Posts com a Tag ‘democracia’

25 de julho de 2017
A sede pela preservação do poder

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 25/07/2017)

 

Deslumbrado com a exuberância da floresta amazônica, com a pujança de São Paulo e com a criatividade do povo, Stefan Zweig, escritor austríaco e autor, entre outros, do livro Brasil, um País do Futuro (1941), impôs ao país a marca que ficaria para sempre registrada no imaginário popular. A sensação de um futuro que nunca chegará, de um futuro eterno e inalcançável, acabou por firmar-se, com os desmandos e a mediocridade prevalente no sistema político, como a mais realística interpretação do vaticínio de Zweig.

Já se disse que no Brasil até o passado é incerto. O futuro, então, não passaria de uma miragem recheada por um misto de devaneio, esperança e torcida. Via de regra, o futuro dificilmente se confirma no presente, o que o coloca sempre mais distante.

Pior do que um futuro fora de alcance é a cegueira que persiste em não querer enxergar o futuro como desdobramento natural das condições conforme se apresentam no presente.

O aumento de impostos determinado pelo governo sobre o preço dos combustíveis é um exemplo claro da resistência em perceber que a ampliação da carga tributária seria, mais uma vez, a alternativa para compatibilizar a receita com a despesa do setor público diante do tremendo quadro de recessão que tem afetado o país nos últimos três anos.

Não basta o eufemismo, nem o marketing político. O crescimento da economia depende da conjugação de vários fatores, como se sabe, mas tem hoje estreita relação com a absoluta incerteza quanto à situação política atual e, ainda mais obscuro, com a sucessão presidencial em janeiro de 2019.

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22 de outubro de 2014
Visão equivocada confunde eleitor

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 22/10/2014

As democracias desenvolvidas – solidificadas há pelo menos um século – evoluíram para o bipartidarismo na disputa pelo poder político, seja na esfera do Executivo, seja no Legislativo. É o caso dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outros países, onde a preferência do eleitorado se divide entre dois polos, identificados pelo que os difere ideologicamente. As eleições são decididas pelos eleitores “swings”, ou seja, por uma pequena margem de votantes que costuma oscilar de um lado para outro. As campanhas eleitorais focam, essencialmente, no voto dessa pequena parcela do eleitorado.

A estreita margem entre os candidatos nas pesquisas neste segundo turno da eleição presidencial brasileira tem apresentado um perfil similar ao das democracias mais desenvolvidas. Teria a jovem democracia brasileira conseguido alcançar um estágio mais avançado nesses 25 anos de existência, o mais longo período democrático contínuo do país em 514 anos de história? A resposta é não. Os motivos são vários.

Para começar, o bipartidarismo ou um sistema composto por poucos e expressivos partidos, é inexistente. Os 28 partidos que terão assento no Congresso Nacional a partir de janeiro – com 18 diferentes agremiações no Senado – são potenciais candidatos a replicarem o comportamento padrão do “é dando que se recebe”, das maracutaias, da compra de votos, da prevalência do privado sobre o público.

Além disso, a proliferação partidária abre espaço para esdrúxulas composições regionais que comprometem a identidade política dos partidos e confundem o eleitorado. Esse “saco de gatos”, para dizer o mínimo, está longe de caracterizar uma democracia evoluída.

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