado do câmbio, estudado principalmente pelo viés nefasto sobre o aumento de preços, o chamado “pass through”, ou, em tradução livre, “passagem direta”, termo usado para caracterizar a transmissão direta dos movimentos cambiais sobre os preços. É claro que não há uma medida única sobre o impacto de determinada depreciação do real sobre os preços.

A depreciação do real alimentaria a inflação que já caminha, pelas próprias pernas, para um patamar mais alto
Depende das expectativas com relação à própria inflação antes do efeito cambial. Um exemplo: a influência que a descabida e insensata defesa do salário mínimo de R$ 600 teve sobre as previsões. Fato é que, para mais ou para menos, o câmbio afeta os preços em geral. Medidas de indução à depreciação do real, agora, só ajudariam a alimentar a inflação que já caminha, pelas próprias pernas, para um patamar mais alto.

Sabe-se que outros fatores puxam os índices para cima. Um terço dos bens e serviços que compõem o IPCA tem seus preços atrelados à variação de algum tipo de índice. Também gastos correntes abusivos do setor público são fonte de inflação e parece que, no campo das expectativas, o corte de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo federal não teve ainda grandes efeitos. Porém, tudo somado, descontando-se os aumentos sazonais, como o das mensalidades escolares, entre outros, boa parte do aumento de preços projetado pela imaginação coletiva parece ter raiz na reversão da trajetória da economia internacional, que já não ajuda a camuflar as mazelas brasileiras.

Se isso é verdade, se o mundo efetivamente mudou, cabe à presidente Dilma Rousseff e a seu gabinete desempenhar o papel que a legitimidade do poder lhe confere: tentar segurar a inflação a todo custo e adiar medidas que possam piorar o quadro. Ter, enfim, a coragem de dizer ao povo que época de vacas magras se prenuncia e persuadi-lo a rechaçar o aumento dos preços. Poupar hoje para gastar mais adiante. Foi no gogó, além do câmbio, que o real se segurou nos primeiros meses de vida.

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