17 de junho de 2010
Para onde vai o euro?

(publicado no jornal Valor Econômico em 17/06/2010)

A crise econômico-financeira que afeta boa parte dos países integrantes da zona do euro começa a contaminar a credibilidade da moeda entre os cidadãos da própria área da união monetária.

Aqui e ali, movimentos contra o euro, inimagináveis há menos de um ano, têm surgido com grande repercussão. Em Berlim, ganha destaque uma campanha popular pela volta do marco alemão. A indignação da opinião pública contra a ajuda financeira concedida à Grécia é geral e já atinge fortemente a reputação política da presidente Angela Merkel e dos dirigentes da União Europeia. Os cidadãos alemães já pagaram caro, nos últimos anos, pela unificação do país, pela política interna de aumento de produtividade e pelas restrições impostas às aposentadorias e não estão satisfeitos em assumir mais um custo que, a rigor, não lhes diz respeito.

Em Portugal, a revista semanal “Sábado” desta semana traz um artigo interessante com as várias implicações da ressurreição do escudo. Sob o título “Viver sem o euro”, aponta, entre as vantagens, para o aumento de competitividade das exportações. Resultaria da desvalorização imediata do escudo, estimada por especialistas entre 30% e 40% com relação ao euro.

Entre as desvantagens, está obviamente a inflação, uma vez que a volta da moeda velha implicaria no aumento do custo da importação de produtos básicos para o consumo interno, como arroz, leite e carne, entre outros. Essas questões também afetariam a peseta espanhola, a dracma grega, a lira italiana ou a libra irlandesa se a temerosa ideia de reintrodução das moedas velhas viesse a ser implementada. Isso, sem mencionar a tremenda crise bancária que o abandono do euro por alguns países provocaria, em especial nos bancos alemães que estão abarrotados de ativos do chamado Met Club, como passou a ser denominado o grupo de países da zona do euro banhados pelo Mediterrâneo. Portugal estaria geograficamente fora, mas pelas características está incluído no mesmo clube.

Já não há dúvidas, após a crise da Grécia, sobre a culpa da frouxidão com que os dirigentes máximos da UE monitoraram os limites impostos ao déficit fiscal e à dívida pública, algumas das condições mais importantes para a adesão e permanência como membro da política monetária unificada.

Fica claro também que há um buraco negro difícil de transpor entre a unificação monetária e a unificação política da UE, mas algo precisa ser feito porque as discrepâncias entre os mais ricos e os mais pobres são imensas. Neste mês, um texto de dois economistas do Departamento Europeu do FMI chama atenção para o largo e crescente déficit nas contas correntes do Met Club. “Current Account Imbalances in the Southern Euro Area” (“Desequilíbrios da conta corrente na Área Sul do Euro”), de Florence Jaumotte e Piyaporn Sodsriwiboon, mostra que aqueles déficits têm sido causados pelo declínio na taxa de poupança privada. Essa situação teria sido estimulada pela adesão ao euro que, ao facilitar os investimentos e aumentar o acesso à poupança externa, induziu a maiores déficits em conta corrente.

Como países da área sul do euro os autores classificam Chipre, Grécia, Itália, Malta, Portugal, Eslovênia e Espanha. Na média, a taxa de poupança privada caiu o equivalente a 10% do PIB entre 1994 e 2008, enquanto que as taxas de investimentos subiram, em média, 2% do PIB (boa parte na construção civil que não ajuda nas trocas externas) e as taxas de poupança pública aumentaram em cerca de 2% do PIB no período. O déficit em conta corrente – pulou de um superávit de 0,1% do PIB, em média, em 1994, para déficit de até 10% do PIB em 2008 – foi agravado com a deterioração das balanças comerciais daqueles países pela perda de competitividade.

Por falta de eficiência naquelas economias e altos custos da mão de obra em euros, a nova moeda funcionou nos países do Met Club com forte apreciação cambial efetiva desde o final dos anos 90. Considerando os índices de preços, aqueles países incorreram em apreciações reais que variam de 10% a 16% no período de dez anos, até 2008. Quando calculado em função do custo da unidade de trabalho na indústria manufatureira, a taxa de câmbio efetiva real apresenta uma apreciação de cerca de 25%, em média, enquanto que nos países do Norte da Europa, mais desenvolvidos, considerando a mesma base do custo da mão de obra, ocorreu no período uma depreciação da taxa efetiva de câmbio real de cerca de 8%, em média.

A recomendação para reduzir a disparidade econômica entre o norte e o sul na zona da moeda única requer forte vontade e liderança política.

Na edição da última semana de maio da revista francesa “Le Point”, os ex-presidentes da França e da Alemanha, Valéry Giscard d´Estaing e Helmut Schmidt, assinaram em conjunto artigo em defesa do euro, pedindo maior entrosamento entre os dirigentes franceses e alemães nesta fase de ajustes e uma série de medidas, como a submissão dos orçamentos ao conselho de dirigentes da zona do euro antes de serem apresentados aos respectivos parlamentos de cada país, um calendário de redução dos déficits públicos além de medidas de regulação financeira e de combate à especulação e, finalmente, a criação de um mecanismo de estabilização financeira para a zona do euro. Espera-se que alguma luz surja até meados do ano.

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