Posts com a Tag ‘Estados Unidos’

13 de agosto de 2015
A transição que nos abala

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 09/07/2015 no Valor Econômico)

 

Quando a última edição do recém lançado Global Economic Prospects (Perspectivas Econômicas Globais) foi escrita, certamente os economistas do Banco Mundial não podiam prever os desdobramentos financeiros e políticos que aprofundariam a crise da Grécia em julho, com potencial de comprometer o projeto de integração da Europa, nascido no rastro da destruição e das desconfianças dos primeiros anos pós Segunda Guerra Mundial.

A Grécia, independente de ficar ou de sair da zona do Euro, entra para a história não apenas como símbolo de resistência às medidas de austeridade, democraticamente repudiadas no referendo de domingo.

Sobressai, para além da dificuldade competitiva, resultante de um regime monetário que pretendeu unir Estados de diferentes perfis e estágios de desenvolvimento, a confirmação da impossibilidade de uma comunidade de países sobrepor-se politicamente à soberania de cada um dos países que dela fazem parte.

Foi por temer a perda da soberania sobre a determinação de seu destino político que a Grã-Bretanha não aderiu ao euro, tendo até mesmo mais recentemente levantado dúvidas sobre a sua permanência na União Europeia. Outros países, como se sabe, ficaram de fora, mas não há dúvidas de que a situação da Grécia é a mais emblemática nesta fase de incerteza sobre o futuro da Europa.

 

Mesmo sem antever o aprofundamento da crise grega e, também, sem prever os recentes traumas que têm afetado a economia chinesa, o Banco Mundial deu ênfase à palavra “transição” nesta edição do Global Economic Prospects. Não por acaso, o sub-títuto é “The Global Economy in Transition”. Sua leitura nos dá a dimensão de que o pior está por vir.

A prosperidade do final do século XX parecia infinita. Bebeu-se na fonte das possibilidades de progresso abertas pelo fim da Guerra Fria, mas deixou-se que as operações financeiras e comerciais, avolumadas com o ingresso na economia de mercado dos países da Europa Central e com os avanços da China, corressem soltas, à fartura, sem regulação e sem parâmetro.

De que transição fala o Banco Mundial? Daquela que vai recolocar os Estados Unidos na posição de economia hegemônica mundial, derrubando definitivamente a tese predominante há alguns anos – no tempo das vacas gordas – de que a China continuaria a crescer de forma robusta,  desbancando os norte-americanos do lugar preponderante que passaram a ocupar depois da Segunda Guerra Mundial, justamente quando a Europa lambia as suas feridas.

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23 de maio de 2014
Do mercado à desigualdade

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 22/05/2014 no Valor Económico)

É impressionante a quantidade de papers dedicados à questão da desigualdade nos Estados Unidos. A mudança de foco de alguns relevantes economistas, deixando em segundo plano o imperativo das forças de mercado, a favor de uma visão mais voltada à distribuição da renda e sua importância para o desenvolvimento de uma economia mais equilibrada e, portanto, mais sólida, deve-se dizer, não é recente.

Há dois anos, Joseph Stiglitz lançou “O Preço da Desigualdade”, chamando a atenção para a crescente concentração de renda nos Estados Unidos e como isso molda a configuração das forças políticas em uma espécie de simbiose que pode comprometer o caráter universal e inclusivo da democracia do país.

Em abril, um paper preliminar dos cientistas políticos Martin Gilens, da Universidade de Princeton, e Benjamin Page, da Northwestern University, levanta o argumento de que os Estados Unidos não funcionam mais como uma democracia, mas como uma oligarquia.

A novidade, no entanto, está na disseminação do tema no meio dos economistas. Paul Krugman e Robert Shiller têm colocado luz no aumento da desigualdade nos Estados Unidos e inspirado vários trabalhos acadêmicos e de especialistas em estudos econômicos. Não é de se estranhar, portanto, o imediato sucesso no meio americano do livro de Thomas Piketty (Escola de Economia de Paris), “Capital no Século Vinte e Um”.

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21 de janeiro de 2013
Valor agregado no comércio externo

Maria Clara R. M. do Prado

Um celular do tipo smartphone exportado pela China para os Estados Unidos pelo valor de US$ 100 tem, em geral, de US$ 10 a US$ 20 de produtos de origem chinesa. O resto vem de outros países. São produtos e serviços que a China importa na forma de partes, componentes, design ou outros tipos para produzir o celular e vendê-lo totalmente montado para o mercado norte-americano.

Na balança comercial da China, aquele celular será computado como receita no valor de US$ 100. No entanto, quando medido em termos de valor agregado aquela exportação terá efetivamente rendido à China muito menos, ou seja, 10% a 20% do valor bruto total.

Aquele é apenas um exemplo captado pelo novo sistema de mensuração do comércio externo mundial, montado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em parceria com a OCDE (Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico). O objetivo é obter informações sobre o comércio internacional a partir do conceito de valor agregado (VA). Ou seja, uma tentativa de medir quanto foi alocado de produto importado nas diversas etapas da cadeia de oferta de produtos finais e de serviços entre os países.

O resultado da aplicação da nova estatística apresentada na semana passada pela parceria OMC-OCDE mostra o grau de internacionalização comercial entre os diferentes países e ajuda a entender melhor o efetivo papel do comércio externo na geração da renda e dos empregos. [ leia mais ]

15 de setembro de 2011
Querem enquadrar os culpados!

(publicado no jornal Valor Econômico em 15/09/2011)

Quanto mais se agrava a situação econômico-financeira dos países mais desenvolvidos, assim chamados até aqui, menos clareza parece haver na percepção dos analistas de mercado quanto às mudanças de rumo e de prumo que têm tomado forma nos últimos três anos. A rigor, no 3º aniversário, completado hoje, da quebra formal do Lehman Brothers, predomina entre os porta-vozes do mercado financeiro a mesma postura de superioridade que ao longo dos anos dourados do crescimento mundial influenciou formadores de opinião, o mundo acadêmico e a política econômica do governo. A impressão que se tem, pelo menos por aqui, é a de que a ficha não caiu!

No entanto, o quadro é outro. São absolutamente vãs as tentativas no sentido de “enquadrar a crise”. Assim como são vãs, além de fundamentalmente equivocadas, as análises que teimam em ler os dados conjunturais de hoje com os mesmos olhos que guiaram opiniões e comentários no passado recente. Fizeram sentido até a “explosão” do sistema financeiro nos Estados Unidos, em 2008. Ocorre que a crise pegou no fundo justamente do segmento que mais evidência teve no cenário econômico e financeiro nos anos 90 e em boa parte da década passada. Junto, foram afetados princípios, crenças, dogmas e comportamentos. Mas nem todos se aperceberam disso, por inércia ou por omissão. [ leia mais ]

18 de novembro de 2010
Incompetência monetária

(publicado no jornal Valor Econômico em 18/11/2010)

Qualquer que seja o ângulo pelo qual se analise a decisão, nenhum ajuda a redimir o Fed da incompetência monetária.

Primeiro: falha no objetivo a que se propôs de estimular a economia interna com a farta distribuição de liquidez. O motivo da inoperância da medida tem a ver com a racionalidade dos americanos que, diante de taxas de desemprego ainda muito elevadas e sem a perspectiva de que dias melhores virão no curto e médio prazos, têm se esquivado de tomar empréstimo. Os bancos, por seu lado, temerosos de micarem com credores inadimplentes, preferem manter o dinheiro em caixa. A economia, no geral, não se move e o dinheiro tende a circular menos. Não é algo que possa ser resolvido com liquidez. Há um forte elemento psicológico envolvido no cenário da recessão dos Estados Unidos. Afinal, de que serve ter dólares se não há confiança nem mesmo daqueles que têm emprego quanto ao futuro da sua renda? [ leia mais ]

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18 de março de 2010
A imagem invertida das contas correntes

(publicado no jornal Valor Econômico em 18/03/2010)

Tal qual uma imagem invertida, conforme refletida no espelho, a evolução das contas correntes dos balanços de pagamentos dos países com influência global sintetiza em números a dualidade que move a economia internacional desde o início da década de 90. Naquela altura, os Estados Unidos ainda eram capazes de gerar superávit em conta corrente, embora próximo a zero.

Na medida em que se expandiu a farra consumista norte-americana, estimulada por uma política monetária frouxa e o inchaço dos preços dos ativos, o déficit corrente dos Estados Unidos entrou em franca rota de expansão. Em 1995, a conta corrente daquele país já apresentava resultado negativo de US$ 113,56 bilhões, ampliado para US$ 706,07 bilhões em dezembro de 2008.

A China ocupou gradativamente o lugar do Japão na lista dos mais superavitários. De um resultado positivo modesto de US$ 1,62 bilhão em 1995, os chineses pularam para um superávit corrente de US$ 426,11 bilhões em 2008, bem acima do Japão que naquele mesmo ano gerou valor positivo de US$ 156,63 bilhões. [ leia mais ]