Posts com a Tag ‘consumo’

13 de fevereiro de 2015
Piketty e a desigualdade

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 12/02/2015)

 

“Eu não vivo na guerra fria, talvez algumas pessoas vivam, mas isso é problema delas, não meu”. A frase de Thomas Piketty, o celebrado economista francês, autor do best-seller “O Capital no Século XXI”, expõe a diferença que tende a marcar o pensamento entre aqueles que cresceram e se formaram na época da “cortina de ferro” e a geração que cresceu sob os efeitos da globalização. Ela responde, a rigor, às avaliações dos que acreditam em um viés ideológico do livro pelo fato deste defender maior taxação sobre os ricos como forma de reequilibrar a distribuição de renda no mundo, agravada desde a segunda guerra mundial.

Piketty é de esquerda? Tem simpatias pelo comunismo? Tenta reeditar os preceitos de Karl Marx? A frase dele, dita no final do Roda-Viva, transmitido pela TV Cultura na última segunda-feira, respondia à dúvida levantada no programa sobre a sua preferência ideológica, denotando o preconceito que ainda cerca o tema da distribuição de renda na sociedade brasileira.

E por que a frase dele merece destaque? Porque ela tem o poder de resumir, na sua simplicidade, as diferenças de abordagem de temas considerados verdadeiros tabus na época da guerra fria. Piketty, conforme ele mesmo informou no auge do debate do Roda-Viva, nasceu em 1971. “Fiz 18 anos em 1989, com a queda do muro de Berlim, não sou da primeira geração da guerra fria, acredito em propriedade privada, no capitalismo e nas forças de mercado, mas também acredito que precisamos de fortes instituições democráticas que coloquem o seu poder a serviço do interesse comum”, disse ele, com certa ênfase. [ leia mais ]

24 de fevereiro de 2014
Renda, de volta a 1964

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 20/02/2014 no Valor Econômico)

 

Às vésperas da data que marcará os 50 anos do golpe militar de 1964, o Brasil depara-se com um fato extraordinário e muito revelador: a distribuição de renda, medida pelo índice Gini, voltou praticamente ao que era em 1960.

A economia brasileira poderia estar hoje em patamar mais avançado em termos de renda, de mercado e de investimentos, não fossem as políticas de concentração dos anos 60 e 70, a consequente década da crise do endividamento, e as hiperinflações que comeram a renda, principalmente das classes mais baixas, entre o final da década de 80 e a primeira metade dos anos 90. Ufa! Quanto desastre acumulado!

O último índice Gini apurado pelo Ipea – que tem sido usado pelo governo como referencial – é de 2012, apontando para um nível de 0,530 de desigualdade, algo mais próximo de uma sociedade minimamente mais equilibrada, resultado de muito suor no combate à inflação, de políticas distributivas de renda e de um pujante mercado de trabalho.

Todo o esforço ocorrido nos últimos vinte anos, desde o Plano Real, conseguiu recolocar o índice Gini no mesmo patamar de 0,530 em 1960, contabilizado segundo as pesquisas desenvolvidas na época, tomando por base os censos de 1960 e de 1970. Não se conhece ainda o índice Gini do Ipea para 2013.

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17 de maio de 2013
A culpa é do Gorbatchev!

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 16/05/13 no Valor Econômico)

A imprescindibilidade do crescimento econômico para a conquista da riqueza, que reforçou as bases do sistema capitalista a partir da Segunda Guerra Mundial, tem sido questionada nos anos recentes por alguns economistas, com o argumento de que o uso dos recursos naturais teria chegado ao ponto de exaustão. O planeta Terra não aguentaria novos ciclos de expansão econômica.

A novidade não está na tese, mas no maior número de economistas que passou a aceitá-la no século XXI. Herman Daly trabalhou parte de sua vida no Banco Mundial (de 1988 a 1994) tentando convencer seus colegas da importância da preservação do meio ambiente para o crescimento econômico, sem muito sucesso.

Serge Latouche, da Universidade de Paris-Sul, desde os anos 1960 escreve sobre o assunto na condição de filósofo, cientista político e economista. Entre os vários livros e artigos, escreveu o texto “Why less should be so much more: degrowth economics” (Por que menos deveria ser muito mais: economia do decrescimento), publicado no Le Monde Diplomatique (dez/2004). O consumo excessivo é uma preocupação sempre presente nos escritos de Latouche.

Em verdade, a impossibilidade da ilimitada ambição humana ser saciada pelos bens e serviços disponíveis em um mundo que, por ser global tornou-se mais vulnerável, ganhou evidência com a crise de 2008. Dois fatos ocorridos no final do século XX podem ajudar no entendimento do quadro.

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27 de fevereiro de 2013
A indústria ainda é importante?

Maria Clara R. M. do Prado

A questão em debate hoje, no Brasil e no mundo, sobre a capacidade do setor industrial em absorver mão de obra merece uma reflexão mais aprofundada. Afinal, qual o perfil e a função da industria nesta segunda década do século XXI? A crise de 2008, ainda com seus tentáculos em operação, terá aprofundado a tendência à especialização no setor produtivo?

Terá a crise contribuído para crivar uma divisão no processo econômico mundial, colocando, de um lado, os centros capazes de produzir com eficiência e alta produtividade, e, de outro, os centros de consumo, grandes compradores finais dos bens e serviços gerados nas economias de maior avanço tecnológico? Afinal, a indústria ainda é importante?

Todas são perguntas que estão na ordem do dia, muito embora versem sobre tema de difícil entendimento dado o processo ainda em curso de uma profunda fase de transição. Uma radiografa do que se passa hoje com o setor industrial no mundo pode ser captada no estudo elaborado pelo Mckinsey Global Institute.

Trata-se do trabalho “Manufacturing the Future: the Next Era of Global Growth and Innovation”. O cenário atual, colhido pelo Mckinsey, já dá uma boa idéia do grau de mudanças que têm assolapado modos e formas no sistema de produção e as conseqüências desses avanços. Alguns dados, aqui resumidos, atestam isso:

. 16% é a fatia do setor industrial na formação mundial do PIB

. Nas economias mais avançadas a quantidade de empregos gerada no setor industrial caiu de 62 milhões, em 2000, para 45 milhões em 2010. A queda é maior no segmento de uso mais intensivo de mão de obra, como a industria têxtil (ver gráfico abaixo).

A demanda global está hoje concentrada nos países menos desenvolvidos. A China dobrou a renda per capita de um bilhão de pessoas nos últimos doze anos, algo que a revolução industrial na Inglaterra levou 150 anos para conseguir, atingindo apenas nove milhões de pessoas.

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16 de setembro de 2010
Do consumo para o investimento

(publicado no jornal Valor Econômico em 16/09/2010)

Uma nova etapa deve marcar o comportamento da economia brasileira a partir de 2011. Independente de quem esteja no comando político do país, uma robusta etapa de investimentos no setor real da economia terá de ser engendrada daqui para frente como condição absolutamente necessária para a manutenção do crescimento da renda.

Seria a consolidação de um processo econômico que começou com a abertura econômica do início dos anos 90 e firmou o passo com a estabilização garantida pelo Plano Real, em 1994. De lá até o ano 2000, altos e baixos marcaram a trajetória do PIB brasileiro. A demanda por commodities no mercado internacional ajudou a impulsionar a economia a partir de então, mas não há dúvidas de que o grande sustentáculo veio da expansão do consumo interno. [ leia mais ]

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