10 de março de 2016
No piloto automático

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 10/03/2016 no Valor Econômico)

 

Mergulhado na maior crise política da chamada Nova República, com a economia funcionando na base do piloto automático, o Brasil está sem rede de proteção para enfrentar os efeitos da recessão que mantém o mundo em estado letárgico.

O FMI mudou as previsões anteriores e já trabalha com a perspectiva de que a economia mundial continue em retração por mais tempo. O BIS – banco central dos bancos centrais – , em seu relatório trimestral desta semana, enfatiza que 2016 teve um “começo turbulento, com a predominância de um dos piores movimentos de venda no mercado de ações desde a crise financeira de 2008”.

A “turbulência” tem, como pano de fundo, as incertezas quanto à eficácia das políticas monetárias de estímulo ao crescimento. A decisão tomada em janeiro pelo Banco do Japão de operar com taxas de juros negativas está no limite do limite. Há receio de que os bancos centrais dos países desenvolvidos tenham esgotado a capacidade de induzirem a retomada da economia. Isso vem em momento de forte virada na China, onde a tentativa de introduzir uma política de estímulo ao consumo interno – no lugar do estímulo às exportações – parece não estar dando certo.

Taxa de aumento do PIB ao redor de 6,5%, esperada para este ano, é muito baixa para alimentar e garantir mínimo de padrão de vida para 1,3 bilhão de pessoas. Se confirmada, aquela taxa fará com que a China volte ao padrão de crescimento dos idos 1990/1991. O prestigioso Financial Times já decretou o fim do milagre chinês.

Resultado, como se sabe, na vertiginosa queda nos preços das commodities, que fez encolher substancialmente o fluxo do comércio mundial, agravando a delicada situação do sistema financeiro internacional. Os bancos europeus ainda não conseguiram superar as dificuldades que enfrentam desde 2008.

No “World Economic Situation Prospect 2016”, recentemente publicado, a ONU chamou atenção para o impacto nos países em desenvolvimento da queda no influxo de recursos externos. China e Rússia têm sido os mais afetados com a redução do nível de investimentos estrangeiros, mas outros países, como o Brasil, também amargam a retração no ingresso de capitais, em especial dos valores destinados a investimentos em carteira de ações e títulos de renda fixa.

O relatório da ONU lança um alerta à capacidade de alguns países em desenvolvimento honrarem a dívida externa, com o agravante da forte desvalorização cambial observada no grupo, o que encarece o valor das obrigações em moeda local.

Aquele aspecto, aliás, começa a preocupar alguns analistas. Em recente artigo publicado no Project Syndicate, o economista Joseph Stiglitz, conhecido por suas posições radicais, chega a ponto de sugerir a introdução de controles de capitais para os países que têm amargado fortes reduções no ingresso de capitais.

A situação das contas externas no Brasil parece estar ainda longe da calamidade. Com o Banco Central sentado em US$ 359,3 bilhões de reservas internacionais – medidas pelo conceito de liquidez do FMI, em fins de fevereiro deste ano – pode-se dizer que aquele é o único segmento da economia brasileira que inspira certa tranquilidade.

A rápida e substancial desvalorização do real frente às moedas fortes, em especial ao dólar norte-americano, não foi suficiente para compensar a queda de preços internacionais das commodities em geral. Haja vista que, em termos de receita, as exportações dos chamados produtos básicos diminuíram, tendo sido especialmente afetados os produtos do grupo petróleo e o minério de ferro.

Os preços das commodities, excluindo as referenciadas ao petróleo, estão em ritmo de baixa desde 2011, mas foi justamente em 2015 que os preços dos metais sofreram queda mais acentuada. O índice da UNCTAD para minerais, ferrosos e metais acusou redução de 13,3% nos primeiros nove meses do ano passado, enquanto que o índice de preços para commodities agrícolas caiu 12,2% no mesmo período, aprofundando significativamente a mudança nos termos de troca, com efeitos danosos ao PIB dos países mais dependentes daqueles produtos.

A correlação (negativa) com a taxa de câmbio pode ser visualizada no gráfico publicado no relatório do Banco Central em dezembro de 2015 sobre a Gestão das Reservas Internacionais do país. Quanto mais altos os preços das commodities, mais depreciado o dólar frente ao Real.

É certo, por outro lado que o câmbio apresenta agora efeitos positivos nas exportações de manufaturados, apesar da indústria brasileira amargar baixas taxas de produtividade que inviabilizam receitas mais substanciais com a venda no mercado externo.

A balança comercial tem gerado superavits, basicamente pelo efeito da redução das importações que ainda é maior, relativamente, comparado à taxa de crescimento das exportações. Isso ajuda a melhor equilibrar o balanço de pagamentos, mas ainda não se pode projetar grandes ganhos comerciais à frente. Sem dúvida, o ambiente na Argentina melhorou para as exportações brasileiras, mas há incógnitas associadas justamente ao comportamento da atividade econômica mundial. Por exemplo, não há fortes convicções sobre a evolução do PIB nos Estados Unidos: um dia, há estimativas de retomada robusta; no outro, previsões de recuo.

Há dúvidas, especialmente, sobre o prazo de validade do piloto automático em tocar a economia brasileira sem que um desastre maior comprometa setores até aqui ainda resguardados de desvios incontroláveis.

 

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