Posts com a Tag ‘educação’

8 de setembro de 2016
O golpe e a corrupção

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 08/09/2016 no Valor Econômico)

 

A palavra golpe entrou na conversa do dia a dia no país. Golpe ou não golpe? Há os que a difundem nas manifestações de rua, nas plataformas digitais ou nas rodas de botequim. São os que repudiam a destituição da ex-presidente Dilma Rousseff, convencidos de que ela foi vítima de uma decisão que afronta a Constituição.

Há os que, defensores do afastamento, alimentam a estranha crença de que, proibindo o uso da palavra golpe – como ocorreu durante os jogos olímpicos – ou valendo-se da coerção física contra quem a usa, a farão desaparecer da boca dos brasileiros, como em passe de mágica.

Estranha e conflitante crença que, ao defender preceitos constitucionais afetos à substância e ao rito do “impeachment”, confronta a própria Constituição que nos artigos 1º, 5º e 220º garante a liberdade de pensamento e de expressão e veda toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística. Além de anticonstitucional, é inócua, pois ao insistir-se em abafar os ecos da expressão golpe, está-se apenas contribuindo para difundi-la ainda mais.

O termo não tem frequentado apenas as conversas corriqueiras dos brasileiros. Está na mídia internacional que além da expressão golpe tem associado o Brasil a outra palavra, menos controversa, mas altamente comprometedora, a corrupção.

Há uma relação entre elas. Não seria uma tentativa de golpe as artimanhas invocadas sucessivamente na tentativa de evitar a cassação do deputado Eduardo Cunha, envolvido em inúmeros casos indicativos de corrupção, sendo ele mesmo já réu junto ao Supremo Tribunal Federal (STF)?

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14 de maio de 2015
Imediatismo, doença brasileira

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 14/05/2015)

 

O quadro econômico do país deu uma aliviada, mas continua sombrio. A se confirmarem os prognósticos do FMI no relatório sobre o Brasil – originário da consulta anual sob a égide do artigo 4º dos estatutos do fundo – só em 2017 se poderá contar com uma taxa de crescimento mais decente, ao redor de 2%.

A inflação tende a ceder depois da puxada nos juros, mas vai demorar. A taxa de câmbio não vai dar refresco a médio prazo, mesmo porque não depende apenas dos humores políticos internos, mas também, e principalmente, da larga dependência da economia brasileira aos movimentos da política monetária norte-americana.

Além disso, o dólar tende a valorizar-se face ao real pelo inexorável fato de que o crescimento da maior economia do mundo desloca de volta para seu território o pêndulo da prosperidade que muitos acreditaram ter se desviado definitivamente em favor da China. A desvalorização do real pode ajudar nas exportações, mas isso não significa muito em um país de economia tradicionalmente fechada, onde a venda de bens para o exterior equivale a apenas 11% do PIB.

Alguns festejam. Pode-se ganhar com operações financeiras bem estruturadas. O juro mais elevado, necessário para reduzir a inflação, ajuda a quem prefere os rendimentos fáceis do investimento financeiro ao lucro incerto do investimento produtivo.

O Brasil segue firme na tradição de funcionar no compasso do curto prazo. Salvo momentos muito pontuais da sua história, o imediatismo tem dado o tom, a cara e o ritmo do errático processo de desenvolvimento do país. A primazia do curto prazo persiste mesmo depois do desaparecimento da hiperinflação.

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21 de novembro de 2014
As polêmicas da USP

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 20/11/2014)

 

Por si, dado o grau da selvageria, as denúncias de estupro envolvendo estudantes da USP já seria motivo mais do que suficiente para manchar a reputação do centro universitário cujo nível de ensino tem sido o mais bem avaliado da América Latina. Mas a perspectiva de comprometimento da imagem de excelência se agrava pelo inchaço das despesas, conforme observado nos últimos anos, à semelhança de outras repartições públicas usadas como “cabide de emprego”. Aquele tipo em que altos salários e estabilidade são garantidos às custas do contribuinte, sem parâmetros, sem limites e sem prestações de conta.

Ambas as situações – estupros e negligência financeira – são sinais de deterioração: o primeiro indica falta de civilidade, remetendo a comportamentos sociais dos primórdios da humanidade, e o segundo aponta para o descaso com a coisa pública, típico de sociedades subdesenvolvidas. Neste caso, a USP não é, infelizmente, o único exemplo no Brasil, muito embora emblemático pelo grau de respeitabilidade conquistado ao longo de anos passados e pelo tipo de serviço que oferece.

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23 de maio de 2014
Do mercado à desigualdade

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 22/05/2014 no Valor Económico)

É impressionante a quantidade de papers dedicados à questão da desigualdade nos Estados Unidos. A mudança de foco de alguns relevantes economistas, deixando em segundo plano o imperativo das forças de mercado, a favor de uma visão mais voltada à distribuição da renda e sua importância para o desenvolvimento de uma economia mais equilibrada e, portanto, mais sólida, deve-se dizer, não é recente.

Há dois anos, Joseph Stiglitz lançou “O Preço da Desigualdade”, chamando a atenção para a crescente concentração de renda nos Estados Unidos e como isso molda a configuração das forças políticas em uma espécie de simbiose que pode comprometer o caráter universal e inclusivo da democracia do país.

Em abril, um paper preliminar dos cientistas políticos Martin Gilens, da Universidade de Princeton, e Benjamin Page, da Northwestern University, levanta o argumento de que os Estados Unidos não funcionam mais como uma democracia, mas como uma oligarquia.

A novidade, no entanto, está na disseminação do tema no meio dos economistas. Paul Krugman e Robert Shiller têm colocado luz no aumento da desigualdade nos Estados Unidos e inspirado vários trabalhos acadêmicos e de especialistas em estudos econômicos. Não é de se estranhar, portanto, o imediato sucesso no meio americano do livro de Thomas Piketty (Escola de Economia de Paris), “Capital no Século Vinte e Um”.

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9 de agosto de 2013
Crise, palavra que contamina

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 18/07/2013 no Valor Econômico)

 

As estimativas de crescimento do PIB brasileiro variam: há quem aposte em expansão mais modesta para este ano, abaixo mesmo de 2%, há os que trabalham com expectativa mais otimista, chegando perto dos 3%.

Também há aqueles que pintam um quadro sombrio para o país no curto e no médio prazos e os que esperam dias mais radiantes. Os prognósticos vão de um extremo a outro, muitas vezes movidos por egoísticos interesses políticos, para não dizer partidários, e cada vez mais estimulados pelo efeito “manada” (pela falta de uma palavra mais bonita) das reivindicações populares que acometeram os brasileiros a partir de junho.

O quadro econômico do país não chega a ser tão dramático como projetam alguns analistas. Parece que, de repente, a crise que atinge a maior parte da zona do euro passou a contaminar o Brasil na mesma dimensão, o que está longe de ser uma verdade.

É certo que alguns dados econômicos merecem atenção: o maior endividamento das famílias, os índices de inflação, as taxas de investimento, as contas externas, enfim… Estatísticas que precisam ser monitoradas regularmente com o objetivo justamente de evitar uma crise, ou seja, uma situação de ruptura e de perdas que desestabilizam o equilíbrio social.

Não é igual à do jovem brasileiro em geral, por exemplo, a situação do jovem espanhol, ou grego, ou português. Vivenciam situações opostas: enquanto no Brasil a demanda por mão de obra mantém-se em nível elevado, beneficiando assim o jovem trabalhador, a realidade em boa parte dos países da zona do euro é diametralmente oposta: o desemprego é alto e crescente.

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20 de junho de 2013
A cara política da classe média

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 20/06/2013 no Valor Econômico)

O país descobriu nos últimos dias algo que não deveria ter surpreendido analistas, deputados e senadores, governantes e estudiosos: o sentimento de “pertencer” – fazer parte de uma sociedade – da classe média, que implica tomar ciência da condição de cidadão como contribuinte e eleitor. O que se vê nas ruas é uma cobrança generalizada por serviços públicos de melhor qualidade e em maior quantidade, maior responsabilidade por parte dos políticos em geral e total repúdio ao desvio do dinheiro que se paga na forma de taxas e impostos.

Quem se surpreendeu com a mobilização do povo não levou em conta um fato banal: junto com a melhoria de renda não surgem apenas novos consumidores, mas também pessoas melhor informadas, inseridas no tecido da sociedade e, portanto, atentas aos seus direitos.

Desde 1994, quando se conseguiu estabilizar o país, passando depois pelas políticas públicas de redistribuição de renda introduzidas pelo governo Lula, só se enxergou as consequências do aumento de padrão de vida da população de renda mais baixa pela ótica econômica. Os números são abundantes. Falam do maior acesso ao crédito bancário, do aumento no uso dos cartões de crédito, das volumosas vendas de bens duráveis e de uma demanda ampliada por serviços básicos, sem esquecer dos números exponenciais de usuários de telefone celular (já agora na categoria dos “smartphones”) e de computadores.

Era como se os 40 milhões de brasileiros socialmente ascendentes para a classe C não tivessem ouvidos e muito menos capacidade de percepção e daí o espanto geral com a massa de gente que resolveu deixar claro que além da econômica, também tem uma cara política.

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