18 de abril de 2015
O sentido do sem sentido na obra de Gonçalo M. Tavares

por Maria Clara R. M. do Prado

 

A surpresa foi grande. Talvez pela ignorância sobre o jeito do autor, não como escritor, porque esse é mais fácil de saber, indicam os livros, mas daquela pessoa, ali à frente, a falar de coisas que fazem sentido, mas que se colocam sem a pretensão de fazerem sentido.

Gonçalo M. Tavares, escritor português nascido em Luanda, supreende pela simplicidade com que enxerga o mundo na essência. Fala daquilo que se poderia tomar como óbvio, mas que somente a muito poucos cabe captar.

“Não há distâncias, não há diferença de gêneros, se eu carrego na minha mochila um livro de Eurípedes e um livro do Joyce, juntos, não há distância entre eles”, disse, provocando a pequena audiência que o ouvia na Livraria Cultura, no Iguatemi, no sábado passado. A idéia de não há diferença de tempo entre dois livros estão lado a lado, sendo carregados juntos pela mesma pessoa, pelo mesmo leitor, não é absurda, mas está longe de ser trivial.

Gonçalo, em São Paulo. Foto de Mariza Baur

Autor de 34 obras, entre romances, contos, poesia, ensaios, Gonçalo repudia a forma e enaltece a palavra. Os livros são animais diferentes que se definem ao serem escritos. “A forma é inibidora”, comenta. “O material é a palavra, escreve-se textos, pouco importa a forma”. Afinal, tudo começa no alfabeto, nas letras que dão vida aos textos, sejam eles o que forem.

E a pontuação? Ela é a respiração que dá ritmo à velocidade da narrativa. Permite que o leitor faça uma pausa e levante os olhos do texto para pensar, refletindo sobre o que acabou de ler. Este é momento em que, para Gonçalo, o livro realmente é escrito.

E pensar, a partir dos livros de Gonçalo, é lidar com situações extremas, cada uma com a sua história, marcadas pela inquietude existencial.

O elo com as preocupações metafísicas do cineasta russo e teórico do cinema, Andrei Tarkovsky, é evidente e a influência, incontestável: “Sempre revejo os filmes de Tarkovsky”.

As situações extremas estão presentes em Uma Menina Está Perdida no seu Século a Procura do Pai, onde uma criança com síndrome de Down encontra, ao invés do pai, um homem que está fugindo não se sabe bem de que, nem de quem. 

Uma relação insólita de dependência une os dois personagens que partilham o mesmo caminho, em uma viagem que os coloca diante de figuras e de experiências fora do usual. O livro foi lançado em 2014.

Também prevalecem personagens inusitados no enredo de Os Velhos Também Querem Viver, onde o protagonista, Admeto, amigo de Apolo, recebe à beira da morte a informação do seu amigo deus de que poderá viver se outra pessoa se dispuser a morrer em seu lugar.

Alceste, a amada esposa, que Gonçalo tomou emprestada de Eurípedes, prontifica-se ao sacrifício, mas, embora tendo aceitado, Admeto questiona o fato do pai, por ser já idoso, não ter ele se apresentado para substitui-lo no leito de morte. O escritor deixa claro a perspectiva de que não há meia vida, nem meio quarto de vida.

“Um ser humano vale um ser humano e os idosos, apesar de idosos, entendem que a vida deles vale o mesmo que a vida de outro”, é o sentido do que pode parecer sem sentido na mais recente obra de Gonçalo M. Tavares.

Há outros exemplos, como do homem desempregado que arranja o emprego de usar os próprios braços em funções que não podem ser desempenhadas pela mulher que o emprega e que não tem braços em Matteo Perdeu o Emprego. Já na epopéia Uma Viagem à Índia, ele conta a história de um homem que não tem medo da morte.

E assim se compõe o mundo magnífico da obra de Gonçalo M. Tavares que se consagrou como escritor com Jerusalém, aos 35 anos de idade. Para ele, a unica maneira de se viver é em circunferência, ou seja, buscando aprofundar cada vez mais e com maior foco aquilo que se sabe fazer.       

 

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