27 de agosto de 2012
O desespero de Apolonios

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em de 16/08/2012 no Valor Econômico)

Ao chegar ao banco, na manhã daquela segunda-feira, Apolonios foi pego de surpresa. Deparou-se com um aviso pendurado na porta da agência que abrigou as suas economias por muitos anos: “Estamos fechados. Só reabriremos na próxima segunda-feira”. Apolonios perdeu o eixo. Como ele, milhões de compatriotas entraram em pânico. Atenas virou uma praça de guerra, cenário de um alarmante desespero coletivo.

Aos poucos, os comunicados oficiais foram surgindo. O governo grego, em entendimento com a cúpula da União Europeia (UE) e do Banco Central Europeu (BCE), decidiu abandonar a zona do euro. O país estava retornando ao dracma a partir daquela segunda-feira. Todos os bancos ficariam fechados por uma semana, até que se completasse a denominação para a nova (velha) moeda de todas as operações bancárias, de todos os contratos públicos e privados e de toda a dívida soberana. Salários e preços passariam a estar referenciados ao dracma. Toda a conversão seria feita na base de um por um (um dracma para cada euro) até que se concluísse a troca do meio circulante no país. O euro continuaria a circular por certo tempo como meio de troca, mas não mais como unidade de conta. Em paralelo, foram proibidas por prazo indeterminado as remessas de euro para o exterior.

O “corralito”, ao molde argentino, tornou-se necessário justamente para impedir a fuga de recursos do país. O segredo mantido pelas autoridades no processo de alinhavar as providências para uma troca da moeda com os mínimos prejuízos possíveis implicava na necessidade de postergar para depois do anúncio a emissão em massa de cédulas e moedas denominadas em dracma. A surpresa fazia parte do projeto, sob o risco dos bancos gregos ficarem com reservas a zero.

As recomendações acima constam do texto premiado em julho sobre as prováveis medidas para uma saída da zona do euro. “Leaving the euro, a practical guide” (“Abandonando o euro, um guia prático”) foi elaborado pela equipe de economistas da consultoria Capital Economics especialmente para o concurso do Prêmio Wolfson de Economia (uma novidade inventada pelo jovem Lord Simon Wolfson, Baron Wolfson of Aspley Guise, principal executivo da cadeia de varejo inglesa Next e influente patrocinador do partido conservador britânico).

Com o passar dos dias, o dracma tenderia à desvalorização face ao euro e justamente essa nova condição salvaria a Grécia da camisa de força em que se meteu quando decidiu entrar na zona do euro. Perda de competitividade com relação a outros países cujas economias estão atreladas ao euro é um dos principais motivos para a economia grega amargar uma longa e profunda crise. Tudo começou quando o mundo se deu conta de que alguns bancos americanos desenvolveram operações de alavancagem financeira, algumas sofisticadas, tendo como base a dívida pública soberana da Grécia. O tamanho dessa dívida, a insustentabilidade do déficit do governo, os problemas na conta-corrente, os altos salários, os baixos investimentos… de repente um divisor de águas tomou conta da zona do euro: os bons e os maus; os fortes e os fracos!

A desvalorização do padrão monetário é a única forma de tornar a Grécia competitiva, assim como outros países que hoje padecem no euro. Do jeito como essas economias foram administradas, não há condições de competirem com os produtos alemães nem dentro e nem fora da Europa. Se considerarmos o custo unitário médio do fator trabalho, por exemplo, a produtividade pesa menos do que a evolução dos salários.

Custo Unitário do Trabalho – Zona do Euro

A tabela acima mostra como isso evoluiu nos países da zona do euro entre 1999 (quando a moeda foi introduzida) até o ano passado. Fica claro que a produtividade da mão de obra alemã cresceu menos do que a produtividade do trabalhador grego sob a égide do euro. O ganho potencial a favor da Grécia, no entanto, foi mais do que abafado pela evolução dos salários, comparativamente. A mesma realidade vale para a Irlanda. Há situações mais graves: a Espanha teve a maior evolução do custo unitário de mão de obra no período. A Itália amarga evolução zero na produtividade do trabalho.

Outros são os problemas que colocam a economia grega no primeiro lugar da fila de saída. O trabalho vencedor do prêmio Wolfson trata das influências da inflação (consequência da desvalorização cambial) no poder de compra do dracma e, por conseguinte, na evolução dos salários, e como isso pode comprometer a competitividade proporcionada pela desvalorização cambial. Também avalia a questão fiscal e o risco de insolvência dos bancos, entre outros aspectos.

Como todos os demais textos que primam pela análise técnica, ficou de fora justamente o nosso personagem Apolonios. Ou seja, a reação dos políticos e dos cidadãos gregos em geral à substituição de uma moeda forte por outra, mais fraca. É fácil trabalhar com a hipótese de sucesso quando uma moeda inflacionada, com poder de compra caminhando para zero, como o cruzeiro real nos seus últimos meses de vida, é substituída por outra que todos vislumbram como a salvação monetária. Mas não há exemplo de caso contrário. É difícil imaginar euforia e credibilidade em uma moeda que já nasceria com a pecha da ineficiência!

Os comentários estão fechados.