13 de outubro de 2016
Recomendações Difíceis de Conciliar

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Económico em 13/10/2016)

 

Uma incompatibilidade de essência nas políticas sugeridas para tirar o mundo da estagnação económica sobressai nos discursos, entrevistas e publicações dadas a conhecimento público ao longo da reunião anual do FMI e do Banco Mundial, encerrada esta semana em Washington.

Com ênfase – e a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, marcou posição no tema – chamou-se atenção para a necessidade urgente de políticas direcionadas à maior inclusão social da população que ficou à margem do processo de globalização e aos desempregados da crise financeira deflagrada em 2008.  As recomendações apontaram para a volta dos benefícios sociais e o aumento dos gastos fiscais com as camadas de renda mais baixa de modo a serem reintegradas ao processo económico.

Em direção oposta, o mesmo FMI instou os representantes dos 189 países-membros a atuarem com vistas a manterem em curso as políticas de abertura económica, de cooperação internacional e de livre fluxo de bens, capitais e recursos humanos em prol da sobrevivência da globalização.

Em verdade, as recomendações colocam os governos diante de um impasse: ou bem se resgata as políticas intervencionistas que predominaram nos anos 70 e 80 do século XX, com esquemas de proteção social e benefícios às classes consideradas mais pobres e necessitadas da sociedade, ou bem se opta por reafirmar as iniciativas de cunho liberal que deixaram na mão dos mercados a decisão sobre onde e como alocar os recursos económicos disponíveis.

Sem dúvida, sob o manto da globalização o mundo produziu taxas significativas de crescimento e colocou todos os países na cesta da prosperidade quando se mede em termos de evolução do PIB. Individualmente, no entanto, um acentuado processo de desigualdade, em termos de renda, de oportunidades e de inserção acabou por sedimentar discrepantes realidades sociais em diversos países, em especial nos mais desenvolvidos, justamente aqueles que haviam abandonado as políticas sociais em favor do liberalismo do mercado.

Brexit, Trump e os crescentes movimentos políticos de extrema direita em expansão principalmente na Europa não surgiram do nada. São frutos do descontentamento dos segmentos da população que não se sentiram beneficiados pelo boom económico alavancado pela globalização.

No grupo dos descontentes estão, engalfinhados, os pobres que já eram pobres, e aos poucos deixaram de receber suporte financeiro de seus governos, e a classe média que, ao invés de prosperar, viu-se empurrada para baixo a partir de 2008, sem perspectivas de emprego, de acesso a bons serviços de saúde e às oportunidades de educação.

Donald Trump nos Estados Unidos só existe no atual quadro político por culpa das reações aos efeitos sociais da globalização em seu país. Do mesmo modo, o Brexit só se tornou realidade por força das velhinhas e velhinhos das pequenas cidades do interior, além dos desempregados que não se beneficiaram dos anos de expansão no Reino Unido.

O mesmo pode-se dizer dos eleitores de Norbert Hofer, o líder do austríaco Partido da Liberdade (FPÖ), da extrema-direita, que quase venceu as eleições canceladas de maio e voltou à corrida eleitoral com grandes chances de ganhar no dia quatro de dezembro, nova data fixada para o pleito.

Como a maioria dos partidos radicais de direita que têm crescido expressivamente nos últimos anos, o FPÖ é xenofóbico, reacionário e populista, características também do Partido Populista Lei e Justiça – PiS – que venceu as eleições na Polónia em 2015 e tem se colocado, entre outras aberrações, contra os ciclistas e os vegetarianos (símbolos de uma Europa sem identidade, segundo seus partidários).

Recentemente, o PiD sofreu grande derrota no parlamento, graças ao ativo movimento das mulheres polonesas que se levantaram em massa contra a proposta do governo de proibir terminantemente qualquer tipo de aborto.

A lista é extensa. Abrange desde a Frente Nacional da França, de Marine Le Pen e o partido neo-nazista Alternativa pela Alemanha (PND), que ficou em segundo lugar nas recentes eleições realizadas no estado Mecklesburg-Western Pommerania (superando o partido de Angela Merkel), além do Partido pela Liberdade, liderado pelo nacionalista Geert Wilders na Holanda, do Partido Popular Suíço, cujas ideias radicais são reforçadas pela aliança com o ultradireitista União Democrática de Centro, e dos igualmente reacionários União Nacional Ataque da Bulgária, Partido Eslovaco Nacional e Partido da Grande Roménia.

Isso sem falar nos partidos nacionalistas radicais da Escandinávia e do Fidesz, que nasceu na Hungria como socialdemocrata e hoje confere ao governo de Viktor Orban uma atuação baseada no autoritarismo e no populismo de direita.

Todos eles crescem na Europa com um discurso que defende o fechamento das fronteiras e a marginalização dos cidadãos estrangeiros de etnia não-européia, com promessas populistas de melhoria de condições de vida aos verdadeiros nacionais. A temática, aqui, assemelha-se às bandeiras dos antigos partidos da socialdemocracia, com a diferença de que os benefícios não são universais. Ao estado de bem-estar social apregoado pelos radicais de direita só teriam acesso os entes originais.

O FMI seguramente está atento ao “mundo de fragmentação política e económica que tem promovido uma profunda mudança no cenário global”, nas palavras de um de seus representantes. Mas percebe-se que, a despeito da forte torcida pela volta do crescimento económico em bases globais, não tem a menor ideia do que pode ser feito para impulsionar a expansão dos PIBs em uma atmosfera política francamente favorável à intervenção do estado e ao protecionismo.

 

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