16 de agosto de 2013
O Fed e as operações compromissadas

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 15/08/2013 no Valor Econômico)

Operação compromissada é o nome que se dá às transações entre o banco central e as instituições financeiras com vistas a regular o nível mais apropriado de reservas (dinheiro em “cash”) que os bancos devem ter em caixa vis a vis o objetivo de determinada taxa de juros de curto prazo.

Tais operações se realizam por meio da compra e da venda de títulos de renda fixa – normalmente, títulos do Tesouro – com cláusulas de revenda e de recompra, respectivamente. Ou seja, funciona como uma espécie de “porta” pela qual o Banco Central injeta ou recolhe liquidez da economia, por meio do sistema bancário.

Ao contrário do que alguns acreditam, essas operações não têm a função de financiar o Tesouro e nem contribuem para ampliar o endividamento público.

A taxa de juros de curto prazo é o principal instrumento de política monetária na era do regime de meta de inflação, mas os BCs podem fazer uso do mecanismo das operações compromissadas para recolher ou injetar mais recursos no sistema financeiro por meio da compra de títulos, com o compromisso de revendê-los de volta em determinado prazo. Essas operações, que normalmente envolvem uma pequena fatia do total de liquidez em circulação, poderiam ser classificadas de instrumento secundário no gerenciamento da política monetária no dia-a-dia.

Foi a elas que o Fed (o banco central dos Estados Unidos) recorreu maciçamente depois de 2008, a partir da crise financeira, na tentativa de reverter o franco processo de retração da economia americana. Optou-se pelo “second best” da política monetária, pois o “first best”, o instrumento dos juros, já então próximo de zero, havia esgotado sua eficácia.

Nos últimos cinco anos, nada menos do que US$ 3 trilhões (um pouco mais, em verdade) foram injetados pelo Fed por meio das operações compromissadas com a compra dos mais diversos tipos de ativos antes que fizessem água em mãos do setor privado. A opção do Fed pautou-se pela certeza de que conseguiria “salvar” os preços dos ativos em geral – públicos e privados – mantendo em níveis baixos os seus rendimentos.

Os detentores originais daqueles ativos, fossem eles empresários, fundos de investimento, aposentados ou credores de financiamentos imobiliários, entre outros, se beneficiariam na medida que o processo de desvalorização seria estancado. Ao mesmo tempo, ganhariam fôlego, pelo chamado “efeito riqueza”, para renegociarem suas dívidas por taxas mais acessíveis ao menor nível de renda.

Depois de tanto tempo, o que se vê é uma economia ainda relutante em termos de recuperação. Os bancos não repassaram para os tomadores finais grande parte da liquidez que receberam nas operações de “quantitative easing”, ou simplesmente QE.

Ao contrário, muitos reverteram parte da liquidez de volta para o próprio Fed: os depósitos de reservas bancárias na autoridade monetária dos Estados Unidos aumentaram exponencialmente e hoje representam cerca de US$ 1 trilhão. Os bancos recebem por esses depósitos juros de 0,25%, em linha com o nível dos juros de curto prazo, e ainda têm o benefício da total segurança da aplicação. Esse comportamento ajudou a afetar o mercado de taxa de câmbio, levando à depreciação do dólar.

O que ficou no mercado tem sido usado para melhorar o “cash-flow” de algumas empresas, mas não tem se convertido em aumento significativamente proporcional de investimentos, nem de geração de empregos ou melhoria nos salários e na renda em geral. As pessoas nos Estados Unidos não se sentem aparentemente mais ricas, comprometendo assim a aposta feita pelo presidente do Fed, Ben Bernanke. Salvo algumas poucas localidades muito específicas, o mercado imobiliário nos Estados Unidos continua extremamente fraco.

O temor de que a política do Fed tenha em verdade contribuído para a formação de uma grande bolha, sustentada por preços artificialmente inflados, é o principal ponto de preocupação na cabeça de todos desde que o próprio Bernanke sinalizou em maio com a redução da política de compra de ativos, adquiridos com o compromisso de serem revendidos ao mercado. Quando isso acontecerá e de que forma, não se sabe, mas sem dúvida motivo de preocupação não falta e o aumento dos juros no longo prazo é um sinal inequívoco das incertezas no horizonte.

Também a valorização do dólar se encaixa no mesmo contexto, com o agravante de que, a manter-se em alta, terá efeito danoso na própria economia americana com a potencial reversão de saldos comerciais positivos de volta à fase dos déficits. Os chineses devem estar festejando!

A volatilidade deve estender-se pelo menos até o final de setembro, quando se espera seja anunciado o nome do novo presidente do Fed, disputado hoje entre a vice-presidente da instituição, Janet Yellen, e o controverso Lawrence Summers, conhecido pela sua arrogância, que muitas vezes nos últimos anos não poupou críticas à política de Bernanke.

Qualquer que seja o escolhido, a missão de desconstruir a montanha de QE sustentada nos últimos anos não será nada fácil. Se o substituto de Bernanke não se apresentar de imediato com um plano de desmonte gradual dos ativos represados no Fed, pode-se tomar como certo uma larga temporada de novas e fortes emoções.

 

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