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9 de fevereiro de 2017
O monetarismo revisitado, 100 anos depois

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 09/02/2017)

 

Criativo, e por isso polêmico, o economista André Lara-Resende suscitou uma reviravolta no meio acadêmico brasileiro com a publicação de um artigo na edição de 13 de janeiro deste jornal, sob o título “Juros e conservadorismo intelectual”. Idealizador, junto com Persio Arida, da moeda indexada em 1985 que redundou na URV do Plano Real em 1994, e criador da LBC (letra do banco central) na época do Plano Cruzado com  intenção de aliviar a relação entre a dívida pública e a política monetária nas operações entre o Banco Central e as instituições bancárias, tudo o que André escreve ou fala sempre desperta interesse.

Apesar do artigo de André no Valor não trazer nenhuma proposta, o simples fato de chamar a atenção para o debate monetário que circula na academia internacional foi suficiente para introduzir os economistas brasileiros na discussão.

No texto, ele replica e apoia os argumentos do economista norte-americano, John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, de que a política de Quantitative Easing (QE), adotada pelos bancos centrais das economias desenvolvidas para debelar a crise de 2008 e estimular a atividade, estaria introduzindo uma grande novidade no campo das teorias monetárias pela persistência da baixa inflação com juros nominais próximos de zero.

Cochrane, no artigo “Michelson-Morley, Occam and Fisher: The Radical Implications of Stable Inflation at Near-Zero Interest Rates” (As Implicações Radicais da Inflação Estabilizada a Taxas de Juros Perto de Zero), de dezembro de 2016, apresenta o conceito de “estabilidade da inflação”, ou seja, apesar da maciça quantidade de moeda injetada nos mercados pelos bancos centrais nos últimos anos, da taxa de juro próxima de zero e dos estímulos fiscais, a inflação tem se mantido estável, contrariando a verdade monetária predominante em todo os século XX de que juros baixos estimulam a inflação, enquanto que juros altos funcionam para reduzir a inflação. A idéia de que a inflação é estável e determinada, defendida por Cochrane, se efetivamente procedente, viria romper sem dúvida com o paradigma monetário prevalente.

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12 de maio de 2016
Pela urgência da reforma política

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 12/05/2016)

 

Não é de hoje que o Brasil é um país dividido. Não por ideologia, mas pela renda mal distribuída, pela assimetria no acesso às oportunidades, pelas péssimas condições da educação pública, idem para os cuidados com a saúde e com o saneamento, enfim… nada de que já não se saiba. Malgrado os discursos a favor do progresso e do desenvolvimento, há algo de atávico na sociedade brasileira que puxa para trás.

O status quo perdura pela influencia de poderosos grupos apegados a privilégios e interesses individuais e, portanto, ao atraso. Rupturas sociais são, em geral, processos demorados, sofridos e conflituosos. A sociedade, no entanto, evolui independentemente da vontade de A ou B. Por consenso ou por conflito.

Desde a redemocratização, foram três os grandes saltos que, por consenso, garantiram avanços sociais, econômicos e institucionais ao país. Um deles levou à Constituição de 1988. Foi o primeiro grande pacto político a partir de 1985. Garantiu direitos sociais e econômicos à população, criou o Superior Tribunal de Justiça (STJ), além de fortalecer e conferir independência ao Ministério Público, fundamental para as investigações relacionadas à corrupção no país.

Mas de pouco adiantava a letra escrita na chamada Carta Magna diante de uma inflação que corria solta, a galope. Após fracassados projetos de estabilização e ideias mirabolantes (caça aos marajás), outro grande salto surgiu com o entendimento político arrematado em 1993 entre o PSDB e o antigo PFL, com apoio de empresários, trabalhadores e da mídia, culminando no Plano Real. A percepção generalizada de que a inflação chegara ao limite viabilizou o segundo pacto político desta era democrática.

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18 de abril de 2013
Expectativas à deriva

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 18/04/2013 no Valor Econômico)

 

Afinal, qual é o nível da taxa de juros básica, a Selic, em termos reais,  necessário para abater as previsões da inflação futura e, ao mesmo tempo,  satisfazer a orientação do governo no sentido de que é prioritário manter a  economia em crescimento?

A questão, de difícil solução, pairava no ar, ontem, enquanto o país  aguardava pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre o que fazer  com a taxa Selic.

E não por acaso. Quanto mais alta for a inflação esperada, menores tendem a  ser os juros reais projetados, com repercussão na poupança e no consumo, e, por  conseguinte, nos preços.

A manutenção da Selic nominal em 7,25% ao ano, supondo uma inflação (pelo  IPCA) consensualmente estimada hoje, em média, em torno de 5,8% na ponta de  dezembro, implicaria em juro real básico na faixa de 1,37% ao ano.

A alta da Selic nominal para 7,50%, dada a mesma projeção do IPCA para o ano,  representa taxa real ao redor de 1,6% ao ano. Já uma Selic um pouco mais  elevada, na faixa de 7,75% ao ano, garante uma taxa real em torno de 1,85% ao  ano.

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17 de março de 2011
Momento não recomenda bravatas

(publicado no jornal Valor Econômico em 17/03/2011)

O Brasil não tem um problema de contas externas, mas tem sérios problemas econômicos internos. Todos relacionados ao tripé câmbio/ juros/ inflação. Não são questões novas. Arrastam-se há mais de dez anos. Para ser justa, desde 1995, quando se percebeu que câmbio apreciado era o melhor antídoto contra o retorno à nociva hiperinflação. Todos se lembram do esforço colossal, necessário nos primeiros anos, para perpetuar a estabilização do real.

Nos últimos dez anos, as benesses globais da conjunção inflação baixa e crescimento robusto, em situação de farta liquidez, caíram como luva para garantir a valorização da moeda nacional e, assim, a estabilidade monetária. Ninguém no governo teve, no entanto, coragem sequer de triscar a configuração da sagrada trindade câmbio/ juros/ inflação. [ leia mais ]

19 de agosto de 2010
Compassos e descompassos do BC

(publicado no jornal Valor Econômico em 19/08/2010)

Pode-se atribuir às incertezas naturais de anos de eleição as diferenças entre o fazer e o dizer do Banco Central

A celeuma sobre o compasso ou o descompasso entre as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) e as informações divulgadas em atas e relatórios serve para colocar luz sobre alguns falsos dogmas relacionados com a política monetária.

Primeiro, não há e nunca houve, em tempo algum, formas cravadas em pedra de gerenciamento da estabilidade da moeda. A administração monetária deve ter o único objetivo de manter a moeda protegida contra os efeitos da inflação. Como se sabe, nenhum Banco Central (BC) do mundo tem o poder de controlar todos os fatores que aumentam ou diminuem o comportamento dos preços na economia. Apenas tem sob sua responsabilidade direta a definição do nível da taxa de juros básica e, em alguns países, a tarefa de monitorar a política cambial. [ leia mais ]

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