Posts com a Tag ‘Congresso Nacional’

25 de julho de 2017
A sede pela preservação do poder

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 25/07/2017)

 

Deslumbrado com a exuberância da floresta amazônica, com a pujança de São Paulo e com a criatividade do povo, Stefan Zweig, escritor austríaco e autor, entre outros, do livro Brasil, um País do Futuro (1941), impôs ao país a marca que ficaria para sempre registrada no imaginário popular. A sensação de um futuro que nunca chegará, de um futuro eterno e inalcançável, acabou por firmar-se, com os desmandos e a mediocridade prevalente no sistema político, como a mais realística interpretação do vaticínio de Zweig.

Já se disse que no Brasil até o passado é incerto. O futuro, então, não passaria de uma miragem recheada por um misto de devaneio, esperança e torcida. Via de regra, o futuro dificilmente se confirma no presente, o que o coloca sempre mais distante.

Pior do que um futuro fora de alcance é a cegueira que persiste em não querer enxergar o futuro como desdobramento natural das condições conforme se apresentam no presente.

O aumento de impostos determinado pelo governo sobre o preço dos combustíveis é um exemplo claro da resistência em perceber que a ampliação da carga tributária seria, mais uma vez, a alternativa para compatibilizar a receita com a despesa do setor público diante do tremendo quadro de recessão que tem afetado o país nos últimos três anos.

Não basta o eufemismo, nem o marketing político. O crescimento da economia depende da conjugação de vários fatores, como se sabe, mas tem hoje estreita relação com a absoluta incerteza quanto à situação política atual e, ainda mais obscuro, com a sucessão presidencial em janeiro de 2019.

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23 de abril de 2015
Mais confuso, impossível

por Maria Clara R. M. do Prado

 

O nível de incongruência a que chegaram os partidos políticos brasileiros talvez não tenha paralelo em nenhum outro lugar e em nenhuma outra época. De um lado, parece que baixou o “barata voa” no Congresso Nacional, tal é o paroxismo a que chegaram deputados e senadores.

Agem desvinculados de qualquer orientação ideológica partidária, a mercê, muitos, da insensatez de líderes que não estão preocupados com a biografia de ninguém, nem mesmo com a própria. Enxergam apenas o aqui e o agora, alijados de qualquer sintonia com o bom senso. Confundem autoridade com autoritarismo.

Individualmente, os políticos reforçam o ambiente de desconexão com uma sociedade que há 30 anos, desde a democratização, vem consolidando alto grau de complexidade, com interesses difusos, ambições alargadas e vozes de diferentes camadas sociais que não se intimidam diante da insatisfação.

O confronto entre classes é inevitável. E não é novidade. Aconteceu ao longo do processo de amadurecimento de toda sociedade que optou, ao fim e ao cabo, por manter e prestigiar as instituições democráticas, aquelas que são responsáveis justamente pela mediação do confronto, garantindo a convivência civilizada de todos os cidadãos, apesar da diferença de opiniões e da diversidade de interesses.

Escolhidos como representantes da sociedade para abrigar o debate divergente e tirar dele o consenso que deve nortear as leis, os políticos funcionam como corpo essencial do sistema institucional que zela pela democracia. Ou, dito de outra forma, pela harmonia entre as diferenças.  Mas eles não conseguiram, infelizmente, acompanhar a evolução da sociedade brasileira. Comportam-se como se as pessoas ainda se sujeitassem a parâmetros e ideias impostos de cima para baixo, como se a massa não tivesse se transformado em cidadãos.

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22 de outubro de 2014
Visão equivocada confunde eleitor

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 22/10/2014

As democracias desenvolvidas – solidificadas há pelo menos um século – evoluíram para o bipartidarismo na disputa pelo poder político, seja na esfera do Executivo, seja no Legislativo. É o caso dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outros países, onde a preferência do eleitorado se divide entre dois polos, identificados pelo que os difere ideologicamente. As eleições são decididas pelos eleitores “swings”, ou seja, por uma pequena margem de votantes que costuma oscilar de um lado para outro. As campanhas eleitorais focam, essencialmente, no voto dessa pequena parcela do eleitorado.

A estreita margem entre os candidatos nas pesquisas neste segundo turno da eleição presidencial brasileira tem apresentado um perfil similar ao das democracias mais desenvolvidas. Teria a jovem democracia brasileira conseguido alcançar um estágio mais avançado nesses 25 anos de existência, o mais longo período democrático contínuo do país em 514 anos de história? A resposta é não. Os motivos são vários.

Para começar, o bipartidarismo ou um sistema composto por poucos e expressivos partidos, é inexistente. Os 28 partidos que terão assento no Congresso Nacional a partir de janeiro – com 18 diferentes agremiações no Senado – são potenciais candidatos a replicarem o comportamento padrão do “é dando que se recebe”, das maracutaias, da compra de votos, da prevalência do privado sobre o público.

Além disso, a proliferação partidária abre espaço para esdrúxulas composições regionais que comprometem a identidade política dos partidos e confundem o eleitorado. Esse “saco de gatos”, para dizer o mínimo, está longe de caracterizar uma democracia evoluída.

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