30 de maio de 2017
Real – O plano por trás da História rememora a façanha do Plano Real

(artigo publicado na Revista Época, edição de 22/05/2017, págs. 64 a 67)

MARIA CLARA R. M. DO PRADO

 

Em maio de 1993, recém-instalado no cargo de ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso percebeu que tinha pela frente a grande missão de combater a inflação, que crescia em ritmo de espiral e erodia todos os dias o poder de compra da moeda brasileira. Circulava então o cruzeiro, que, em julho daquele ano, virou cruzeiro real. Em março de 1994, há 23 anos portanto, o cruzeiro real ganhou a companhia de uma moeda virtual, a URV – Unidade Real de Valor –, uma espécie de mágica que os brasileiros demoraram a entender e que abriu o caminho para o lançamento de uma nova moeda, o real, em 1º de julho de 1994.

Do ponto de vista político, vivia-se uma fase de incertezas desde a renúncia do ex-presidente Fernando Collor de Mello, no final de 1992. A posse de Itamar Franco na Presidência da República, com o apoio do Congresso Nacional, trouxe certa calmaria, mas não suficiente segurança para destravar o funcionamento da economia e recuperar a confiança da sociedade, ainda traumatizada pelo confisco do Plano Collor.

De julho de 1993, quando Fernando Henrique começou a formar uma equipe de economistas familiarizados com o estudo da inflação, a meados de 1994, quando o Real dava seus primeiros passos como moeda, um incessante ritmo de trabalho pautou as atividades da área econômica do governo. As reuniões, a princípio esporádicas, tornaram-se cada vez mais frequentes até passarem a diárias com o objetivo de dar forma, substância e viabilidade, principalmente jurídica, ao Plano Real. O ritmo frenético de trabalho é o pano de fundo do filme

De julho de 1993, quando Fernando Henrique começou a formar uma equipe de economistas familiarizados com o estudo da inflação, a meados de 1994, quando o Real dava seus primeiros passos como moeda, um incessante ritmo de trabalho pautou as atividades da área econômica do governo. As reuniões, a princípio esporádicas, tornaram-se cada vez mais frequentes até passarem a diárias com o objetivo de dar forma, substância e viabilidade, principalmente jurídica, ao Plano Real. O ritmo frenético de trabalho é o pano de fundo do filme Real – O plano por trás da História, dirigido por Rodrigo Bittencourt, lançado na semana passada. Ele busca reproduzir na tela os momentos de tensão que marcaram as discussões da equipe do Real.

A etapa mais significativa do processo gradual de confecção do plano foi a criação da URV, um grande indexador que represou a inflação, enquanto a alta dos preços continuava contaminando o deteriorado cruzeiro real. A URV manteve-se estável nos quatro meses de sua vigência, com seu valor atrelado à variação dos índices de preços e em paridade com a taxa de câmbio. Na virada de 30 de junho para o dia 1o de julho, 1 URV valia 1 real, que, por sua vez,  valia 1 dólar.

A concepção da URV não surgiu do nada. Foi engendrada a partir de uma tese da dupla de economistas Pérsio Arida e André Lara Resende apresentada em Washington no final de 1984. O paper Inflação inercial e reforma monetária: Brasil propôs a criação de uma moeda indexada – originalmente, sob a forma de um título público – que se manteria imune aos efeitos da inflação. Ficou conhecido como o Plano Larida, uma ideia engenhosa para garantir o desaparecimento da memória inflacionária, algo que Pérsio e André consideravam fundamental no combate à inflação brasileira.

Foi o câmbio o grande fator de discordâncias dentro da equipe econômica. Ao longo do dia 1º de julho de 1994, quando a nova moeda entrou efetivamente em circulação, o Banco Central arbitrou uma valorização cambial do real ante o dólar. Foi um movimento que ajudou a sustentar o valor de compra da nova moeda durante um bom tempo. Em agosto, porém, a estratégia passou a suscitar sérias disputas dentro da área econômica do governo. Pérsio Arida, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), defendia uma relação cambial mais realista entre o real e o dólar. Gustavo Franco, diretor da Área Internacional do BC, insistia no aprofundamento da valorização do real.

A diferença entre os dois com relação à política cambial prosseguiu nos meses que se seguiram e atingiu o auge em março de 1995. Na ocasião, o BC formalizou uma regra de administração cambial, que manteve a moeda nacional valorizada. Como se recorda, a questão só foi resolvida definitivamente em janeiro de 1999, com a reação do mercado que levou o BC ao corner e forçou uma mudança na política cambial.

O Plano Real teve vários pilares. O mais forte foi a URV, mas sem dúvida o câmbio funcionou como uma importante âncora na partida, ao garantir a estabilidade da inflação pelo efeito do estímulo às importações. Outra âncora foi a taxa de juros, substancialmente elevada como forma de atrair investimentos de fora e de assegurar o financiamento ao déficit público.

Houve também a âncora da confiabilidade na figura de Rubens Ricupero, que assumiu o Ministério da Fazenda quando FHC se desincompatibilizou para candidatar-se à Presidência da República pelo PSDB, em 30 de março de 1994. Na principal cadeira da Fazenda, Ricupero tornou-se um garoto-propaganda incansável do Plano. Seus pronunciamentos em cadeia de rádio e TV dirigiam uma palavra de confiança ao povo e preparavam o terreno para que as pessoas se acostumassem com a ideia de que uma nova moeda estava em gestação para trazer estabilidade e poder de compra aos salários dos brasileiros. Sua atuação foi fundamental para criar uma expectativa positiva com relação ao Real.

 

 Equipe do Real reunida com o então presidente Itamar Franco (foto publicada na revista Época, edição de 22/05/2017, página 67)

 

Não se pode esquecer que o país vinha de pelo menos quatro grandes tentativas frustradas de estabilização: os planos Cruzado, Collor, Bresser e Verão. Todos trabalharam com o congelamento de preços e o mecanismo da tablita para a conversão dos contratos da moeda velha para a moeda nova.

Com o Plano Real foi tudo diferente. FHC convenceu os políticos de que congelamento de preços não funcionaria mais como estratégia para a estabilidade. Também não houve tablita, mas uma regra de conversão para os contratos que tinha a URV como ponto de referência. Foi um plano sofisticado, de difícil implementação e até de entendimento. O FMI só se convenceu de que o plano fazia sentido quando a nova moeda já estava lançada e em plena vigência.

O Real marcou para sempre a vida das pessoas que tiveram a chance de participar do projeto de estabilização que acabou com a memória inflacionária. Dificilmente se repetirá tão cedo algo parecido no Brasil, um país que continua a viver aos sobressaltos. Em meio ao ambiente de perplexidade política destes últimos tempos, o único indicador econômico estável é a inflação. O sucesso do Plano Real está consolidado.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um comentário para “Real – O plano por trás da História rememora a façanha do Plano Real”

  1. marco bittencourt disse:

    Fiquei intrigado com o filme que está na praça sobre o Plano Real. Não gostei e muita coisa não batia com as minhas informações. Me lembrei que há algum tempo tinha comprado seu livro e que estava adormecendo na minha estante. Foi a minha salvação e fiquei bastante surpreso. O Plano Real tem que ter , para os economistas, como âncora intelectual Andre Lara Resende e Pérsio Arida. Colocaram,nesse filme, no pedestal o Gustavo Franco, FHC e desmoralizaram o Itamar Franco. O Persio Arida também saiu prejudicado no filme. Evidentemente, não identifico nada que assim pudesse ser. Quanto a qualidade do filme, anos luz distante daquele na mesma temática: A grande aposta. Neste filme a Grande Aposta me identifiquei plenamente e tudo bateu com minhas observações. O que está me salvando em minhas analises sobre o filme é o seu sensacional livro sobre o Plano Real. Confesso que por se tratar de jornalista fiquei com um pé atrás e a preguiça postergou minha leitura. Mas você dá uma aula de economia , de historia e de jornalismo. Parabéns pelo livro e pena que esteja aposentado e não esteja mais ensinando economia brasileira na UCB. Certamente, seu livro seria leitura obrigatória em meus cursos.